O solo de Martin Zimmnermann entre o "clown" e a acrobacia

O coreógrafo e acrobata suíço apresenta "Hallo" em Lisboa, Viseu e Guimarães. Um diálogo entre um corpo e muitos objetos.

Quando era pequeno e vivia numa pequena cidade da Suíça, Martin Zimmermann era absolutamente fascinado com o mundo do espetáculo, com o circo e com a figura dos palhaços. Mas o pai disse-lhe que ele tinha que estudar e ter uma profissão a sério. Então, Martin estudou design e cenografia e, depois, durante quatro anos, trabalhou como designer, entre outras coisas, fazendo montras em grandes lojas. Lembrem-se disto quando estiverem a ver Hallo, o espetáculo que ele apresenta hoje e amanhã na Culturgest, em Lisboa.

Martin percebeu rapidamente que não queria aquela profissão e mudou-se para França para estudar artes circenses. A acrobacia, a dança e a mímica são a base dos seus espetáculos, onde há poucas ou nenhumas palavras. O seu trabalho é muito físico e os seus intérpretes são geralmente acrobatas excecionais, capazes de fazerem o que quiserem com o seu corpo. Mais do que isso: com a capacidade de falarem com o corpo. Essa é, na sua opinião, a essência do clown. "Claro que tem a ver com o humor e com o riso mas não é só isso. Sempre me interessou perceber porque é que as pessoas riem ou porque é que choram. E isso tem a ver com o clown, que é uma personagem livre, uma figura que é uma criança e também é um velhote. Mais do que uma personagem é uma silhueta", diz. Um desenho de personagem.

Mas, além dos corpos, há outro elemento muito importante nas suas criações: o cenário. Para Zimmermann, "os objetos que estão em palco são eles próprios personagens, têm uma vida própria, e tudo passa pela relação entre os corpos e os objetos, como um diálogo". As cadeiras, as portas, as janelas, as mesas, tudo tem a sua função essencial na peça, nada é decorativo. "Cada espetáculo é como uma escultura viva. Nunca está pronta." Mesmo depois de estrear e de o apresentar, mais de 20 vezes, como já aconteceu com este Hallo, estreado em 2014, há sempre coisas a melhorar.

Hallo é um solo, o primeiro solo de Zimmermann, que atualmente tem 46 anos. "Levei muito tempo até ter coragem de me apresentar a solo, o tempo corre, o meu corpo está a ficar mais velho, daqui a dez anos já não conseguirei fazer em palco aquilo que faço hoje, será diferente, mas não tão físico como agora. Para mim este era o momento para fazê-lo."

Sozinho em palco (embora acompanhado pela sua equipa habitual fora de cena), Zimmermann interpreta um homem que parece preso numa grande montra de uma loja. "É um espetáculo sobre alguém em busca de si mesmo, que procura o seu interior, durante uma hora. É muito sobre quem nós somos", explica. Sobre o que expomos e o que não mostramos. Sobre espelhos e ilusões. É um homem a tentar domar os seus fantasmas interiores. E depois reconhece: "Aquele homem sou eu. Com todos os meus medos, os meus problemas, os meus erros, sou eu mas numa versão ampliada, exagerada."

Hallo
De Martin Zimmermann
Culturgest, Lisboa, hoje e amanhã, 21.30
Dia 15 no Teatro Viriato (Viseu) e a 18 no Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)

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