Platinotipia: Um palavrão para designar uma maravilha

Manuel Gomes Teixeira imprime numa técnica do século XIX que tinha desaparecido na I Guerra

Há um homem que, na periferia de Aveiro, montou um pequeno ateliê numa casa de família onde imprime fotografias através de uma técnica a que se dá o nome de platinotipia. Como é um dos poucos no mundo que o faz, dali seguem para todo o mundo: Chile, Hong Kong, França. "Platinotipia" vem de "platina", metal que, com o paládio, constitui o reagente que imprime a imagem no papel ao entrosar-se nas suas fibras.

"Nenhuma película ou substrato nos separa da imagem, como nas fotografias normais" diz ele, Manuel Gomes Teixeira, fotógrafo e impressor. Apaixonado por fotografia do século XIX e máquinas de médio formato como as Rolleiflex e Hasselblad, teve o primeiro contacto com a arte através de um primo do Porto que fotogravava automóveis ao sábado, revelava as fotografias na banheira à noite, e vendia-as ao domingo.

Autodidata, Manuel teve um estúdio de fotografia comercial durante 20 anos, mas "matava o gosto" que tinha, tornava a fotografia "num tédio". Fez o primeiro workshop de platinotipia no ano em que a filha, Alice, nasceu. Ela vai fazer 18 anos e, tal como o irmão mais novo, Artur, tem o seu crescimento documentado por imagens tiradas em verões no jardim de casa. Imagens impressas naquele a que chamam, conta o fotógrafo, "o Rolls Royce dos processos fotográficos".

Agora também ele ensina aquele processo que nasceu no século XIX e, considerado um dos mais nobres e resistentes, desapareceu na altura da I Guerra Mundial, em que a platina era usada como catalisador para os explosivos e a Inglaterra proibiu por isso o seu uso na fotografia.

O fotógrafo Frederick Evans, por exemplo, "só imprimia as imagens com platinotipias". Quando terminaram "ele desistiu de fazer fotografia, porque achava que não havia outro processo que pudesse dar imagens tão belas", conta Manuel, que refere a "tridimensionalidade, a textura dos pretos, que não são aqueles buracos negros do digital, frio, clínico, perfeito de mais". O seu entusiasmo cresceria ao pronunciar um nome: Penn.

Irving Penn, conhecido pelos seus retratos e trabalhos para a revista Vogue, ressuscitaria a técnica no final dos anos 1970. É, em parte, por causa dele que existe o ateliê de Gomes Teixeira, única pessoa em Portugal a usar a técnica de modo sistemático. Ateliê repleto de platinotipias, câmaras, com o laboratório onde tudo está cuidadosamente etiquetado. Mostra--nos o negativo da série que recentemente imprimiu para o fotógrafo Jorge Molder, Par Terre.

Processo muito temperamental

Quem imaginasse que ali entraria para uma máquina do tempo, espantar-se-ia ao ver a enorme e moderna impressora. Ela imprime negativos que farão depois contacto com o papel já pincelado com a platina, o paládio e um agente de contraste. Hoje, qualquer ficheiro digital (até de um smartphone) pode resultar numa platinotipia.

"É raro o dia em que não imprimo uma. É um processo tão temperamental! Eu às vezes não sei se é das fases da lua ou do que é." Tudo muda de um lote de papel para outro, de um dia para outro. "Às vezes são dias até fazer a coisa cantar." Esse, além do preço dos reagentes, é um aspeto que encarece o objeto, cuja unidade ronda os 200 euros.

No processo, depois de uma máquina comprimir negativo e papel, surge a imagem latente num finíssimo papel que mostra o filho de Manuel. Seguir-se-iam banhos de líquido revelador e jatos de chuveiro. Por fim, fixava-se a imagem final. Há de durar até existir papel. Quando lhe perguntamos por que fotografa, evoca Garry Winogrand, que dizia fazê-lo "para ver como é que as coisas parecem depois de fotografadas".

Artigo corrigido: As Hasselblad e Rolleiflex são câmaras de médio formato, ao contrário do que, por lapso, se escrevera

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