Os loucos anos 80 de Paula Rego na Casa das Histórias

O quadro "Na Praia" e outras 25 obras de Paula Rego, nos primeiros anos da década de 80, numa nova exposição de obras da pintora na Casa das Histórias, em Cascais.

Na Praia, quadro de Paula Rego, pintado em 1985, chama a atenção assim que se entra na galeria da Casa das Histórias. Está em lugar de destaque e dá nome à exposição que é inaugurada este dia 7. Raramente visto em Portugal e exibido em outubro no encontro de galerias Frieze Masters, em Londres, foi recentemente depositado no museu dedicado à pintora pelo seu proprietário, um colecionador privado que deseja manter-se anónimo.

A obra, acrílico sobre tela, é uma cena repleta de "animais com comportamentos humanos e humanos com comportamentos animais", como resume Catarina Alfaro, diretora do museu e curadora da exposição. Tartarugas a apanhar sol. Uma lagosta. Uma carochinha com mãos de menina. O gato. A mulher que se despe. A toalha posta. As frutas. Sexo e gula, segundo a pintora. E ponto de partida para esta exposição.

Quando pinta esta obra, em 1985, já vive em Londres, mas a praia é uma memória. "É um regresso a Portugal. As filhas dizem que a mãe quando precisava de inspiração ia para a praia", explica.

A exposição concentra-se nos anos 80 e reúne 26 obras da artista. "Uma nova fase, de maior liberdade", como diz a curadora na visita à imprensa. As telas selecionadas, oriundas da coleção da Casa das Histórias e da coleção da artista (a que se junta o quadro agora em depósito), circunscrevem-se à primeira metade da década. Começa em 1981, com um quadro da série do macaco vermelho.

O Macaco Vermelho bate na Mulher resulta de uma memória em segunda mão de Paula Rego, a partir de uma história que lhe foi contada pelo marido, Victor Willing, também pintor. Catarina Alfaro resume a história: "Ele foi uma grande influência na sua vida profissional, não por lhe dizer o que ela devia fazer, mas numa espécie de crise criativa, Paula tem uma conversa com Victor Willing em que lhe diz que está sem ideias. Victor Willing diz-lhe que em pequeno tinha um teatrinho em que só havia três personagens - um urso, um macaco e um cão só com uma orelha - e a partir daí podes criar muitas histórias".

Foi o princípio de uma série de histórias "nitidamente humanas", de que o quadro em exposição é exemplo: "Uma mulher com um filho que adivinhamos ser bastardo, um macaco que lhe vai bater, uma representação de violência doméstica e um urso, que deve ser o pai da criança". Uma concentração de sentimentos, elencados pela curadora. Infidelidade, luxúria, filhos renegados, cenas de ciúmes... O traço lembra a banda desenhada.

O desenho ganha estatuto

Dois anos depois, em 1983, Paula Rego, já então a viver em Londres, faz uma série de 12 obras a partir das suas óperas preferidas, uma encomenda de uma galeria americana. "Para esta exposição trouxe uma das óperas, uma que introduz a cor como elemento estruturante. Com múltiplas personagens e múltiplos enredos, sublinha". Refere-se à tela Jenufa II, que se encontra na parede oposta à tela da série do Macaco...

"O desenho torna-se muito mais importante", nota Catarina Alfaro, durante a visita guiada à imprensa, nesta terça-feira de manhã. "São um período crítico da artista. Ela encontra uma linguagem muito criativa de contar histórias. É uma nova fase, de mais liberdade", refere. "Todas as obras são construídas com uma fluidez, com o recurso a cores que não tinham sido exploradas antes". Basta olhar à volta para confirmar as palavras da curadora.

Catarina Alfaro cita Paula Rego numa entrevista na época. "Ela diz que não sabe como faz. Os desenhos vão aparecendo no pincel. Começo com um gesto e o resto do bicho vem atrás", afirma. "Percebe-se a imediatez", afirma. "Criar o mais rápido possível e só ver o resultado no final", concede, lembrando, uma vez mais, que "foram tempos de liberdade". A pintora tinha 50 anos, tinha fixado residência no Reino Unido dois anos antes e tinha sido convidada para lecionar Pintura na Slade School of Fine Arts, onde foi aluna e onde conhece Willing.

É um nítido ponto de viragem na carreira da artista, cortando com os outsiders que a tinham impressionado nos anos 60. "Ela diz que o mistério está também nos artistas como Boticelli". Ao mesmo tempo que o diz chama a atenção para A Jangada, um quadro de 1985, cuja composição de assemelha à Vénus de Boticelli.

A exposição pode ser vista até 26 de fevereiro de 2017 na Casa das Histórias Paula Rego. De terça a domingo, das 10.00 às 18.00. Entradas: 3 euros (1, 5 euros para residentes no concelho de Cascais).

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