"Planeta dos Macacos: A Guerra merece ganhar"

O português que fez parte da equipa que venceu em 2014 o Óscar de Melhores Efeitos Visuais em "Ex Machina", Ricardo Ferreira, fala desta categoria na cerimónia desta noite

Onde há talento, há portugueses. Não é ditado popular mas deveria ser. A indústria dos efeitos visuais no cinema americano está cheia de portugueses e muitos nem precisam de estar em Hollywood. Ricardo Ferreira, de Matosinhos, é um deles. Tem 37 anos e começou há uns anos, devagar, depois se ter formado em Arquitetura. A sua paixão foi o 3D e, num ápice, mudou-se para Londres onde no Escape Studios aprendeu técnicas de 3D. Aos poucos foi sendo chamado para as numerosas equipas de visual effects feitas em outsourcing dos grandes estúdios de Hollywood e o seu nome figurou na ficha técnica de obras como John Carter, da Disney, o segundo Vingadores e Thor: Ragnarok, ambos para a Marvel, e Fúria de Titãs e Gravidade, ambos para a Warner.

"A dada altura, comecei a especializar-me em 2D, em que, numa fase inicial, o trabalho consiste em recortar as pessoas e, posteriormente, fazer a animação delas e poder depois extraí-las e colocá-las num outro lugar. Trata-se de um trabalho bastante preciso em que mesmo o detalhe da roupa tem de ser perfeito, fotograma a fotograma. Logo a seguir, também trabalhei em estereoscopia, em que fazia a transformação de 2D para 3D", conta-nos, no Porto.

Na empresa inglesa onde começou a colaborar em 2013, a Double Negative, fez parte da equipa de Ex Machina, a fantasia de Alex Garland, filme que viria muito justamente a vencer o Óscar de Melhores Efeitos Visuais em 2016. Ricardo não venceu o Óscar porque a Academia apenas premeia os chefes de departamento, mas não deixa de ser um marco no currículo de um profissional que subiu a pulso, sobretudo porque logo a seguir esteve na equipa de preparação de outro filme que triunfou nos Óscares, Interstellar, de Christopher Nolan.

"Em Ex Machina acabei por fazer de tudo, de rotoscopia à remoção de cabos e equipa, passando por correção de cor para inclusão de 3D. Claro que foi um orgulho! Fiz o percurso todo de um compositor de efeitos visuais. É um sonho estar onde estou", diz, não esquecendo de referir que sempre foi um fã deste tipo de cinema, em especial os filmes da saga 007.

Recentemente pai, tem conseguido conciliar a vida de Londres e Toronto, as cidades onde fica fechado nos ateliês em frente a computadores ultraprotegidos, e viagens ao Porto, onde consegue dar aulas na Universidade Católica. Disciplina: efeitos visuais para cinema. Sobre os Óscares deste ano grita bem alto que a estatueta dos melhores efeitos visuais pode ir para Planeta dos Macacos: A Guerra ou Blade Runner 2049: "Mas sem dúvidas que é o Planeta dos Macacos: A Guerra que merece ganhar, embora talvez seja o Blade Runner 2049 que deva acabar por ganhar - eles trabalharam muito bem a cor, sobretudo na criação daqueles cenários irreais muito à base dos tons azulados e avermelhados. Os efeitos estão no cenário!"

Mas haverá mais inovação ou continuidade nos escolhidos da Academia?: "Creio que continuidade, por muito que apliquem mais uma técnica de motion tracking ou outra coisa qualquer. O que está a acontecer à indústria é a agilização de processos, isto é, os efeitos visuais estão a crescer mas é sobretudo na rapidez que se pode encontrar esse crescimento. Antigamente, era preciso filmar maquetes, e filmar a uma certa escala, e hoje já não."

Ricardo também não se acanha quando afirma que consegue detetar filmes com efeitos visuais deficientes. Nesses casos, a culpa costuma ser dos prazos cada vez mais apertados, segundo ele, uma tendência cada vez maior em Hollywood. "Notamos as falhas sobretudo nos cabelos, onde era preciso perder mais algum tempo em técnicas chamadas dispeel, para que não se note que os atores estão em cenário falso e digital em croma. O que dá ainda mais trabalho é o cabelo das senhoras, em especial quando está solto e implica bastante movimento", explica.

E será que um artista dos efeitos visuais consegue enriquecer? O nosso português diz que não, que os salários em Inglaterra não são por aí além, que apenas no Canadá é possível fazer dinheiro a sério com esta atividade.

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