Os diários que revelam em muito a misteriosa escritora Virginia Woolf

A edição que serve de base a esta tradução é a que reúne os cinco volumes de diários, que amplamente reproduzem o quotidiano da escritora

A escrita memorialista de Virginia Woolf reunida em Diários permite ao leitor que aprecia a sua obra a grande compreensão do que está por trás das páginas dos seus livros, impressas como não existindo mais do que a capacidade criadora. Esta reunião de vários diários recentemente publicados após tradução de Jorge Vaz de Carvalho começa no primeiro dia de janeiro de 1915 e estende-se - com interrupções - até 24 de março de 1941, poucos dias antes do seu suicídio.

Nada do que está nessa última entrada, aliás, faz adivinhar que quatro dias depois, a 28, enfiaria várias pedras no bolso do casaco para a ajudar a afundar-se no rio Ouse, nas proximidades da sua casa. Com tanta determinação, que só três semanas depois é que um grupo de crianças a encontrou. Registada ficou uma visita que fez, uma curiosa sensação de praia e uma esquina ventosa em Brighton, bem como alguém a tratar dos rododendros no jardim. Nada que adiantasse uma decisão como a que iria tomar. O mesmo não se pode dizer da entrada do dia 8 anterior, quando comenta o "aproximar da velhice", o "observar o meu próprio desalento", a "introspecção", mesmo que termine o texto a dizer que "são sete horas e tenho de ir fazer o jantar".

O prefácio do tradutor aponta o caminho para o que se vai ler: que a experiência diarística de Virginia Woolf tivera início aos 15 anos; fora interrompida; regressa em 1916, e durante mais de 25 anos produz esta prosa memorialista, com a particularidade de atravessar a Grande Guerra e sentir-se muito do princípio da Segunda Guerra Mundial. Aliás, a presença dos conflitos é constante, como escreve a 11/01/1916: "A esperança da paz voltou a ser completamente desmantelada."

A edição que serve de base a esta tradução é a que reúne os cinco volumes de diários, que amplamente reproduzem o quotidiano da escritora, sendo que em muito se cruzam por estas páginas personagens e protagonistas intelectuais com que conviveu. Uma que as frequenta abundantemente é Lytton Strachey, que faz as suas aparições de uma forma muito própria: "No domingo, o Lytton veio tomar chá. (...) Em alguns aspectos, é o nosso amigo mais agradável e compreensivo para conversar." Strachey regressará inúmeras vezes, mas não faltam outras figuras: "Estava presente o Aldous Huxley..." Ou "recebi ontem uma carta da miss Harriet Weaver, perguntando-nos se poderíamos editar o novo romance de James Joyce..."

Ainda a leitura vai no princípio quando Woolf comenta a sua escrita diarística: "O hábito do diário ganhou vida em Charleston", a que se segue a impossibilidade de trocar opiniões com dois amigos sobre as suas literaturas: "A coisa triste é que não nos atrevemos a confiar uns aos outros a leitura dos nossos livros; eles repousam, como vastas consciências, nas nossas gavetas mais secretas."

O registo também expõe a desilusão da autora perante a crítica: "Posso dizer que sou "rejeitada pelo Times". O resultado é fazer-me escrever o meu romance a um ritmo surpreendente. Se continuar posta de parte, acabarei [o livro] dentro de um mês ou dois."

A parte mais interessante deste conjunto de diários é poder conhecer-se a oficina da escrita de Virginia Woolf, como aquando do romance Mrs. Dalloway, em que se sente insegura e só deseja voltar a ser livre. Mesmo que a continuação do parágrafo seja sobre o terem cortado a árvore nas traseiras da sua casa: "A que eu costumava ver da clarabóia da minha cave." 700 páginas esclarecedoras.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG