"Os ícones da moda de hoje são fabricados"

Valerie Steele, a quem já chamaram de "Freud de saltos altos", dedica-se a levar a moda aos museus. Prepara uma exposição sobre a cor rosa.

Kim Kardashian. "Se olharmos para as capas das revistas teríamos de dizer que é o ícone da moda do momento", afirma Valerie Steele, doutorada em moda na universidade de Yale, diretora e curadora do museu do Fashion Institute of Technology (FIT), em Nova Iorque. Pode a estrela de reality shows e redes sociais reunir os requisitos para um dia chegar a um museu? Ter aquilo que, como veio dizer a Lisboa, um dia possa estar num museu "como peças da cultura visual que merecem a nossa atenção".

"A questão é que os ícones de moda de hoje são fabricados", afirma a investigadora, antes da conferência organizada pelo Museu do Traje em parceria com o IADE para falar sobre a moda nos museus. Kardashian foge ao paradigma de beleza das últimas décadas. "O que é fascinante", admite. "Se calhar é isso que faz com que as pessoas se identifiquem com ela".

É uma personalidade longe do perfil da Condessa de Grefulhes, a aristocrata francesa que inspirou Marcel Proust a criar a duquesa de Guermantes da obra À Procura do Tempo Perdido, cujo guarda-roupa, recheado de modelos de Worth, Fortuny, e mais tarde, Lanvin, se pode ver no Museu Galliera, em Paris e que em setembro chega a Nova Iorque.

Valerie Steele conta que soube do projeto há três anos, sentada ao lado de Olivier Saillard, diretor e curador do museu francês, enquanto esperavam que o desfile Dior. "Meu Deus, posso fazer alguma coisa? Escrever para o catálogo ou trazê-la a Nova Iorque?".

Através do corpete de Madonna

O museu que dirige tem semelhanças com o português, que fica no antigo palacete de uma quinta no Lumiar, e o museu que dirige, no limite da cidade de Nova Iorque. "Não sabíamos que existia um museu aqui. As pessoas dizem-me isso o tempo todo, mesmo em Nova Iorque". conta. Tem recursos bem mais escassos do que o Costume Institute do Metropolitan Museum onde Anna Wintour, diretora da Vogue, realiza a sua gala anual. Mas "é possível fazer uma exposição boa, desde que se tenha roupas bonitas e boas ideias", veio dizer.

Os 18 anos à frente do museu do FIT (desde 1997) permitem à historiadora norte-americana dizer que "as pessoas adoram ver moda". "Os números crescem em todo o lado, ano após ano. Gradualmente, as exposições deixaram de ser cronológicas. Claro que os blockbusters são os designers contemporâneos, os Saint Laurent, McQueen e John Galliano. Mas quando somos capazes de mostrar que o vestido histórico tem algo que ver com o que estão a usar agora, as pessoas muito entusiasmadas". Foi o que acontece com a exposição de corpetes: havia os exemplares dos séculos XVIII e XIX, "depois mostrámos como a moda moderna e contemporânea o introduzia". Com Alexander McQueen, Thierry Mugler ou o corpete que Jean Gaultier fez para Madonna. "As pessoas adoram ver roupas", diz, olhos azuis vívidos atrás de uns óculos com estampado leopardo.

A historiadora, de 60 anos, a quem a jornalista de moda Suzy Menkes chamou de "Freud de saltos altos", doutorou-se, investigando os aspetos eróticos da moda entre 1860 e 1920. "No primeiro semestre a estudar História e Cultura da Europa Moderna tive uma epifania. A moda fazia parte da cultura e podia estudá-la, o que me fez impossível de contratar por nenhum departamento de História, já que são quase só homens conservadores". O assunto era considerado frívolo e durante uma década foi professora contratada, porque, pelo contrário, as universidades queriam ter aulas sobre moda e os alunos também.

As pessoas adoram a moda. Os números crescem em todo o lado, ano após ano", diz a investigadora

Quando é que a moda deixou de ser malvista? "Quando se percebeu que é uma indústria multibilionária e quando os miúdos das subculturas e os gays começaram a usá-la como forma de expressão, à semelhança do papel que hoje se pode atribuir a primeira-dama dos EUA."Michelle Obama tem sido muito inteligente ao promover um número muito diverso de designers.Tem feito questão de usar latino, asiático, mulheres, assim como brancos e gays. Todos estão representados."

Uma exposição em tons rosa

Esta foi a sua segunda vez em Lisboa. A primeira foi pouco depois do 25 de abril. Em 1976. "Parecia muito mais pobre mas pitoresca. Agora parece fantástica", diz, aproveitando o sol de outono numa das mesas da esplanada que dá para o jardim do Palácio Angeja-Palmela, que tinha visitado durante a manhã. A coleção do século XVIII, em o museu de Nova Iorque é pobre, interessou-a. "Tudo o que conseguia pensar era: "Como é que posso fazer uma exposição em que possa pedir emprestadas estas peças?"". Uma delas pode ser o projeto em torno da cor rosa em que está a trabalhar. "Há fatos cor de rosa do homem do século XVIII. Ou um vestido império com bordado". Levantou a possibilidade à diretora do Museu do Traje, em Lisboa. "Vamos ver o que quer", diz Clara Vaz Pinto.

Como curadora, explica, "estou muito interessada na moda em relação com o corpo e o género e a sexualidade, moda e identidade, as subculturas.". E há a questão feminista. "Estou interessada nas mulheres como designers. Quando aparecem? E quando é que foram postas de lado? Nos anos 20 e 30, elas mandam". Basta lembrar os nomes: Coco Chanel, Elsa Schiaparelli, Madame Grès... Depois da II Guerra Mundial, vieram eles. Dior, Saint-Laurent, Balenciaga, Norman Norell, Jacques Fath...É a último que se atribiui a frase: "A moda é uma arte e os homens são os artistas": O único papel das mulheres é comprar roupas", contextualiza.

São estas mulheres, "que estão a criar a imagem dos homens", que estão (também) na mira de Steele, como a britânica Daphne Guinness, a quem dedicou uma exposição em 2011.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG