Ottessa Moshfegh "O leitor gosta de ter medo"

A escritora americana esteve no Festival Literário da Madeira: "Aceitei o convite porque jamais viria até aqui sem uma razão especial." Viajou 24 horas de seguida para falar do seu livro de grande sucesso, O Meu Nome Era Eileen. Um romance premiado, que muitos definem como um thriller psicológico, e que foi finalista do Man Booker Prize em 2016.

Ao ler-se este livro fica a pergunta sobre se conseguiu preservar alguma parte da sua vida privada.

Jamais revelo o que é importante e pessoal nos livros.

Percebe-se que não é muito diplomática. Porquê?

Porque quem é diplomático não será um escritor nem capaz de escrever um livro como este. Ser uma pessoa preocupada em dizer coisas educadas está ao alcance de qualquer um e eu não quero ser apenas alguém.

Não receia que os leitores se assustem?

O leitor deseja ter medo e ser assustado. Só receio perder leitores por não ter escrito suficientemente bem, mas se o fizer da forma correta e do modo como quero, tanto ganha o leitor como consigo escrever à minha vontade. Claro que nem todos apreciam o modo como escrevo, quanto a isso nada posso fazer. Se alguns escritores fingem ser outra pessoa, talvez sejam espertos porque se poupam. A mim, cansa-me fingir.

O seu romance anterior, McGlue, teve menos leitores do que gostaria e muito menos do que este Eileen...

Não me importa. Até duvido de que McGlue seja traduzido para português porque está escrito num dialeto americano que é difícil de transpor.

Este foi traduzido porque é mais fácil?

Sim, tal como uma coletânea de contos que publiquei no ano passado. Agora, o tempo é de publicar um novo romance.

Em Eileen temos um pai alcoólico e em McGlue era o protagonista que bebia de mais. No próximo livro continuam pouco sóbrios?

Não, desta vez ela toma comprimidos.

Como é que tomar comprimidos caracteriza a personagem?

Ainda não posso revelar muito sobre o novo romance. É sobre uma mulher que decide dormir durante um ano e só o pode fazer com a ajuda de medicamentos. Todos os meus personagens têm uma dependência ou uma deficiência qualquer, de modo a que possa estruturá-los melhor a nível mental.

Então, antes de começar um romance procura uma dependência?

Não, nem preciso de me esforçar muito porque todas as pessoas têm um vício que as torna menos honestas quando se sabe. É próprio do ser humano isso.

Basta descobrir o vício de cada um?

Sim, se for dependente é mais fácil porque costuma ser óbvio. Se for um problema mental, é mais difícil perceber. Os meus contos não são todos sobre vícios, mas a vontade de fugir à realidade e sentirem necessidade de autodestruição nunca falta nos personagens.

Mas porquê repetir a embriaguez?

Desde sempre a humanidade abusou do álcool como forma de fugir à realidade e tanto a bebida como as drogas são um problema gigantesco. Grande parte das tragédias do mundo derivam daí, por isso quero escrever sobre esse tema.

Mas qual é o assunto do próximo livro?

Totalmente diferente. Passa-se em 2000/2001.

Era um tempo sem redes sociais...

Nem existiam ainda.

Seriam um bom exemplo de uma dependência?

Sim, mas estou quase certa de que não desejo escrever sobre isso. Causa-me tédio pensar em transformar esse tema em ficção. A única personagem que pode existir é alguém sentado em frente a um computador e isso não facilita a criação de um tema suficientemente literário.

O cenário tecnológico não funciona?

Será possível escrever uma história interessante sobre a solidão de uma pessoa e o seu computador, mas não estou muito interessada.

É um autorretrato enquanto autora?

Por isso mesmo sei quanto é aborrecido.

Teme ver-se ao espelho?

Acho que jamais conseguiria escrever um romance assim.

Dizem que Eileen é um thriller psicológico. É verdade ou é só marketing?

Faz sentido, mesmo que a intenção nunca fosse integrá-lo nessa categoria.

Porque toda a gente escreve esse género nos últimos tempos. Gillian Flynn, Paula Hawkins...

Não sei porque nunca li nada delas, não me interessam.

É uma coincidência o estilo?

Sim, queria escrever um livro diferente do anterior, que não fosse uma coisa estranha e tão fora do comum. O que saiu pode parecer desse género mas não o escrevi a pensar assim, foi mais uma história menos estranha e diferente de tudo o que fiz. Este livro foi uma coisa natural.

Altera o estilo conforme a temática?

Tenho um estilo diferente nos livros, mas há uma coisa comum em tudo o que escrevo, é sempre na primeira pessoa. O narrador é o protagonista.

É a forma de dizer o que pensa?

Acho que é a que melhor se adapta a mim, mesmo que esteja certa de que no futuro irei fazer diferente.

Em certas partes do romance o leitor fica pouco confortável devido à violência verbal. É intencional?

Não houve intenção em dificultar a vida ao leitor deixando-o desconfortável, o que a protagonista refere é que é pouco confortável. Não tento alienar o leitor, este é um livro light mas não pretende usar o horror para assustar o leitor.

Este romance foi muito apreciado pela indústria literária. Gostou desse interesse ou preocupa-a a unanimidade?

Porque haveria de duvidar de mim e do que faço? Tive sorte porque encontrei o editor certo, mas antes enviei o livro para vários e a maioria nem percebeu o que era, antes queriam que alterasse os personagens. Só descansei quando achei quem editasse como queria. Tive sorte de a recepção ser positiva, mas essa parte do processo está fora do meu controlo.

Por que razão situa o romance na década de 1960?

O objetivo era colocar a narrativa numa época em que os Estados Unidos estavam num ponto de viragem cultural, saindo de anos opressivos do início dos anos 1960 e movendo-se para o fim, onde acontece uma revolução social. Essa tensão entre os dois períodos era o melhor cenário para colocar a Eileen a fugir da pressão em direção à liberdade.

O que há de autobiográfico no livro?

Tenho sempre algo em comum com cada personagem. Neste caso, localiza-se onde cresci e conhecia tudo, até porque em New England há cidades que não mudaram nos últimos 50 anos. Portanto, era fácil descrevê-las de memória.

Porquê um assassinato?

Eu nunca matei ninguém!

Não estou a desconfiar...

Estava a brincar.

Ter um assassinato foi o mais difícil?

Não, já tenho um assassinato no anterior. Tudo num livro é um desafio, mas se não fosse assim jamais iria até ao fim.

Começa a escrever cedo. É o sonho?

Não, queria ser pianista, mas como não era boa o suficiente para ter uma carreira a solo desisti do piano.



O Meu Nome Era Eileen

Ottessa Moshfegh

Editora Alfaguara

263 páginas

PVP: 18 euros

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