Paulo Branco:"Cada dia com ele era uma aventura"

Logo que atendeu o telefone, horas depois da morte do realizador, Paulo Branco disparou um "isto tinha de acontecer um dia", como se assim passasse ao lado das emoções. Depois vieram os adjetivos: era único, inventivo, divertido, direto, curioso, exigente. Sobretudo, um grande sedutor. "Não há uma escola do Manoel porque ele surpreendia sempre".

Qual é a recordação mais forte que tem do Manoel de Oliveira?

Não tenho só uma recordação forte, foi um percurso conjunto de 30 anos e cada dia com o Manoel de Oliveira era uma aventura. Estou a dizer isto com sinceridade. Quando me convidou para lhe produzir o primeiro filme, antes de o Amor de Perdição ter passado em Paris, davam-no como acabado em Portugal, depois daquela reação horrível que tiveram à versão televisiva. Foi depois de o filme se estrear em Paris e ser bem recebido que o Manoel voltou a ter a possibilidade de ser chamado a filmar, tudo mudou. A reação francesa levou a que em Portugal as pessoas olhassem de outra maneira para o filme. Quando me convidou, foi por um lado uma surpresa, eu só tinha feito o filme [Oxalá, 1981] do António-Pedro Vasconcelos, e era um desafio inacreditável. Alguém com a carreira do Manoel, é preciso não esquecer toda a carreira que ele já tinha antes.

Qual foi o primeiro filme dele que produziu?

O Francisca. A partir daí, a relação que existiu entre nós durante 30 anos foi surpreendente a todos os níveis, como pessoa e como criador que era. Sobretudo com aquela sede que tinha de poder ainda filmar e de ter sempre projeto. Isso compensou todo aquele hiato que teve durante muitos anos, as dificuldades para filmar. As minhas recordações são infindáveis, a minha vida foi um recetáculo de muita coisa que o Manoel me transmitiu. Uma relação produtor-realizador é muito particular, é quase como um casamento. Cada um tem de estar à altura do outro, e eu estar à altura dele era simplesmente poder aproveitar as obras que ele fazia e dar--lhes a visibilidade que elas mereciam. E procurar criar condições para que ele continuasse. "Ir ao casino" todos os dias, no sentido de arranjar financiamentos para que ele continuasse a sua obra.

Leia toda a entrevista a Paulo Branco na edição impressa ou no e-paper do DN

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...