Pedro Jóia: "Os discos de estúdio são uma mentira"

O guitarrista português apresenta-se amanhã em dose dupla no Teatro São Luiz, em Lisboa. Primeiro a solo, na sala principal, e depois com o seu trio no Jardim de Inverno, repetindo no domingo.

Tem sido a solo que Pedro Jóia tem traçado parte do seu percurso, mas amanhã à noite o guitarrista apresentará no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, o seu novo trio, constituído ainda por Norton Daiello (baixo) e João Frade (acordeão), onde explora a música de tradição popular urbana com algum do folclore português. Mas antes atuará ainda a solo na sala principal do teatro.

"Toco um instrumento muito harmónico e por isso habituo-me a ser autosuficiente, a pensar a música fechada neste instrumento. Esse é o meu espaço natural. Quando se está habituado a tocar tanto sozinho como eu é preciso dar espaço aos outros, saber ouvir, esse é um desafio que estou agora a reaprender", explica o músico ao DN.

Dar dois concertos na mesma noite (e repetir com o trio um dia depois) não é fácil, salienta. "É um desafio muito grande para mim, porque há muita música na cabeça, não posso vacilar nem me distrair por um segundo que seja. É verdade que quando estou sozinho tenho muito mais liberdade mas, por outro lado, não posso falhar".

Ainda assim, tudo o que tem vindo a fazer ao longo do seu percurso só faz sentido em cima do palco. Não gosta de estúdios e para Pedro Jóia gravar discos "é um mal necessário". "Não suporto, não tenho qualquer prazer. É algo que tem de ser feito mas, por mim, gravava os discos sempre ao vivo, com público. Aquela coisa de em estúdio ter de repetir à espera de uma perfeição que não existe... Não gosto mesmo. Os discos de estúdio são uma mentira, estão cheios de repetições e edições. Pode ser tudo muito bonito, mas não há verdade."

No concerto que dará a solo não estará sempre sozinho, já que convidou o fadista Ricardo Ribeiro, com quem trabalha há anos, para uma colaboração. "Quando ouvi o Ricardo pela primeira vez pensei: 'Há muitos anos que ando à procura de uma voz destas'. Por acaso é um dos grandes fadistas do momento. Ao conhecê-lo pessoalmente ficámos muito amigos, sendo que a inteligência musical do Ricardo ainda hoje me espanta", conta.

Na sua música não há lugar para purismos, estabelecendo pontes entre o fado e o flamenco, estando a sua obra enraizada na tradição da música popular ibérica. "Os puristas existem sempre. A primeira vez que me deparei com isso foi quando era estudante de guitarra clássica. Na altura já tinha outras músicas na cabeça e fui logo confrontado com os purismos dos eruditos, de que a guitarra flamenca era uma coisa suja, etc. Depois no flamenco também me deparei com os puristas, tal como no fado. Mas desses não reza a história. As pessoas que revolucionaram as músicas pisaram todas o risco, como o Paco de Lucia ou o Armandinho".

Tinha sete anos quando começou a tocar guitarra, por sugestão dos pais, sendo que em adolescente descobre Paco de Lucia, dando-se então uma revelação. "A guitarra clássica, nos moldes em que me era apresentada, não me preenchia. Gostava do instrumento mas faltava algo. Quando descobri a abordagem do flamenco foi todo um novo mundo que se abriu. Foi a atitude com que os guitarristas tocam que mais me cativou", refere.

Amanhã seu concerto a solo começa às 21.00. Uma hora e meia depois sobe as escadas até ao Jardim de Inverno e atua com o seu trio, formado muito recentemente. "Na verdade já andava à procura de tocar com uma formação pequena há muito tempo mas ainda não tinha encontrado os músicos certos." Com o trio tanto aborda a música tradicional do Algarve como se passeia pelo nordeste do Brasil. O próprio guitarrista explica: "Tenho uma forte ligação familiar com o Algarve e, por isso, tudo isto fazia sentido. Foi um desafio grande pegar numa música que habitualmente é tocada em acordeão, como é o caso do corridinho, e transportá-la para a guitarra."

O músico tem uma relação profunda com o Brasil, onde viveu durante quatro anos, depois de um convite de Ney Matogrosso. "Foram anos muito importantes porque mudar de meio profissionar e de país é sempre enriquecedor. No Brasil e, em especial, no Rio de Janeiro as coisas acontecem com outra dimensão e entusiasmo. O Rio é uma cidade muito musical, os músicos são muito valorizados e há muito que em Portugal não via isso", lembra.

As entradas para o concerto a solo de Pedro Jóia custam entre 12 e 15 euros. Já para os espetáculos com o trio (amanhã às 22.30 e domingo às 18.00) custam dez euros.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG