Porque não bastam formas bonitas, aqui está a Trienal de Arquitetura de Lisboa

Até dezembro, a Trienal propõe-se pensar a forma como a arquitetura transforma o nosso mundo. A primeira exposição abriu hoje e está ligada ao MAAT.

Uma construção que se agiganta dentro de uma construção que já é gigante. A exposição "A Forma da Forma" aparece-nos, antes de mais, como mais uma porta de entrada para a Central Tejo (e também para o MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, hoje inaugurado), mas na verdade trata-se de uma porta de entrada para a quarta edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa. Também ela abriu hoje as suas portas e tem mais uma vez um extenso programa que nos leva em viagem pela cidade (e arredores) até ao dia 11 de dezembro.

O mote desta edição é "A Forma da Forma" - "nunca se vê a forma pelo mesmo prisma, há sempre muitas maneiras de a ver", arrisca André Tavares, curador-geral da Trienal. E é isso que está patente nesta primeira exposição, o primeiro vértice da programação, diz. A ideia foi de Diogo Seixas Lopes - falecido no início deste ano - e o projeto expositivo pertence a três arquitetos, Nuno Brandão Costa (Portugal), Kersten Geers (Bélgica) e Mark Lee (Estados Unidos), que trabalharam a partir do atlas de imagens do Socks Studio.

Esta exposição discute as questões da autoria e da visualidade da arquitetura, explica André Tavares. Antes de mais, "esta exposição é ela mesma uma arquitetura - uma construção do espaço, uma forma de enquadrar a paisagem e de nos orientar o olhar. Mas também permite perceber a fragilidade da arquitetura, pois é uma construção efémera, como são todas as construções. E depois é também uma coleção de projetos de vários autores que reagem a este imaginário do Socks Studio. Estes três arquitetos escolheram projetos uns dos outros e passaram pelo processo de construção e as marcas da construção fazem parte do próprio espaço e dão-lhe este ar inacabado. Falar de arquitetura é precisamente falar dessa experiência do espaço." Não é, portanto, uma exposição sobre arquitetura, mas antes uma exposição de arquitetura.

A "história continua" na Fundação Gulbenkian, onde vai estar "Obra", que pode ser visitada a partir de amanhã - onde a construção, a maneira como as coisas se constroem (que é uma consequência normal das formas) é apresentada e discutida. "Não basta fazer formas bonitas, as formas trazem consigo uma responsabilidade, com um impacto muito grande na indústria da construção que é uma das atividades fundamentais das nossas economias." E é um pouco disso que trata "Obra", que tem curadoria de André Tavares e projeto expositivo de Sami Arquitetos (Portugal).

O terceiro vértice desta história estará na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém: "O Mundo nos nossos olhos", tem curadoria da FIG Projects (Canadá) e projeto expositivo da Barão - Hutter (Suiça), e é inaugurada na sexta-feira. Aborda, segundo André Tavares, "a maneira como essas construções são usadas e se transformam em espaços que habitamos e em cidades. E, finalmente, como é que os arquitetos representam, descrevem e mostram essas construções. Esse mostrar devolve-nos a esta dimensão conceptual. Muitas vezes a maneira como descrevemos já é por si só projeto."

Finalmente, o quarto vértice vai estar no Campo de Santa Clara, na sede da trienal de arquitetura, com a exposição "Sines: Logística à Beira-Mar". "Pedimos às escolas de arquitetura que discutissem a logística e como é que se resolvem as questões logísticas, por exemplo, num lugar tão marcado pela indústria, como é Sines. E ao mesmo tempo ficámos com uma radiografia do ensino da arquitetura", explica o curador da Trienal. Esta exposição só inaugura na próxima segunda-feira.

"E depois estes vértices começam a desdobrar-se pelas ruas de Lisboa, desde a Trafaria à Amadora, desde as Laranjeiras até ao Palácio Pombal, com exposições satélites e projetos associados que vão de muitas maneiras entrando nestas conversas sobre construção, conceção, uso, representação, no fundo, sobre a transformação da cidade e da sociedade. Porque o que a arquitetura faz é transformar o nosso quotidiano." O calendário das várias atividades estende-se até dezembro e é aberto ao público em geral. "Quisemos fazer a trienal para todo este público que entra pela exposição dentro, mas trazendo a esse público aquilo que são as ansiedades da arquitetura contemporânea e o discurso mais sofisticado e mais interno da própria disciplina. Isso é sempre muito difícil de fazer."

No entanto, André Tavares considera que é importante que a reflexão aconteça. "Uma das coisas de que temos que estar conscientes é do peso da arquitetura na sociedade e da importância de os arquitetos serem ouvidos e compreendidos como autores - pessoas responsáveis por decisões que vão ter um impacto tremendo, para o melhor e para o pior. Daí a autoria ser decisiva. Mas não a autoria do esquisso rápido ou do relâmpago de génio, mas a autoria de uma conversa que é capaz de ouvir todas as dimensões, necessidades e contradições da sociedade"

Porque a arquitetura, sublinha, é um espaço de conflito. "O interesse do construtor não é o mesmo do do utilizador que não é o mesmo do interesse da autarquia que não é o mesmo do dos fornecedores de materiais que não é o mesmo interesse das formigas e das abelhas. E todos esses interesses têm de ser tidos em conta. E o arquiteto é a pessoa que pode fazer uma síntese relevante no momento relevante."

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