Pré-publicação de 'Vozes de Chernobyl' de Svetlana Alexievich

A explosão da central nuclear de Chernobil é o tema do segundo livro publicado em Portugal da mais recente Prémio Nobel da Literatura.

O discurso da escritora Svetlana Alexievich ao receber o Prémio Nobel da Literatura em outubro de 2015 foi tão duro como os livros que escreve e que a levaram até Estocolmo. Um agradecimento que começou assim: "Eu não estou só neste palco... Há vozes à minha volta, centenas de vozes. Elas estiveram sempre comigo, desde a juventude." Entre as vozes que referia estarem à sua volta, destacavam-se as ouvidas durante a investigação para escrever Vozes de Chernobil - História de Um Desastre Nuclear, que agora é traduzido para a língua portuguesa e chega às livrarias na próxima semana.

Uma destas vozes, tal como a da pré-publicação ao lado, era de uma mulher casada com um dos bombeiros que acorreram ao acidente nuclear sem saberem ao que iam. Cuja voz a escritora fez questão de recordar ao reproduzir parte do depoimento na cerimónia de entrega do Nobel: "Nós vivíamos perto da central nuclear de Chernobil. Eu trabalhava numa pastelaria e fazia bolos. O meu marido era bombeiro. Tínhamos casado há muito pouco tempo e andávamos sempre de mãos dadas, mesmo que o nosso caminho fosse apenas até à loja perto de casa."

São histórias como estas, que quando se começam a aprofundar durante a leitura se tornam de uma grande violência e de gigantesca dor, que preenchem as trezentas páginas da segunda obra de Svetlana Alexievich traduzida em Portugal. Vozes de Chernobil é o primeiro dos vários títulos com que a editora Elsinore irá divulgar as obras da ucraniana mais conhecida pela sua forte oposição à política da ex--União Soviética. Em setembro será publicado A Guerra não Tem Rosto de Mulher e em 2017 será a vez de As Últimas Testemunhas e do polémico Rapazes de Zinco.

Pré-publicação do primeiro capítulo de 'Vozes de Chernobil'

l Não sei do que hei de falar... Da morte ou do amor? Ou serão eles a mesma coisa... De qual deles devo falar?

...Éramos recém-casados. Ainda andávamos de mãos dadas, mesmo que fosse para ir apenas à loja. Sempre juntos. Eu dizia-lhe: "Amo-te." Mas nessa altura não sabia o quanto. Não fazia ideia... Vivíamos na residência coletiva do quartel de bombeiros onde ele trabalhava. No primeiro andar. Havia três jovens casais, partilhávamos todos a cozinha. Em baixo, no rés do chão, guardavam-se os veículos. Veículos vermelhos de combate ao fogo. Era esse o seu trabalho. Eu estava sempre a par da situação: onde ele se encontrava, o que lhe acontecia. Certa noite, ouvi um barulho. Gritos. Olhei pela janela lá para fora. Ele viu-me. "Fecha os postigos e vai-te deitar. Há um incêndio na central. Já volto."

Não vi a explosão propriamente dita. Só as chamas. Tudo irradiava luz... Todo o céu... Uma chama alta. E fuligem. O calor era horrível. E ele, que não voltava. A fuligem vinha do betume queimado, o telhado era betumado. Mais tarde, disse-me que era como andar em cima de alcatrão. Eles fustigavam as chamas, mas elas iam reaparecendo. Subindo. Atiravam a grafite em chamas com os pés. Foram sem o equipamento de lona, só como estavam, em mangas de camisa. Ninguém os avisara, tinham sido chamados para um incêndio comum.

Quatro horas... Cinco... Seis... Às seis horas, tínhamos de ir a casa dos pais dele. Plantar batatas. São quarenta quilómetros de Pripiat a aldeia de Sperijie‚ onde viviam os pais dele. Semear‚ arar... Ele adorava fazer isso... A mãe dele recordava com frequência que não queriam que ele se mudasse para a cidade, até lhe tinham construído uma casa nova. Foi para a tropa. Cumpriu serviço no corpo militar de bombeiros, em Moscovo, e quando saiu só queria ser bombeiro. Não admitia outra coisa! [Silêncio.]

Às vezes é como se ouvisse a voz dele... Viva... Nem as fotografias tem o mesmo efeito em mim que aquela voz. Mas ele nunca me chama. Nem em sonhos... Sou eu quem o chama...

Sete horas... Às sete disseram-me que ele estava no hospital. Corri até lá mas a militsia já tinha rodeado o local e não deixava ninguém passar. Só ambulâncias. Os polícias gritavam: Não se aproximem das ambulâncias, a escala do contador já não chega para medir a radiação! Eu não era a única pessoa que ali estava; todas as mulheres cujos maridos estavam na central naquela noite tinham vindo. Comecei a procurar uma amiga, que era médica naquele hospital. Agarrei-a pela bata, quando ela saiu da ambulância: "Leva-me lá para dentro!" "Não posso. Ele esta mal. Estão todos." Não a larguei: "Só para o ver!" "Está bem", disse-me, "mas rápido! Só quinze ou vinte minutos." Vi-o... Todo inchado, intumescido... Mal se conseguia ver-lhe os olhos..."Ele precisa de leite. Muito leite!", disse a minha amiga. "Deviam todos beber pelo menos três litros." "Mas ele não gosta de leite." "Agora, vai beber." Muitos dos médicos e das enfermeiras naquele hospital especialmente as auxiliares, ficariam doentes passado algum tempo. E morreriam. Mas nessa altura ninguém sabia disso.

Às dez da manhã morreu Chichenok, o operador. Foi o primeiro. No primeiro dia... Ficámos a saber que deixaram outro debaixo dos escombros: Valera Khodemtchuk. Nunca conseguiram chegar até ele. Betonaram-no. E, nessa altura, ainda não sabíamos que todos eles seriam só os primeiros...

Digo: "Vassenka, o que hei de fazer?" "Sai daqui! Vai! Terás o nosso filho." Estou grávida. Mas como posso eu deixá-lo? Pede: "Vai-te embora! Salva o bebé!" "Primeiro tenho de te trazer leite, depois decidimos."

A minha amiga Tania Kibenok entra a correr... O marido dela está na mesma enfermaria. O pai está com ela, tem carro. Entramos e seguimos até à aldeia mais próxima para ir buscar leite, a cerca de três quilómetros da cidade... Compramos muitos frascos de leite de três litros... Seis, para que chegue para todos... Mas o leite fazia-os vomitar... Estavam sempre a desmaiar, administravam-lhes soro. Os médicos repetiam, não se sabe porquê, que eles tinham sido contaminados com gases, ninguém falou de radiação. E a cidade foi inundada de veículos militares, todas as estradas foram encerradas. Havia soldados por todo o lado. Os comboios urbanos deixaram de circular, e os outros também. Andavam a lavar as ruas com um pó branco qualquer...

Perguntava-me como iria para a aldeia no dia seguinte, para comprar mais leite fresco. Ninguém falava da radiação. Só o pessoal militar andava com respiradores... As pessoas na cidade traziam das lojas pão, cartuchos abertos com rebuçados. Os bolos estavam expostos nos tabuleiros... Como habitualmente. Só que... Andavam a lavar as ruas com um pó qualquer...

Não me deixaram entrar no hospital nessa noite. Havia um mar de gente à volta. Fiquei debaixo da janela dele, ele veio e gritou-me qualquer coisa. Com tanto desespero! Alguém na multidão o ouviu: eles iam ser levados para Moscovo nessa noite. As mulheres juntaram-se todas em grupo. Decidimos que iríamos todas com eles. Deixem-nos ir com os nossos maridos! Vocês não tem direito! Demos murros e arranhámo-los. Os soldados - já havia um cordão de duas filas - empurraram-nos para trás. O médico veio então cá fora e disse que sim, que iam viajar de avião para Moscovo, mas que nos tínhamos de lhes trazer roupas: as que eles tinham na central haviam ficado queimadas. Os autocarros já tinham deixado de circular, e nós corremos por toda a cidade. Voltámos a correr com os sacos deles, mas o avião já tinha partido. Enganaram-nos. Para que não estivéssemos lá, aos gritos e a chorar.

E de noite... De um lado da rua há autocarros, centenas de autocarros - já estavam a preparar a cidade para ser evacuada -, e do outro, centenas de veículos de bombeiros. Vieram de toda a parte. Toda a rua coberta de uma espuma branca. E nós a caminhar sobre ela... A soltar pragas e a chorar.

Anúncio pela rádio: a cidade será evacuada por três a cinco dias, que levemos os nossos agasalhos e fatos de treino, vamos ficar a viver na floresta. Em tendas. As pessoas até ficaram contentes: uma excursão de campismo! Vamos celebrar lá o Primeiro de Maio. Para variar. As pessoas preparavam espetadas para churrasco, compravam vinho. Levaram consigo as violas, os gravadores. Só as mulheres com os maridos sinistrados choravam.

Não me lembro da viagem... É como se tivesse acordado quando vi a mãe dele: "Mamã, o Vassia está em Moscovo! Levaram-no num avião especial!" Mas acabámos de plantar a horta: batatas, couves (uma semana depois, a aldeia foi evacuada). Quem sabia? Quem sabia disso, nessa altura? Ao fim do dia comecei a vomitar. Estava grávida de seis meses. Sentia-me péssima... Nessa noite sonhei que ele me chamava, em vida chamava-me enquanto dormia: "Liussia! Liussenka!" Mas, depois de ele morrer, nunca mais me chamou em sonhos. Nem uma única vez... [Começa a chorar.] Levantei-me de manhã a pensar que tinha de ir para Moscovo sozinha... A sogra chora: "Aonde é que tu vais, assim como estás?" Também preparou a viagem do sogro: "Ele que te leve." Levantaram da conta o dinheiro que tinham. O dinheiro todo.

Não me lembro da viagem... A viagem escapou-me novamente da memória... Em Moscovo, perguntámos ao primeiro polícia que encontramos em que hospital estavam os bombeiros de Chernobil, e ele disse-nos. Até fiquei surpreendida, porque nos assustavam: segredo de Estado, sigilo absoluto.

"No Hospital n.o 6. Metro Chtchukinskaia..."

Era um hospital especial, vocacionado para radiologia, e não se podia entrar sem uma autorização. Dei algum dinheiro à porteira, e ela disse: "Vai." Disse-me qual era o piso. Voltei a pedir a alguém, implorei... Estou por fim sentada no gabinete da chefe do serviço de radiologia, Angelina Vassilievna Guskova. Na altura não sabia como ela se chamava, não fixava nada. Só sabia que tinha de o ver. De o encontrar.

Perguntou-me de imediato: "Minha querida! Tens filhos?"

Como é que o hei de confessar? Já consigo perceber que tenho de esconder que estou grávida. Não me vai deixar vê-lo! Ainda bem que sou magra, não se nota nada.

"Sim", digo.

"Quantos?"

Penso: Tenho de lhe dizer que dois. Se for só um, não me deixa entrar.

"Um rapaz e uma rapariga."

"Então talvez não vás ter mais. Agora ouve: lesão total do sistema nervoso central, lesão total da medula óssea..."

Paciência, penso, vai ficar um pouco nervoso.

"E ouve: se começares a chorar, expulso-te logo daqui. Nada de abraços nem beijos. Nem sequer te chegues a ele. Tens meia hora."

Mas eu já sabia que não me ia embora. Só me vou embora com ele. Jurei a mim mesma!

Entro... Eles estão sentados na cama, a jogar às cartas e a rir-se.

"Vassia!", chamam por ele. Ele volta-se: "Eh pá, estou tramado! Até aqui ela me encontrou!"

Está com um ar engraçado, com um pijama 48, quando veste 52. Mangas curtas, calças curtas. Mas já não tem a cara inchada... Fizeram-lhes a infusão de uma solução qualquer...

"Onde e que te tinhas metido?", pergunto.

Ele quer-me abraçar.

"Fique aí." O médico não o deixa aproximar-se de mim. "Nada de abraços aqui."

Fizemos disto uma piada, não sei como. E depois apareceu toda a gente, e das outras enfermarias também. Todos dos nossos. De Pripiat. Tinham chegado vinte e oito pessoas no avião. O que é que se passa lá? Como estão as coisas na cidade? Respondo-lhes que começou a evacuação, a cidade toda vai despovoar-se durante três ou cinco dias. Os rapazes ficam calados... Estavam lá mais duas mulheres, uma delas estava de serviço no posto de controlo à entrada, no dia do acidente, e começa a chorar.

"Oh, meu Deus! Os meus filhos estão lá. O que vai ser deles?"

Eu queria estar sozinha com ele, nem que fosse por um minuto. O pessoal apercebeu-se disso, cada um deles pensou numa desculpa e foram todos para o corredor. Então, abracei-o e beijei-o. Ele afastou-se.

"Não te sentes perto de mim. Pega numa cadeira."

"Que disparate." Fiz um gesto de desprezo. "Viste o local da explosão? O que e que está lá? Vocês foram os primeiros a chegar..."

"É capaz de ter sido sabotagem. Alguém fez aquilo intencionalmente. Toda a malta é dessa opinião." Era o que as pessoas diziam, nessa altura. O que pensavam. Quando voltei no dia seguinte, já estavam sozinhos, cada um no quarto individual. Ficaram categoricamente proibidos de ir até ao corredor. De falar uns com os outros. Batiam na parede com os nós dos dedos; traço-ponto, traço-ponto... Ponto... Os médicos explicaram que cada organismo reage de forma diferente às doses de radiação, e o que uma pessoa consegue suportar pode estar acima das forças de outra pessoa. Lá onde eles estavam, até as paredes ficaram fortemente radioativas. À direita, à esquerda e no andar de baixo... Retiraram todas as pessoas, nem um doente ficou... No andar de baixo e no andar de cima não ficou ninguém.

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