Óscares 2018, o ano de todos os favoritos

Hollywood pode assistir a uma corrida aos prémios da Academia com multifavoritos. Spielberg, Streep, Day-Lewis, Oldman e Del Toro não vão ser esquecidos...

Uma corrida à temporada dos prémios sem um favorito declarado. Ao contrário do ano passado, em que La La Land, de Damien Chazelle, parecia reunir um consenso de associações de críticos e das associações de profissionais, este ano tudo está mais diverso. 2018 é o ano de todos os favoritos: A Forma da Água, de Guillhermo del Toro; The Post, de Steven Spielberg, e, manda a lógica, o inevitável Dunkirk, de Christopher Nolan, que no verão passado levava mais embalagem...

Se voltar a haver "filme coqueluche", o drama biográfico de Greta Gerwig, Lady Bird, também pode rentabilizar o efeito de Moonlight, de Barry Jenkins, o surpreendente vencedor dos Óscares.

Com as nomeações dos Golden Globes e dos SAG (guilda dos atores) já conhecidas, bem como a atribuição do National Board of Review, Critics Choice e das associações de críticos, os dados estão lançados, em especial a nível de ausências. Certos filmes que chegaram a ser apontados a esta corrida estarão agora postos de parte, como As Estrelas não Morrem em Liverpool, de Paul McGuigan; O Grande Showman, de Michael Gracey; Wonder- Encantador, de Stephen Chbosky e Wonderstruck - O Museu das Maravilhas, de Todd Haynes.

No perfilar dos favoritos, The Post poderá levar vantagem, sobretudo se houver da parte dos membros da Academia uma vontade de um statement político contra a administração Trump. O filme foi feito com carácter de urgente para sensibilizar a América sobre a importância da liberdade da imprensa à face do que se passou com o caso Watergate.

Por outro lado, os trunfos de Dunkirk são grandes: cinema de grande espetáculo concebido por um cineasta à beira da aclamação, Christopher Nolan. Ajuda também muito ter sido um gigantesco sucesso nas bilheteiras.

Quanto a A Forma da Água, assume-se nesta altura como o filme com maior quota de prestígio: venceu o Festival de Veneza e tem tido um enorme apoio da imprensa. Por outro lado, não é de bom senso excluir Três Cartazes à Beira da Estrada, de Martin McDonagh, que também venceu em Toronto o People"s Choice Award (prémio que costuma indicar ao Óscar...).

As incertezas chegam também às categorias de interpretação, especialmente nas de melhor atriz, onde a luta está ao rubro. Meryl Streep parece ter a nomeação garantida em The Post, embora também Frances McDormand em Três Cartazes à Beira da Estrada tenha um grande capital de apoio. Para baralhar as contas, Saoirse Ronan em Lady Bird está a ganhar cada vez mais força e Sally Hawkins, em A Forma da Água, poderá ter finalmente o seu ano de glória. O engarrafamento de grandes interpretações é tão grande que se pode dar o caso de Jessica Chastain (Jogo da Alta Roda) e de Judi Dench (Victoria & Abdul) ficarem de fora...

Nas secundárias, a esquecida Laurie Metcalf, em Lady Bird, leva uma ligeira vantagem, embora se justiça houvesse, Allyson Janney, mãe excêntrica em I, Tonya (biografia desgovernada de Tonya Harding, a infame patinadora artística) seria mais favorita. Seja como for, Mary J. Blige no fraco Mudbound, tem o melhor lobby, em especial para ninguém começar a dizer "oscar so white". Hong Chau, a tailandesa de Pequena Grande Vida, não é tão favorita mas cumpre igualmente a quota da diversidade.

Nos atores, há mais certezas. Tudo indica que o prémio da Academia possa sorrir a Gary Oldman, superlativo como Churchill em A Hora mais Negra. Desde o Festival Toronto se percebeu que o seu favoritismo era de tal forma óbvio que só um milagre lhe poderia dar concorrência. Ainda assim, há muito boa gente a apostar em Timothée Chalamet, o protagonista de Chama-me pelo Teu Nome, filme que igualmente vai estar cheio de nomeações. O que é surpreendente é que tem ganhado mais prémios do que Oldman, nomeadamente os da Associação de Críticos de Nova Iorque e Los Angeles. Depois dos recentes triunfos de Brie Larson e de Emma Stone, a juventude parece estar a impor-se na Academia.

James Franco em Um Desastre de Artista, Tom Hanks, em The Post, Daniel Day-Lewis em Linha Fantasma, e Daniel Kaluuya, em Foge, têm fortes hipóteses de serem nomeados.

Nos atores secundários começa a desenhar -se um vencedor antecipado, a única garantia em todos os Óscares: Willem Dafoe em Florida Project, onde interpreta um responsável por um motel em Orlando. Tal como Martin Landau em Ed Wood, uma daquelas interpretações que vai (e já está...) ganhar todos os prémios, por muito que Woody Harrelson e Sam Rockwell sejam espantosos em Três Cartazes à Beira da Estrada.

Nas animações, tudo indica que o duelo se fará entre A Paixão de Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman, e Coco, de Lee Unkrich e Adrian Molina. O primeiro venceu há pouco os European Film Awards e o segundo marca o regresso à grande forma da Pixar. O poderio promocional da Disney pode fazer a diferença.

A incerteza também chega à categoria de filme em língua estrangeira, onde já há uma short-list de pré-nomeados, mais do que nunca composta por filmes de qualidade acima de qualquer suspeita. E porque esta sempre foi uma categoria onde o que conta é a forma como os filmes são promovidos pelos cineastas estrangeiros em Hollywood e o peso do seu distribuidor, não é conveniente fazer grandes apostas, apesar de se pressentir um capital de simpatia para O Quadrado, de Ruben Ostlund, um dos filmes europeus mais premiados de sempre. Ainda assim é de bom tom não afastar da corrida Uma Mulher Fantástica, do chileno Sebastian Lelio e Corpo e Alma, da húngara Ildikó Enyedi.

Dia 23 de janeiro as nomeações serão conhecidas e os distribuidores portugueses apostarão em força nestes filmes. À boleia dos Óscares o nosso mercado ganha um importante fôlego, deixando de estar tão dependente dos blockbusters americanos... Os portugueses são sensíveis aos efeitos dos filmes nomeados.