Os pássaros de João Pedro Rodrigues voam alto em Locarno

O realizador português João Pedro Rodrigues mostra amanhã, no Festival de Cinema de Locarno, "O Ornitólogo".

Um homem a olhar para pássaros no Douro Internacional. Pássaros que nos olham (a nós também, espectadores) e um santo pelo meio. Na floresta encantada de João Pedro Rodrigues há assombrações, desejo, sangue e um imaginário de lenda. Santo António, o padroeiro, em metamorfose com um ornitólogo.
É assim O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues, amanhã em competição no Festival de Locarno, uma coprodução da portuguesa Blackmaria e da francesa House on Fire, com financiamentos da brasileira Ítaca Filmes.

Horas antes da partida para o festival suíço (é a sua segunda longa em competição, depois de A Última Vez Que Vi Macau, de 2012), João Pedro Rodrigues, diz-nos que fez um filme muito sobre si próprio, mas ao mesmo tempo "alegremente blasfemo": "A minha compreensão em relação à religião é muito em direção à pintura. O Santo António até nem esteve na origem deste filme, mas sim uma história de um ornitólogo, que é o que eu queria ser antes de me tornar cineasta. Mas pensando nos outros filmes que fiz lembrei-me de uma simultaneidade de carnalidade com espiritualidade. Apetece pensar na Capela Sistina, onde os sexos das pinturas de Miguel Ângelo foram todos cobertos... Na essência de muita arte havia esse lado blasfemo em si, mesmo quando na sua grande maioria eram encomendas para a Igreja. A mim interessa-me perceber como é que se pode tratar o sexo e o sagrado, aliás como se pode hoje representar o sagrado... É importante como eu vivo com isto, sobretudo hoje com uma sociedade tão fracionada em especial com todos os fundamentalismos religiosos. Vivemos constantemente com a fratura entre o sagrado e o profano."
Sim, o filme tem sexo entre homens e várias assombrações de desejo, sempre com uma representação de um território de lenda. Navega por vários géneros cinematográficos e mesmo sendo uma síntese de toda a sua obra, é o seu filme mais livre, mais selvagem. Do western ao filme de aventuras, passa também o fantástico e o "gore". O Ornitólogo é o culminar de uma longa caminhada de cinema. Se não é a obra-prima de João Pedro Rodrigues, é seguramente o seu filme mais belo.

Apesar de não ser religioso, João Pedro Rodrigues diz-nos que este tema ajuda-o a encontrar explicações existenciais, mas afirma ter feito um filme pragmático: "Chega a uma dimensão transcendental a partir de coisas mais mundanas..." Acima de tudo é claramente um filme com qualidades lúdicas, há sempre peripécias a acontecer: chinesas perdidas no rio que evocam bruxas dos filmes wuxia orientais, a evocação à Festa dos Rapazes, dos Caretos, ou passagens bíblicas com paralelismos com Cristo. "O que me interessa mesmo é a ficção, contar uma história. Os meus filmes são sempre narrativos. O Ornitólogo pode ser visto como um objeto único, o espectador não precisa de conhecer os meus anteriores filmes".

Luz mágica

Impressionante também neste projeto quase todo ele rodado em áreas protegidas do Douro é o diálogo da direção de fotografia de Rui Poças com o sol e as sombras. A maneira como os corpos são filmados na floresta e na margem do rio claro que evocam a pintura e são de uma beleza que intoxica. Depois, é também um filme de riscos kamikazes, nomeadamente no "desplante" como se encena um milagre com causa erótica e põe o "dedo na ferida".

Depois de Correspondências, de Rita Azevedo Gomes, O Ornitólogo é o segundo filme que nesta edição de Locarno representa Portugal na competição internacional, para além de várias curtas em diversas secções do festival. O realizador acha esta vaga circunstancial mas admite que a marca forte do nosso cinema seja o carácter de liberdade: "Tal como sempre aconteceu, o cinema português continua muito livre e as pessoas lá fora querem ver cada vez mais coisas diferentes. Mas em Portugal o que é preciso é pensar-se em outras formas de se mostrarem os filmes... Basta olhar para o atual panorama de exibição."

A propósito disso, segundo o produtor João Figueiras, o filme até à data ainda não tem distribuidor e apenas uma distribuidora mostrou interesse nele. O que se sabe é que esta aventura de Santo António pelo Douro desconhecido já tem paragem garantida na secção vanguardista do Festival de Toronto, no próximo mês de setembro.

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