O Rio de Janeiro está a preparar um Carnaval fora de época

As cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos foram sempre uma festa, mesmo antes de passarem na televisão e de terem artistas em vez de atletas como estrelas convidadas. Londres trouxe James Bond e Paul McCartney para o estádio. O que poderá o Rio de Janeiro fazer de diferente?

supermodelo Giselle Bündchen vai aparecer. Haverá música com os veteranos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luiz Melodia e Elza Soares e também com a jovem Anitta, de 23 anos, conhecida por cá sobretudo pelo Show das Poderosas. E pouco mais se sabe sobre a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, marcada para o próximo 5 de agosto. Segundo as escassas declarações de Caetano Veloso, a música será o prato forte: "Passinho, funk, samba, forró, bossa-nova e pop vão estar representados. A ideia é não ser restritivo, e sim inclusivo, sem estereótipo. O espetáculo é baseado no que há de melhor no Brasil."

A direção está a cargo dos realizadores Fernando Meirelles (de Cidade de Deus), Daniela Thomas e Andrucha Waddington (Eu Tu Eles). Três nomes do cinema à frente do espetáculo, afinal trata-se de um programa de televisão que será visto em todo o mundo - a cerimónia de há quatro anos teve 22 milhões de espectadores só no Reino Unido e mais de 40 milhões nos EUA. É preciso fazer que o show funcione para as câmaras.

Com um orçamento de crise de 127 milhões de reais (35 milhões de euros), a cerimónia contará a história do povo brasileiro. Para fazer o argumento, os diretores ouviram especialistas, como o antropólogo Hermano Vianna. A coreografia é de Deborah Colker e a cenografia de Rosa Magalhães, ambas com experiência dos desfiles de Carnaval no Rio de Janeiro. No Estádio do Maracanã, já começaram os ensaios com 200 bailarinos e mais de quatro mil voluntários. Mas o secretismo é grande e não foi ainda divulgado quem irá carregar a tocha olímpica.

Desfile de estrelas

Não é fácil organizar uma cerimónia depois do que aconteceu há quatro anos, em Londres. Danny Boyle, o realizador de Trainspotting e Slumdog Millionaire, foi o responsável pela conceção do espetáculo de abertura, intitulado Isles of Wonder, que durou quase quatro horas e percorreu alguns dos momentos da história e da mitologia britânica - de Kenneth Branagh a ler um excerto de A Tempestade de Shakespeare à chegada de helicóptero do agente secreto James Bond, interpretado pelo ator Daniel Craig. Entre as muitas participações especiais: a escritora J.K. Rowling, o humorista Rowan Atkinson (como Mr. Bean), os Artic Monkeys tocaram I Bet You Look Good on the Dance Floor e Paul McCartney encerrou a cerimónia com Hey Jude.

Se a abertura tinha nomes fortes, a cerimónia de encerramento foi uma autêntica parada de estrelas. Do ator Michael Caine ao grupo One Direction, passando pelos Pet Shop Boys, Annie Lenox ou Ed Sheeran e Fatboy Slim, houve música para todos os gostos. Mas não será errado dizer que a grande sensação da noite foram as Spice Girls, reunidas, por uma noite, para "apimentar" a cerimónia. Na passagem de testemunho ao Brasil, a estrela foi Marisa Monte.

Nem sempre foi assim

Na verdade, se as cerimónias de Pequim já tinham ficado na história pela sua grandiosidade, as de Londres conseguiram reunir a maior quantidade de personalidades (e personagens) universais. Será difícil fazer melhor.

As cerimónias olímpicas sempre foram uma festa, mas a uma escala diferente. Nos primeiros jogos, em 1896, os cerca de 80 mil espectadores no Estádio de Atenas puderam ouvir nove bandas e 150 cantores interpretar o hino olímpico. Os Jogos de 1936, em Berlim, foram os primeiros a ser transmitidos pela televisão para 41 países (mas só em 1960, em Roma, a transmissão seria em direto), além de serem também filmados pela cineasta Leni Riefenstahl. Foi a primeira vez que a cerimónia de abertura foi pensada como um espetáculo e tudo foi encenado de forma a mostrar ao mundo o poder de Hitler. O modelo iria repetir-se. As cerimónias de abertura e encerramento tornaram-se palcos políticos para os países organizadores. Aconteceu em Tóquio, em 1964, ainda com a memória da Segunda Guerra Mundial muito presente (e foi a primeira vez com fogo de artifício). Aconteceu em Moscovo em 1980 e em Los Angeles, em 1984, em plena Guerra Fria.

Os jogos de Moscovo marcaram um salto a nível artístico nas cerimónias, com muitos figurantes e coreografias elaboradas, mas ainda tendo os atletas como principais estrelas - e a mascote que vimos em desenhos animados, o urso Misha. Foi a primeira megacerimónia. Quatro anos depois, em Los Angeles, as estrelas da cultura pop começaram a tomar conta do estádio olímpico: na abertura, Etta James interpretou When the Sains Go Marching In; no encerramento, Lionel Richie cantou All Night Long. De então para cá, com cada vez mais efeitos especiais e maior espetacularidade, tornou-se óbvio que não haveria cerimónia olímpica sem estrelas: fossem elas Montserrat Caballé, José Carreras e Plácido Domingo (Barcelona, 1992), Celine Dion (Atlanta, 1996) ou Björk (Atenas, 2004). Depois da apoteose de Londres, o Rio parece estar apostado em trazer de volta a cerimónia para um nível mais terra-a-terra: como um Carnaval mas com menos calor.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG