Os Dias da Música perdem o pé mas não o ritmo

Sérgio Godinho também é erudição, num evento que esbate fronteiras. Um cheirinho da festa que termina hoje no CCB

"Já tenho o plano todo feito", garante Bento Andrade. Acabara de ver De García Lorca a Piazzolla e lia o programa de Os Dias da Música no hall da Sala Luís Freitas Branco. Este cidadão brasileiro trocou o Rio de Janeiro por Portugal há 13 anos e não falha uma edição do festival, que apoda de "excelente". Neste ano concentrou as escolhas no sábado. "A seguir vou ver Quantas Sabedes Amar Amigo e mais tarde Mozart e Da Ponte", informa, enquanto mostra os bilhetes e faz saber que o génio de Salzburgo não figura entre os seus preferidos, que são Bach, Brahms e Beethoven. No mesmo espaço, acompanhados da mãe, três crianças fazem-se notar. Não porque estejam a fazer tropelias, mas tão-só porque a larga maioria dos espetadores saídos do concerto de música espanhola e argentina ostentam cabelos grisalhos. Também são espetadores assíduos de Os Dias da Música. Miguel, o primogénito, está a aprender acordeão, o instrumento que acabaram de ouvir; Francisco aprende flauta transversal e Matias, o caçula, tem lições de piano. E é o porta-voz: "Gosto mais de concertos com orquestra", ao que a mãe completa: "Tem mais impacto".

O mote da edição deste ano é As letras da música. "Há alturas na história da música em que a palavra serve a música e alturas em que acontece o contrário. Essa dicotomia foi acontecendo, pelo que o tema parece perfeito neste contexto", comenta Filipe Raposo. Pianista, compositor e arranjista em múltiplas frentes, participa em dois espetáculos de natureza bem diversa, no total de cinco vezes: Menina do Mar (hoje às 10.30, 13.30 e 16.00), a partir do conto de Sophia de Mello Breyner Andresen e da música de Bernardo Sassetti e o concerto com Sérgio Godinho (ontem). O pianista rejeita a ideia de que seja difícil saltar de um registo para o outro. "São dois mind sets que se podem mudar rapidamente, sem grande dificuldade. São espetáculos muito diferentes. Com o Sérgio Godinho, é baseado no que fizemos juntos no São Luiz e está super rodado. A Menina do Mar foi uma encomenda da Fábrica das Artes e neste último mês estivemos a montá-lo".

Sobre a presença de Sérgio Godinho, tal como a de JP Simões a cantar Chico Buarque, num festival de música erudita, Filipe Raposo interroga o conceito de erudição. "Nas canções do Sérgio Godinho encontramos erudição, por exemplo, no plano poético. São canções extremamente bem estruturadas, baseadas na experiência pessoal, mas há uma universalidade que o acompanha, como há em cantautores norte-americanos como Joni Mitchell ou Bob Dylan. A erudição é um conceito que se está a esbater cada vez mais, partimos é da premissa da qualidade. Essa qualidade é sustentada artisticamente. Antigamente a erudição estava associada ao academismo e hoje em dia há cada vez mais um crossover, um perder o pé de territórios. Às vezes pode ser uma orquestra, outras vezes um piano, outras um poema ou uma voz."

Antes do concerto que juntou pianista e cantor, o primeiro esteve entre o público a ouvir Godinho falar sobre "Brincar com as palavras", uma de várias conversas que fazem parte da programação paralela aos concertos. À mesa com Nuno Galopim, Sérgio Godinho começou por falar da infância e da juventude: nos primeiros anos o gosto pela leitura foi incutido pela família e pela avó paterna em particular, que tinha um programa de poesia na Ideal Rádio. A relação de Sérgio Godinho com a palavra - em particular com a língua portuguesa - sofreu um desvio quando, na juventude, viveu em países francófonos. Tanto é que quatro temas de Os Sobreviventes, seu primeiro álbum, tinham originalmente letras em francês. Até que se deu "uma iluminação ou epifania". A partir desse momento percebeu que conseguia "praticar a língua portuguesa" e ao mesmo tempo "estabelecer uma ligação com o país aonde não podia ir".

Um espetáculo que combina palavra e música de uma forma incomum é Shakespeare na Música: textos do grande dramaturgo inglês recitados por Rita Blanco a meio do concerto da soprano Susana Gaspar e o do pianista Nuno Vieira de Almeida. "É a segunda vez que estamos a fazer este espetáculo. Fizemo-lo no verão passado e é uma experiência fantástica. É a primeira vez que faço um recital em que as canções são alternadas com o texto falado e por trabalhar com alguém como a Rita Blanco. As pessoas adoraram-no por ser diferente", conta Susana Gaspar. A soprano radicada em Londres há 11 anos volta a atuar hoje com Nuno Vieira de Almeida, mas num registo bem diferente. Com o tenor João Terleira interpreta Canções Espanholas de Hugo Wolf. "Torna as coisas um bocadinho mais complicadas, digamos. São textos de vários autores, mas tudo muito intenso, tudo mais pesado." Após a participação dupla Susana Gaspar vai regressar a Londres e ensaiar para uma produção de La Bohème, que vai estar em digressão pelo sul de França e Inglaterra.

O Centro Cultural de Belém transfigura-se durante Os Dias da Música e são raros os recantos onde o silêncio impere, entre aplausos e conversas, correrias e exclamações, loiças e máquinas de café em uso - e a música, claro. Um toc-toc-toc ressoa junto à entrada da sala Sophia de Mello Breyner Andresen. A porta está fechada e o concerto que ali decorre, A Sonata Kreutzer, não conta com instrumentos de percussão, apenas violino e piano. Sobem-se os últimos degraus e encontramos duas crianças alheadas de tudo o resto. Estão com a babysitter (um serviço providenciado pelo CCB) e divertem-se a tocar na estrutura de madeira que tem penduradas garrafas de vidro, tocos de madeira e canas de bambu. E quando estes dão o seu espetáculo por terminado o ruído ressurge com a passagem de carrinhos de mão com instrumentos. A gestão de instrumentos de percussão de grandes dimensões e harpas é um serviço que o CCB proporciona aos músicos.

"Bem-vindos à sala dos brinquedos". É com humor que João Lemos e Helena Ribeiro, responsáveis pela logística dos instrumentos, nos abrem a porta de uma sala especial. É ali, nos fundos do grande e do pequeno auditório, que estão guardados instrumentos que, pelo seu volume, o instrumentista não tem como transportar. E não só. O CCB "assegura às formações que não sejam orquestras", mediante pedidos, o empréstimo de instrumentos. "Há um puzzle a ser feito para perceber se é possível rodar instrumentos entre ensaios e concertos pelas várias formações. Este ano, anormalmente, temos três sets de tímpanos, porque o puzzle não nos permite fazer uma rodagem só com um set. Contamos com algumas parcerias para obter instrumentos, mas há uma série de instrumentos que, pela sua raridade, ou por qualquer outro motivo não nos podem ceder, têm de ser alugados", explica João Lemos. Nesta edição são disponibilizados cerca de cem instrumentos.

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