Pintar, pintar e pintar. À velocidade do cinema

Tem 24 anos e é um dos finalistas no prémio Novos Artistas EDP, depois de ter mostrado o seu trabalho no Bregas em 2016. Trabalha a partir das Caldas da Rainha

No atelier de João Gabriel, em pleno Centro de Artes das Caldas da Rainha, não há parede livre. As telas estão arrumadas lado a lado. À esquerda, as pequenas; à direita, as grandes. No cavalete, as três mais recentes. João Gabriel, 24 anos, até há pouco tempo aluno de Artes Plásticas na escola superior da cidade, produz em abundância, como se constata quando vê as suas obras em exposição no MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa. Ele é um dos seis finalistas do prémio Novos Artistas. "Sinto que tenho de pintar muito", diz, conversando com o DN. Em seis meses pintou mais de duas dezenas de obras - esses corpos que se misturam com a paisagem. "Eu pinto muito, porque é assim que consigo trabalhar. Não conseguiria ter duas telas e trabalhar nelas durante uma semana. Tenho de ter esta quantidade toda". É na seleção que tem mais trabalho.

Aceita a comparação com um fotógrafo de câmara digital na mão. Dispara muitas imagens por segundo, a precisão é a edição. "E, se calhar, o facto de também trabalhar imagens também ajuda".

Os protagonistas da obra de João Gabriel foram encontrados em filmes pornográficos gay, um detalhe chamativo mas irrelevante para o resultado. "Tem impacto no que aparece, mas se não fosse essa fonte eu continuava a pintar na mesma as coisas que pinto". Este foi o ponto de partida: "Eu queria pintar o corpo masculino. As fotografias pornográficas têm corpos nus, mas depois começou a chatear-me terem todas as mesmas poses. Nos filmes, tinha muito mais material para pintar".

Pinta desde que se lembra e sempre soube que queria ser pintor. "É uma coisa estranha", diz, sobre essa precoce certeza. "A minha família perguntava: "pintor de casas?"", ri-se. Antes de ter contacto com a História da Arte do 10.º ano, pouco sabia sobre o assunto, mas já tinha sentido o impacto da arte. Uma réplica de um quadro de Salvador Dalí com que se cruzou quando acompanhava a mãe no trabalho. "É uma memória muito longínqua", explica. "Fazia-me imensa confusão. Provocava qualquer coisa estranha. Achava aquilo feio, e ainda acho, mas provocava uma reação forte".

Natural de Leiria, conta que foi parar à Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (ESAD), porque "não tinha dinheiro para ir para Lisboa ou para o Porto". Nos primeiros anos quis experimentar qualquer coisa fora da pintura, mas no terceiro voltou a agarrar nos pincéis. No mestrado, já neste atelier, descobriu a sua maneira de fazer: pintar, pintar, pintar.

O caminhos cruza-se com os do realizadores João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata no Curtas de Vila do Conde em 2016. Numa exposição de peças multimédia da dupla, João Gabriel mostrou uma das suas obras. "Fez-me pensar nessa relação entre pintura e cinema, as coisas de que mais gosto", afirma, a propósito desse encontro. Pediram-lhe que fizesse o cartaz japonês do filme O Ornitólogo. Depois, João Gabriel foi convidado para mostrar o trabalho no Bregas, exposição/ acontecimento/ residência levada a cabo por João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira no seu atelier, em Lisboa. Foi lá que expôs as primeiras telas de grandes dimensões, também no ano passado. São os primeiros capítulos de uma história que se continuará a escrever na rentrée no Museu de Arte Contemporânea - Museu do Chiado. As telas que vai mostrar já estão escolhidas, penduradas junto à porta. Estão de saída.

O que mais gostou de fazer?

Bregas: "Estava a começar a fazer pinturas grandes, [o João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira] convidaram-me e decidi mostrá-las. Gostei muito dessa liberdade. Se fosse noutro espaço, mais formal, eu não teria posto aquelas telas. Senti-me à vontade para mostrar o que estava a fazer e não coisas que tivessem de ser defendidas."

O que mais gostaria de fazer
Internacionalização: "Gostava de ir para o estrangeiro, mostrar o meu trabalho em sítios que não Portugal. E porque quero viajar. Gostava que as coisas continuassem assim, por afinidades e relações com as pessoas, acho que é muito bonito. Continuar a conhecer pessoas com quem possa trabalhar, fazer colaborações."

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