O retrato que não para de crescer

Javier Cercas regressa à Guerra Civil espanhola. Mas, desta vez, o assunto tem uma base familiar. E a sua microscópica reconstituição é também um jogo de espelhos

Outra vez uma imagem: em Anatomia de Um Instante, o livro que o estreou no universo das publicações em Portugal, há meia dúzia de anos, Javier Cercas criava um novelo que crescia metodicamente, pausadamente, a partir de um momento histórico - a invasão armada das Cortes espanholas por um militar revoltoso, Tejero Molina, a disparar tiros para o ar enquanto grita, e a automática reação de quase todos os presentes no hemiciclo, deputados, membros do governo, funcionários.

Com duas exceções: Adolfo Suárez, que chefia um executivo que se adivinha estar a prazo, e Santiago Carrillo, parlamentar e secretário-geral do Partido Comunista Espanhol. Um e outro permanecem sentados nos seus lugares e não aparentam grande disponibilidade para ceder às ameaças do homem da Guardia Civil.

Ao longo de 456 páginas, o autor contextualiza, enquadra, localiza, para depois partir na direção das teses, das suposições, das ideias. No seu novo livro, El Monarca de Las Sombras, a técnica não se mostra substancialmente diferente - no centro nevrálgico, volta a estar uma imagem. Mas, desta vez, é um retrato antigo de um jovem mancebo, imaculadamente fardado, uma fotografia com a qual o autor se cruzou anos a fio, em férias ou de visita ao povoado (Ibahernando, na região de Cáceres) onde viveu a família, ainda hoje localmente representada. Ou seja, agora é pessoal.

O homem cuja presença fotográfica se faz sentir na infância e na adolescência de Cercas é um tio-avô materno, muito ligado a Blanca, mãe do escritor. Depois de uma meninice irrequieta, começou a distinguir-se nos estudos, chegando inclusivamente a rumar à cidade para poder continuar a formação. A guerra cortou-lhe as (v)asas: alistou-se ao lado dos franquistas, na Falange, e aí combateu durante cerca de dois anos, sendo ferido várias vezes e acabando por morrer numa das mais terríveis e prolongadas batalhas com os republicanos.

Sendo o autor um reconhecido crítico de Franco e do seu regime, não deixa de o seduzir e apaixonar (ou se calhar, enfeitiçar...) o percurso deste parente que, à partida, tanto poderia ter-se alinhado com a Falange por uma questão estratégica, entendendo que esta defenderia melhor as posses de uma família pequeno-burguesa, mas com destaque na aldeia, ou por puro fervor ideológico. Durante anos, Javier Cercas evitou esta história, chegando mesmo a refletir sobre a hipótese de se ter tornado escritor para poder fugir-lhe sem maiores remorsos.

Agora, mais de quinze anos depois de ter abordado o conflito que lançou espanhóis contra espanhóis, em Soldados de Salamina, acabou por aceitar o seu destino e acabou por concretizar uma investigação que nunca foi feita de forma continuada, o que não significa que não possa ter tido várias ocasiões obsessivas. Até pela necessidade de voltar a abrir feridas - com entrevistas a familiares, a velhos vizinhos da família, até a personagens que sabem dos locais e dos percursos do grupo militar a que o "protagonista" pertenceu - que, em boa verdade, nunca sararam antes, ainda que tenham perdido a importância imobilizadora de outros tempos.

Ficção e documentário

Carece de exagero a ideia de que Cercas é, nos dias de hoje, um dos autores espanhóis (que diz de si próprio ser um catalão que nunca deixou de sentir estremenho... ou vice-versa) mais disputados e mais seguidos pelo público e pelas casas editoriais. Basta perceber que, em Portugal, já houve pelo menos três chancelas disponíveis para o publicar - primeiro, a D. Quixote com Anatomia de Um Instante; depois a Assírio & Alvim, com As Leis da Fronteira e O Impostor; mais recentemente, já neste ano, a Livros do Brasil, com Soldados de Salamina. O que vale como garantia para uma futura (e rápida?) tradução portuguesa de El Monarca de Las Sombras, em que o escritor teima - e ainda bem - em cruzar a realidade, produto de uma investigação aprofundada, com um tempero de ficção, sempre tão verosímil e "documentada" que aparece como irmã siamesa da primeira.

Um bom exemplo? A reconstituição da morte de Manuel Mena, o tal familiar jovem, militar e morto, até à localização da sala e da casa, transformada em hospital improvisado, em que terá falecido. Condenável para alguns, esta fusão de verdade e fantasia (sempre tangente à lógica) mantém-se como um dos trunfos de Cercas.

O "resto", e não é pouco, passa pela enormidade da estupidez que é a guerra, mais patética e desgraçada ainda por se travar entre vizinhos, entre próximos, dentro das famílias. "Sem moralizar", Cercas vai-se fazendo porta-voz das enormidades cometidas por ambas as fações (sem esconder que, à partida, está muito mais próximo de uma do que da outra), vai sendo o arauto das insanidades e das desumanidades que um conflito deste género acumula ao longo do seu curso, vai entremeando histórias - como a da moça casadoira de Ibahernando que é assassinada pela Falange, só porque o seu noivo, ausente, é um dirigente republicano - sem se desviar do seu objetivo inicial e final: trazer o tio-avô para um domínio que o afaste da legião dos grandes mitos.

É nesse quadro, aliás, que descobre que uma das razões para a teimosia de Manuel Mena em permanecer incorporado e ativo passa pela preservação do irmão que, caso contrário, seria chamado a substituí-lo nas fileiras militares.

El Monarca de Las Sombras é especialmente recomendado aos que, de forma cética e taxativa, descreem da existência de um terreno mágico, único, especial, que fica situado na fronteira entre a verdade e a ficção: sem espalhafato mas sem leviandade, cada uma delas ganha nova dimensão se não se apartar da outra. E, a ser certa a ideia de que a concretização de um livro vale ao escritor como uma sessão de tiro ao alvo, aqui o resultado fica bem à vista de todos: foi na mouche.

El Monarca de Las Sombras

Javier Cercas

Ed. Literatura Random House

288 páginas

PVP: 19,86 euros

(www.amazon.es)

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