Os ananases vão voltar ao jardim botânico de Queluz

Estufas e canteiros usados pelos infantes para aprender sobre plantas abre, renovado, no verão. Custa meio milhão de euros

No verão, os ananases voltam ao jardim botânico do Palácio Nacional de Queluz. Custa crer, quando se está no local - a uns 100 metros do edifício principal, apenas com um muro a separar do IC19. A balaustrada ainda não está totalmente limpa nem no seu sítio. Faltam azulejos nos alegretes, há muros por limpar, o lago central está no estaleiro e não se vislumbram plantas, apenas ervas daninhas. Mas as obras já começaram.

É impossível dizer o dia exato em que os trabalhos começaram. Em 2012 quando a Parques de Sintra deu o aval para o arranque da investigação histórica que sustenta as obras? Quando as plantas da construção foram encontradas na Torre do Tombo dando luz sobre o aspeto do jardim que foi usado pela Escola Equestre Portuguesa até há pouco mais de um ano? Quando foram reunidas as pedras que andavam perdidas pelo jardim e que foram montadas como se de um puzzle se tratasse? Ou em dezembro quando a equipa de restauro entrou em campo e começou a limpar, uma a uma, as uniões de metal do varandim?

No verão de 2015, quando as fachadas do Palácio tomavam o seu azul original, a equipa de conservação e restauro já tinha começado trabalhos preparatórios neste jardim botânico de 24 canteiros, um para cada categoria da classificação de Lineu. Era assim que os infantes aprendiam. O Palácio, uma antiga quinta, começou a sofrer obras em 1747 por ordem do rei D. Pedro. As estufas foram instaladas ao lado, duas de cada lado, protegidas pelo friso de balaústres, onde cresciam ananases.

Fruto raro e exótico à época, chegaram a ser símbolo da família real, como demonstra um conjunto escultórico da família que está no palácio. Eram "uma iguaria" para quem comia e um desafio para quem cuidava do jardim, "Era motivador para os jardineiros, não era qualquer um que estava habilitado a cultivar ananás", reflete o arquiteto paisagista Nuno Oliveira. Quando tudo estiver pronto, eles voltam. "Vamos ter ananases em várias fases de crescimento". Aliás, eles já estão na posse da Parques de Sintra, à espera do momento em que podem ser (re)plantados.

Documentos da Torre do Tombo

A recuperação do jardim botânico parte da documentação da construção do Palácio e das zonas anexas foi encontrada na Torre do Tombo, encontrada pela historiadora Denise Pereira, que apoia o arquiteto paisagista e o engenheiro na pesquisa histórica.

É o que permite dizer, com certeza, que tudo será montado nos locais onde estava e os canteiros ficam como estavam. "Encontrámos um index de plantas", afirma Nuno Oliveira. Já no caso das estufas, o revestimento será em vidro, como na época, mas "respeitando as exigências de segurança de hoje", diz o Gonçalo Pais Simões. E nem tudo é construído. "Sabemos que existia uma casa chinesa [aponta para uma das extremidades do jardim], a partir de uma reconstrução de 1865. "Foi uma opção estratégica não reconstruir. Não tínhamos dados que apoiassem a nossa decisão". Fica o espaço, à espera da Sala Chinesa, e o repto, aos historiadores, para que a encontrem.

Cheias cíclicas

Há também um lago no centro, o lago original que, agora, pode ser visto montado numa antiga zona de hortas, contígua ao jardim botânico e foi um quebra-cabeças, literalmente, montá-lo. "As pedras estavam espalhadas pelo jardim", explica o engenheiro Gonçalo Pais Simões. O mesmo para as fundações das estufas. É preciso recuar a 1983 para perceber porquê.

As cheias desse ano destruíram o local, tal como já tinha acontecido em 1976. "Esta é uma zona de confluência de águas", explica o engenheiro sobre o terreno sobre o qual foi construído o jardim botânico. "São cíclicas", acrescenta Manuel Baptista, da administração da Parques de Sintra. O caso está a ser objeto de debate com as autarquias de Sintra, Oeiras e Amadora, revela, durante a visita ao local. É ele quem revela o custo total da obra do botânico: meio milhão de euros. Uma fração dos 3 milhões que estão a ser investidos no 2012 e nos próximos três anos, com vista a atrair mais pessoas.

Em 2015, o Palácio, um dos 10 equipamentos geridos pela Parques de Sintra, registou 136 369 de entradas. "Achamos que é baixo", admite, sem rodeios, o administrador.

Além da fachada e do pavilhão Robillon, estão a trabalhar na recuperação dos jardins de aparato, dos pavimentos do jardim e do bosquete e a sua cascata. "Estão com um pedido de parecer à Direção Geral do Património Cultural", diz Nuno Oliveira. E ainda pensam recuperar a capela e o seu órgão histórico, e o pavilhão de D. Maria, isto é, aquela parte do palácio que está cedida à presidência da República. Era usada para receber convidados estrangeiros (foi o caso da princesa Diana quando esteve em Portugal), mas não tem sido usado nos anos mais recentes. Um caso para debater com o novo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que até à tomada de posse, a 9 de março, faz do palácio o seu escritório.

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