O universo desesperado de uma mãe que não desiste de encontrar o filho

No Dia da Criança, o DN revela primeiro póster de Sombra, o filme sobre o desaparecimento de um menino e a luta da sua mãe para o encontrar. Estreia ainda este ano e Ana Moreira fala pela primeira vez de um papel de mãe que pode vir a ser o maior desafio da sua carreira.

Uma mãe à procura de um filho durante muitos anos. O filme chama-se Sombra e é a segunda obra de Bruno Gascon, cineasta que há dois anos se estreou com Carga. Um drama ainda sem data definitiva mas apontado para o último trimestre. Ana Moreira é a protagonista desta história sobre o amor maternal, interpretando Isabel, uma mulher que em 1998 tinha a família perfeita até que um dia chega a casa e descobre que o seu filho de 11 anos desapareceu. A partir desse momento tudo muda.

Apesar da cobertura mediática do caso e da existência de um suspeito, a justiça falha constantemente e Isabel percebe que somente ela poderá manter viva a busca por Pedro. Quinze anos depois e apesar de todos os obstáculos que encontra, esta mãe vai continuar a fazer de tudo para reencontrar o filho que todos querem que esqueça, mas que ela acredita ainda estar vivo.

É certo e seguro que muitos vão pensar em inspiração no caso Rui Pedro, mas a verdade é que o argumento é puramente ficcional, saindo da cabeça do realizador. Ainda assim, quer Bruno Gascon, quer Ana Moreira, falaram com Filomena Teixeira, a mãe de Rui Pedro, o menino que desapareceu precisamente em 1998.

Ana Moreira apresenta-nos este projeto com grandes pretensões em poder ser um dos campeões de bilheteira no nosso país.

Como apresenta Sombra?

É uma história de uma mãe em busca de um filho que desapareceu aos 11 anos. Trata-se de uma imensa travessia que vai do final dos anos 90 até 2013... Um caminho de uma mãe que nunca desiste e que acredita que pode encontrar uma resolução sobre o que terá acontecido ao filho.

Acredita que é um filme que poderá criar um fator emocional capaz de contagiar o espetador?

Sim! É um filme que transporta muita emoção com uma carga intensa e forte. Acho que o espetador facilmente se vai relacionar com este tema, neste caso a perda de uma criança. No fundo, é uma história que fala dos afetos e de como uma perda pode levar à destruição de uma família ou à constante luta para continuar a haver esperança.

Foi um papel que a tenha deixado assustado, este de uma mãe em desespero? Ficou marcada pela construção desta personagem?

Foi um desafio. Logo na primeira conversa que tive com o Bruno Gascon fiquei um pouco assustada: sabia que iria ter que descer a um certo inferno e abismo. Sabia que iria ser duro de forma constante...Já tive outros papéis complicados e descobri que um ator tem de ser corajoso e partir para a luta. Acredito que não pode haver inseguranças...Nestes casos, há que acreditar no projeto e atirarmo-nos de pés juntos. Senti-me muito apoiada pelo realizador. Felizmente, houve muita confiança e um entendimento de ambas partes. Mas entrei mesmo num universo muito negro.

Nos filmes da Teresa Villaverde já se sentia que era perita em entrar nesses universos. Quem a vir em Transe percebe que terá passado as passas do Algarve. Há qualquer coisa no seu percurso de atriz que nos faz pensar em mártir...

É a vida... Não sou eu quem escrevo os guiões.

Não lhe dão as comédias românticas...

Não me dão, não... Adorava que me dessem uma comédia romântica! Mas estou contente pois nos próximos três filmes que vão estrear tenho personagens diferentes e que saem desse registo. Porém, tenho prazer nesse registo, permite-me levar a sítios que não conheço e que me fazem expandir.

A Ana não é mãe e aqui interpreta uma mãe. Provavelmente, esse é um jogo ainda mais estimulante para uma atriz... Jogo, construção ou projeção?

Normalmente nunca sou aquilo que interpreto. Isso da maternidade é daquelas coisas que não preciso para conseguir ser uma mãe em cinema - também nunca fui uma advogada, enfermeira ou prostituta. Mas sou mulher! A maternidade é uma experiência pela qual ainda não passei mas isso não me impede de representar uma mãe ou uma avó.

E aqui com muitos níveis etários, vamos ver esta mãe em diversas idades...

Sim, mas por já não ter um filho, de alguma maneira, a maternidade é-lhe roubada... Uma mãe com o vazio... A verdade é que ela, nos diversos anos de busca, passa por processos diferentes: no começo tem uma raiva e inquietação, enquanto depois segue-se uma espécie de luto e a sua energia muda. Psicológica e fisicamente é uma mulher que vai ficando diferente. Trata-se de uma mãe que perde parte da sua vida e isso vê-se no seu rosto e corpo, mesmo na maneira de se mexer. Conseguimos isso muito através do trabalho muito bom de maquilhagem de envelhecimento com a Olga José.

Ficou imersa durante as filmagens em Viana do Castelo, cidade que nos últimos tempos tem atraído algum cinema português...

Há muito que não tinha uma rodagem fora dos centros urbanos e estar três meses em Viana foi uma experiência incrível. Tivemos uma equipa que se deu toda muito bem e que construiu laços afetivos. Ao estarmos todos juntos tanto tempo era importante que as coisas corressem bem... A atmosfera da cidade ajudou muito. A Câmara Municipal de Viana e a Viana Film Comission foram imprescindíveis para que o filme pudesse ser feito.

Aquaparque [2018] foi a sua primeira curta-metragem como realizadora. O que podemos esperar da Ana Moreira cineasta?

Depois do Curtas Vila do Conde, o Aquaparque fez um percurso por vários festivais internacionais e correu muito bem. Neste momento, estou a desenvolver mais projetos com a produtora C.R.I.M. A intenção é continuar, interessa-me contar histórias que se apresentem como outras narrativas. Há tantas histórias para contar! Não me interessa o que está para trás, quero um cinema dos nossos tempos, um cinema de experiências, embora ainda esteja a encontrar o meu caminho como cineasta.

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