Pina Bausch: a dançar para as massas

A coreógrafa alemã Pina Bausch morreu ontem, inesperadamente. Revolucionou o teatro-dança nos anos 70 e, após uma primeira fase mal compreendida, passou a ser a figura mais consensual da dança contemporânea. Aos 68 anos, Pina ainda dançava

Em Setembro de 1997, a convite do Festival 100 dias, da Expo'98, Pina Bausch passou três semanas com a sua companhia em Lisboa. Foi à tourada, passeou pela Mouraria, inspirou-se no Tejo e em Fernando Pessoa, conheceu Amália Rodrigues, pisou a calçada, andou de eléctrico, maravilhou-se com a roupa estendida na janela. Tudo isso serviu para criar Masurca Fogo, a peça lisboeta da coreógrafa, que se estreou em Maio de 98, no Centro Cultural de Belém.

Masurca Fogo não é uma peça "sobre" Lisboa - tal como nenhuma das outras peças que criou em residência é sobre os locais que escolheu, como Viktor (Roma, 1986) ou Água (Brasil, 2002). Mas no palco do CCB, ao som de mornas e de fado, havia ecos do quotidiano da cidade. Uma ligação mais sentimental do que literal e que, por isso mesmo, envolvia os espectadores. "Não estou interessada em como as pessoas se mexem, mas sim no que as faz mexer", costumava dizer.

"A Pina adora fado", contou Fernando Lopes ao DN em 2007. Ele foi um dos poucos realizadores que teve autorização para penetrar no mundo secreto de Pina Bausch. Acompanhou os bailarinos durante aquelas três semanas, sobretudo nos ensaios que decorreram nos estúdios na Companhia Nacional de Bailado e, no final, com 40 horas de filmagens, montou o documentário Lissabon/ Wupperthal/ Lisboa. "Impressionou-me a disciplina consentida e a dedicação, até afectiva, que os bailarinos têm para com a Pina, é como se eles estivessem num grupo religioso em que ela é a sacerdotiza. Aprendi tudo o que sei sobre o corpo dos actores a vê-los trabalhar", confessou Fernando Lopes. "Foi um dos trabalhos mais fortes que fiz. É quase uma declaração de amor."

Antes desta Masurca, os portugueses já conheciam o trabalho de Pina Bausch. Veio em 1989, aos Encontros Acarte e voltou a Lisboa'94 com quatro dos mais emblemáticos espectáculos da sua companhia. Regressaria em 2002, com Água; em 2007 com For the Children of Yesterday, Today and Tomorrow; e, no ano passado, o São Luiz organizou o Festival Pina Bausch, com três espectáculos, incluindo Café Müller, onde a própria Pina, com 67 anos, dançava e maravilhava.

Como sempre, meses antes destas apresentações, os bilhetes já estavam esgotados. Era provavelmente o único nome da dança contemporânea com quem isto acontecia. "A passagem da Pina Bausch por Lisboa foi uma coisa extraordinária de público", recordava ontem Rui Horta. "Tornou-se quase verdadeiramente uma coreógrafa mainstream, ou seja, toda a gente ia ver a Pina Bausch." E isto aconteceu muito antes de ela aparecer em Fala Com Ela, o filme de Pedro Almodóvar (2002), que a tornou conhecida de um público ainda mais vasto.

Era um fenómeno de massas, apesar de dar poucas entrevistas e não gostar de ser uma figura mediática. Aparecia nas conferências de imprensa sempre vestida de preto, o cabelo escorrido apanhado em rabo-de-cavalo, os olhos azuis escondendo a timidez, o cigarro na mão, a dificuldade em pôr o seu mundo em palavras. "Façam-me perguntas. Façam-me perguntas. Não sei falar sobre a minha obra."

"Era um fenómeno", recorda Jorge Salavisa, director do São Luiz, que a conhecida desde 1982 e tencionava trazê-la de volta a Lisboa em 2011. "Gostava da noite, era uma boémia, dormia pouco. Tínhamos longas conversas"

Sob a sua direcção, o teatro de dança de Wupperthal ganhou fama mundial. Recebeu numerosos prémios internacionais pelas suas criações e em Agosto de 2008 foi agraciada com o Prémio Goethe da Cidade de Frankfurt, pela sua obra. Mas quando lhe perguntavam qual terá sido o seu papel, enquanto criadora, Pina respondia apenas: "Talvez eu tivesse trazido a capacidade de fantasiar, de interrogar."

Foi uma morte inesperada. Há escassos cinco dias, após exames médicos feitos para apurar o motivo da fadiga intensa, foi-lhe diagnosticado cancro. Mas a coreógrafa alemã continuava a trabalhar. Daqui a um mês completaria 69 anos. E não se sentia pronta para parar.

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