Por dentro da Ponte 25 de Abril e pela Lisboa subterrânea

Se há uma visita gourmet para fazer em Lisboa é esta: a ponte que une as duas margens do Tejo, à beira dos 50 anos. Não é para todos. Quem vai tem de aguentar alturas e subir muitas escadas. Na Baixa Pombalina, abrem, de novo, as galerias romanas.

É preciso levar roupa confortável. É preciso levar sapatos com sola de borracha, é preciso estar em boa condição física. É preciso não ter vertigens nem medo de alturas. É preciso usar capacete, colete refletor e luvas. É preciso levar estas indicações a sério e assinar um termo de responsabilidade. Conhecer por dentro a Ponte 25 de Abril tem muitos requisitos e não é para todos. As visitas são raras. Aliás, raríssimas.

A Infraestruturas de Portugal abriu a ponte aos visitantes ontem, às 10.00 e às 14.30, no âmbito das Jornadas Europeias do Património, este ano dedicadas ao património industrial, em parceria com a APRUPP - Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Proteção do Património. Duas visitas, apenas 36 visitantes, dois grupos de 18 pessoas, o máximo permitido, segundo o engenheiro Pedro Abegão, da Infraestruturas de Portugal (IP), empresa que gere a 25 de abril, com a Lusoponte.

A visita começa na sede da empresa, resultado da fusão entre a Estradas de Portugal e a Refer, escondida atrás da Praça das Portagens da ponte. Uma colina que só existe porque serviu de aterro às terras que vinham do rio quando a primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa foi construída. A história começa a contar-se com um filme (também ele histórico).

O realizador Leitão de Barros acompanhou os trabalhos de construção desde o lançamento do primeiro caixão do pilar central até à inauguração - três anos de obras. De 10 de janeiro de 1963 a 6 de agosto de 1966, com pormenores de fazer as delícias da propaganda: "Seis meses antes do prazo limite". Mas 90 anos depois do engenheiro português Miguel Pais ter apresentado o primeiro projeto para uma travessia do Tejo por Lisboa. Chamava-se Ponte Salazar, "o nome do seu patrono", refere o locutor sobre o Aleluia musical que ilustra as imagens.

À beira dos 50 anos, os festejos começam a desenhar-se. A IP pretende criar um núcleo museológico que ajude a conhecer melhor a ponte, do lado norte, em Lisboa, mostrando ao público maquetes, documentos, os primeiros capacetes de segurança, e outra memorabilia que ficou das obras dos anos 60. Ao mesmo tempo, aguarda entrar para a lista de património . "Atualmente está a decorrer o processo de classificação que teve a sua abertura a 4 de março de 2015", confirma a Direção Geral do Património Cultural (DGPC).

Debaixo da terra nas galerias romanas

Escadas íngremes, cerca de uma dezena, dão acesso às galerias romanas da Baixa de Lisboa, um dos monumentos secretos da capital, aberto apenas neste fim de semana à boleia das Jornadas Europeias do Património. A entrada faz-se pelo chão, junto ao número 77 da Rua da Conceição, a das retrosarias e do elétrico 28.

O mistério atrai visitantes, basta lembrar as filas que aqui se formavam. Desta vez, houve marcações pelo telefone e por mail para participar nas visitas. Começam às 10.00 e terminam às 18.00, duram cerca de 15 minutos. Só entram 25 pessoas de cada vez (e já não vale a pena correr para o telefone ou para o computador, pois as entradas estão esgotadas). Os técnicos calculam que terão cerca de 3400 visitantes em três dias.

Mas o que há debaixo do chão? Um cheiro desagradável e, habitualmente, cerca de metro e meio de altura de água, marcada nas paredes, que os bombeiros retiram quando o monumento abre ao público, duas vezes por ano, até ficar transitável e deixar à vista um criptopórtico com dois mil anos, como explica o arqueólogo António Marques, guia dos jornalistas numa visita que decorreu na tarde de quinta-feira.

É a pergunta que surge a cada nova visita: poderia abrir mais vezes? "Não sabemos como é que o edifício se comportaria sem água", afirma António Marques. O mistério aguça e ultrapassa o interesse do monumento. Mas só vendo. O alçapão abre-se em abril de 2016, e as inscrições começam cerca de dois meses antes.

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