Pintura mural presta homenagem à filigrana e a Lisboa

O quarto mural do ilustrador na capital foi hoje inaugurado, no Largo de São Carlos, um apaixonado pela História e em particular pela história de Lisboa.

Preto e dourado. Foram estes os tons escolhidos por Nuno Saraiva para a pintura mural hoje inaugurada no Largo de São Carlos, em Lisboa, numa homenagem do ilustrador à cidade e à filigrana.

A encomenda surgiu por parte da Casa Anselmo que reinventou o espaço que ocupa no n.º 1 do largo, assumindo-se agora como Museu da Filigrana, e é mais uma parceria com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior com a qual o artista já trabalhou na história que conta da cidade, em 24 quadrados, junto ao miradouro das Portas do Sol, na homenagem aos Correios da Mala Posta, junto ao Palácio do Correio Mor e ainda nas escadinhas de São Cristóvão.

Aqui, e com total liberdade criativa, Nuno Saraiva voltou a fazer uma ampliação do seu trabalho em papel que transformou numa enorme pintura mural em que associou a sua paixão em relação à História e à história de Lisboa que, como sublinha "investiga há muito". E nada de chamar street art ou urban art à sua pintura. O ilustrador não gosta, prefere viajar no tempo e encontrar filiação nos tempos do pintor mexicano Diego Rivera (1886-1957) ou do português Almada Negreiros (1893-1970).

Embora o período que mais o interesse seja "aquela altura das Guerras Peninsulares, do Absolutismo, dos liberais, das tentativas para de alguma forma mimetizar as revoluções republicanas lá fora", este trabalho recua até à Idade do Bronze.

"Sendo a filigrana uma arte, um conceito, um modo de habitar e de viver muito do Norte, do Minho, sendo que Lisboa não tem necessariamente uma herança forte da filigrana e sendo o Museu de Filigrana de Lisboa, quis fazer aqui uma subtil homenagem à cidade de Lisboa através das saias das três mulheres, nas quais conto a história de Lisboa, através da representação, com uma iconografia muito simples, do território de Lisboa desde a altura dos povos recoletores, no neolítico, Idade do Bronze", conta Nuno Saraiva ainda antes de terminar a pintura mural.

"Depois segue-se Felicitas Julia, com os seus templos romanos, que segundo os historiadores seriam três grandes templos romanos, que depois dão lugar a outros locais sacros. Segundo dizem, o Templo de Júpiter deu lugar à Mesquita, que depois deu lugar à Sé de Lisboa", contextualiza o artista.

"A minúcia do trabalho da arte de joalharia, acima de tudo para a mulher, era algo que já existia em Lisboa antes da cidade ser Lisboa, quando era Felicitas Julia". E na primeira mulher surge então essa primeira alusão a Felicitas Julia sob a forma de "uma patricia romana rodeada de uma série de indumentária própria daquela época, século I d.c.. Em alguns casos não é bem filigrana, talvez antes proto-filigrana".

A segunda mulher "é uma figura politicamente correta": "Estava a pensar desenhar uma mulher típica dos almóadas, do Califado que aqui esteve, mas não me quis centrar apenas numa mulher muçulmana, optando por uma mulher moçárabe. É a parte encantadora da cidade de Lisboa: é uma cidade de misturas e mesmo na altura em que nós éramos muçulmanos, a religião cristã e a judaica era tolerada. Por isso, esta mulher, que é uma moçárabe, traz ao peito uma mão de Fátima, mas por trás surge representado o peixe, símbolo do proto-cristianismo", conta Nuno Saraiva.

Ao lado "desenho a cidade árabe, com o castelo, que veio a ser o castelo de São Jorge, e termino com a minhota [a terceira mulher], toda engalanada com as filigranas tão características e que se podem encontrar dentro do Museu de Filigrana: corações de malta, brincos de rainha, corações de Viana", enumera o artista.

A completar, "ao longo das figuras, nas suas saias, desenho símbolos, num design muito apurado, que representam as ferramentas do passado da filigrana mas também as ferramentas do final do século XIX e início do século XX, algumas das quais também podem ser vistas dentro do Museu", diz Nuno Saraiva, quase em jeito de convite para se entrar no número 1 do Largo de São Carlos.

Aí descobrem-se as sete fases pelas quais passa a arte da filigrana, desde a fundição ao acabamento das peças, vários instrumentos utilizados pelos artesãos e até réplicas do que seriam as suas oficinas, muitas vezes instaladas na cozinha das famílias.

As peças mais representativas da arte da filigrana também têm lugar de destaque e, de terça a sábado, o artesão José Manuel Domingos mostra, ao vivo, como são feitas algumas peças.

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