O livro que Italo Calvino não quis revelar

"Um Otimista na América" é o título de um conjunto de relatos inédito em Portugal do escritor Italo Calvino. O livro sai dia 8 mas pode ler agora uma pré-publicação

'América à primeira vista' é o título do primeiro de dezenas de textos deste volume póstumo do escritor Italo Calvino, e inédito em Portugal, sobre aquele país, um relato que se chama Um Otimista na América. Seguem-se muitos outros: Where are you from?, sobre imigrantes; O Actor"s Studio, sobre arte; Wall Street eletrónica, sobre a bolsa; A televisão e as ideias, sobre o que mudava o mundo; Macarthismo cansado, sobre a repressão ideológica... Ou seja, estamos perante um caleidoscópio de influências civilizacionais que perturbaram um viajante europeu perante o mundo do futuro no presente que já se vivia nos Estados Unidos em 1959 e 1960.

Existem subtemas que surpreendiam o olhar do homo europeus, como o da mulher americana. Uma fixação! Ou não tivesse inúmeros capítulos a ela dedicado: O caderninho das raparigas, As mulheres: as felizes e as inadaptadas, As mulheres casadas, O colégio de raparigas, As raparigas sozinhas de Nova Iorque, As filhas do divorciado...

Tudo o que surge neste volume ocorre entre novembro e maio daqueles dois anos, altura em que acontece a primeira visita de Italo Calvino aos EUA. No prefácio justificador da edição declara-se tal deslocação como "iniciática", que tem como cenário fundamental a cidade de Nova Iorque. Uma localidade tão diferente de tudo o que conhecera, que o deslumbra ao ponto de a definir como "uma planta carnívora que absorve uma mosca".

Não se fica, no entanto pela cidade, sabe-se pelo relato, e pela apresentação, que também conheceu Cleveland, Detroit, Chicago, São Francisco, Los Angeles, Nova Orleães, Savannah e Houston. Cidades nas quais conhece bastantes personalidades que contribuíram para lhe proporcionar o retrato de uma América multifacetada, fosse em encontros com escritores, editores e agentes literários, fosse com empresários, sindicalistas e ativistas pelos direitos civis - Martin Luther King - e muita "gente comum". Enquanto percorria o país, o escritor fez muitos os apontamentos no seu diário e em correspondência.

Curiosamente, Calvino fez uma promessa antes de iniciar a viagem: a de não publicar livro algum sobre esta peregrinação norte-americana. Face ao com que se confrontou, rapidamente mudou de ideias e ponderou escrever uma espécie de Viagens de Gulliver, pois, como disse, "aventuras, e sobretudo desventuras, não me faltaram". Outra justificação foi acrescentada, lê-se: "Afinal mudei de ideias, porque os livros de viagens são uma maneira útil, modesta e, no entanto, completa de fazer literatura. São livros que servem na prática, porque os países mudam de ano para ano, e fixando-os tal como foram vistos regista-se a sua mutável essência; e neles pode-se exprimir algo que está para além da descrição dos lugares vistos, uma lição entre si e a realidade, um processo de conhecimento."

Italo Calvino optou então por não publicar este relato. Considerava-o demasiado "modesto como obra literária e não suficientemente original como reportagem jornalística". Opinião não respeitada posteriormente e que, face ao que contém esta obra, talvez fosse a melhor decisão por parte do editor.

Pré-publicação

América à primeira vista

Arrependi-me de não ter apanhado o avião. Chegaria a Nova Iorque impelido pelo ritmo dos grandes negócios, da política no vértice, das personagens sorridentes das telefotos: a correta via de aproximação aos Estados Unidos de hoje. Mas deixara-me persuadir a vir de paquete - «Não queres? É tão bonito!» -, o mais moderno transatlântico americano com partida do Havre. E assim chegava afinal já carregando a sombra de outra América: uma América de tédio provinciano, de velhos pares de cônjuges aborrecidos, de um bem-estar sem impulsos, de pobreza de recursos vitais interiores.

O navio é um meio de transporte anacrónico, tal como as estações termais, povoado de velhos que passam os serões a jogar no bingo, uma espécie de tômbola, ou a apostar em corridas de cavalos filmadas.

No meio de uma pálida bruma, todo encapotado, estiquei o pescoço para fora da gola levantada na manhã do quinto dia ao raiar da aurora, no convés superior, para distinguir Nova Iorque. E eis que no horizonte que vai aclarando, por entre as luzes de uma costa esparsa, como que uma montanha a ganhar forma. E de repente ficou tudo certo, só assim é que se podia chegar. A viagem, o diferente, só tem sentido se se pagar a chegada, e nós, privilegiados e nervosos, ainda mal a pagamos, e já com uma certa impaciência.

Emergindo do céu que acaba de clarear, os arranha-céus são as ruínas de uma monstruosa Nova Iorque abandonada daqui a três mil anos. Não: é uma massa porosa e quase diáfana filtrando a luz. Parecem luzes esquecidas (na fuga, pelos últimos habitantes?) e de facto agora, aqui e ali, e depois como que todas juntas, se apagam: é dia.

As cores afloram lentamente sobre as formas maciças e plúmbeas e são cores completamente diferentes daquelas que a nossa memória fotográfica previa, e perdem-se num desenho de volumes e de formas cada vez mais complicado, minucioso, labiríntico. Tudo fica silencioso e deserto; de repente: os carros! Lá ao fundo corriam corriam sabe-se lá há quanto tempo, como uma torrente de formigas luminosas e nós não tínhamos dado por isso.

Tótemes e pisca-piscas

O rio dos automóveis percorre as estradas e os olhos dos europeus são sugestionados nos primeiros dias pelo facto de estes carros serem todos compridos, compridíssimos, às vezes absurdamente compridos e largos.

Mas ao fim de alguns dias esta intimidação das dimensões passa, tudo se torna natural, levado à escala geral das grandezas americanas. E então os olhos do europeu - enquanto avançam pelo meio da corrente do trânsito - começam a ser atraídos pela variedade das formas que apresentam as traseiras dos automóveis.

Observo as variadas formas dos farolins posteriores: cada um solicita referências e sugestões, desde os mais óbvios (os enormes projetores redondos que fazem lembrar as perseguições entre gangsters e polícias tal como as aprendemos no cinema) até aos mais secretos; não há tipo de farolim para o qual não se possa fazer todo um estudo de interpretação simbólica, no âmbito da mitologia americana: farolins em espinha - homenagem às origens, ao mundo dos baleeiros de Moby Dick -, ou em flecha - homenagem aos índios do Far West -, ou em pináculo de arranha-céus - homenagem à prosperidade da era americana -, ou então em míssil, em foguetão - homenagem votiva à conquista do espaço e ao incerto futuro.

Naturalmente, dado que estamos no país da psicanálise, muitos pisca-piscas requerem ser interpretados deste modo simbólico: os símbolos masculinos são os mais numerosos, mas também abundam os das mulheres, a sancionar a pacífica aceitação do matriarcado. Eis a traseira baixa e larga de certos automóveis que se arqueia no bordo superior como uma fina e falcata linha de sobrancelha e, por baixo, os faróis são dois enormes oblongos dardejantes hollywoodescos olhos de estrela de cinema.

Enquanto procuro lugar num parque de estacionamento apinhado - com a dificuldade que um ex-condutor de carros utilitários italianos tem em se adestrar com um automóvel americano demasiado comprido - o meu olhar é capturado como num museu de tótemes, confundido no meio de tantas sugestões e de costumes e de alegorias existenciais, e já quase acredito que os automóveis só servem como tabernáculo daqueles objetos mágicos, aliás é apenas nisso que consistem, que são feitos totalmente de cristal: e assim numa operação de marcha-atrás demasiado consciente e atenta - dividido entre o tremor religioso e o instinto iconoclasta - calculo mal a embraiagem e, num fragor de vidros quebrados, acabo por «chumbar».

A cidade dos choques elétricos

Primeiras definições de Nova Iorque: é uma cidade elétrica, impregnada de eletricidade, onde há carregadores de corrente a cada passo, onde se apanham choques elétricos em toda a parte em que se pousar a mão. Ao sair de um automóvel, ao pegar no puxador para fechar a janela, damos um estremeção: um choque elétrico. Em casa não podes tocar o manípulo da porta, uma varanda, uma torneira ou um interruptor sem que o braço dê um esticão para trás percorrido por uma descarga. Basta uma corrida de táxi, basta passar do frio das ruas para o calor excessivo das casas, basta atravessar uma sala arrastando as pantufas sobre o tapete, e fica-se carregado como um acumulador.

Os meus reflexos condicionados estão alerta, a minha mão hesita antes de aflorar os objetos mais inocentes. Temo e espero o choque, se não vier fico dececionado, agora faz-me falta, desejo-o. Às vezes até um aperto de mão ou uma carícia soltam centelhas. Uma carga elétrica passa das coisas ao ritmo dos dias, dos sentimentos, das relações. É energia a sério, ou é um extremo empobrecimento de tensão em nós que nos torna mais sensíveis à energia que emana das coisas? Acabada a época heroica das grandes aventuras individuais e coletivas, a consciência americana hoje em dia definha por falta de tensão, de objetivo, com vista a um bem-estar que - alcançado ou a alcançar - se configura como um ramerrame privado de impulso. Mas a tensão também se solta das coisas, do processo económico, da febre produtiva que vive para além das vontades humanas. O mundo das coisas está desperto, insone, anima-o uma espécie de racionalidade implícita, enquanto o mundo dos homens por vezes se parece com uma sonolenta gestão de autómatos.

Procuro o segredo desta discrepância, o ponto em que a energia humana deveria inserir-se na das coisas, e não o acho, e esfrego as pontas dos dedos picados pelas poeiras elétricas de Manhattan.

O caderninho das raparigas

Que a América já não é o país da aventura, sabia-o eu; mas que os dias nova-iorquinos pareçam querer a este ponto afastar toda a possibilidade de imprevisto, não o esperava. As semanas são sempre programadas de avanço, a vida é governada pelas Schedule, pelo programa, pela agenda; vinte dias antes já têm de estar marcados os negócios do dia, e com quem se irá almoçar, e o cocktail-party para que foste convidado, e quem se convida para jantar, e as receções vespertinas a que se irá tomar um scotch. Se depois quiseres ir ao teatro na Broadway, tens de marcar lugar três ou quatro ou cinco meses antes.

Em Nova Iorque as raparigas também trabalham todo o dia, e todas as noites saem com um cavalheiro. Se quiseres convidá-las uma noite, tens de fazê-lo pelo menos com umas semanas de avanço; ela consulta o seu caderninho, tu consultas o teu, combinam uma data, escreve-se o nome.

«Assim, ao princípio acontecia-me sair com uma rapariga diferente todas as noites - diz Giovanni B., que, como italiano que é, gosta muito de mulheres. - Uma noite, houve uma que me interessou mais do que as outras; estava ansioso por poder vê-la de novo, mas ela já tinha as suas noites todas ocupadas durante duas semanas, e eu também. Tivemos de retardar por quinze dias o nosso segundo encontro; pensei que morria na espera. Quando finalmente voltámos a ver-nos, já não foi tão bom; eu não podia tirar do pensamento outra rapariga com quem tinha saído entretanto, e que reencontraria daí a duas semanas; a ela aconteceu-lhe o mesmo, com outro cavalheiro. Assim, continuei durante meses atrás de raparigas das quais me separava uma longa lista de encontros programados semanas antes, enamorando-me de cada uma e esquecendo-me dela antes que chegasse a segunda vez. Estava desesperado.»

«E depois?»

«O encanto quebrou-se com Muriel: começámos a sair steadily, ou seja, todas as noites, par fixo.»

«Então, estás feliz?»

«Qual quê? Agora estou amarrado de pés e mãos. Todas as noites com ela. Diz-me lá: é vida, isto?»

América não americanizada?

A primeira impressão do viajante em Nova Iorque é que de modo nenhum a América está americanizada, que estamos mais americanizados nós do que eles. Começa a escandalizar-te o facto de não se conseguir conhecer um nova-iorquino que tenha automóvel (porque não se saberia onde estacioná-lo e portanto todos preferem andar de táxi). Nos escritórios (empresas privadas e serviços públicos) ao europeu que espera deparar-se com a rigorosa eficiência do organization man parece apenas que vê uma voluntariosa aproximação, uma boa vontade familiar. E pensas que a juventude não se veste à maneira americana como entre nós, nem sabe o que são aqueles jogos de bilhar elétricos a que nós chamamos flippers. (Aqui chamam-se pinball machines, mas para os descobrir é preciso ir a um determinado local na Times Square.) E por falar nisso, não é rara a impressão de que este deve ser o único cantinho do universo onde a Coca-Cola não conquistou simpatias.

Ao mesmo tempo reparei que é precisamente tudo o que vês que é a América. Mais América do que a América que agora também já existe entre nós. A americanização que temos entre nós não é senão a imagem do contraste entre um nível tecnológico-produtivo-distributivo mais avançado, a que uma parte da humanidade já chegou, e um nível tradicional imóvel, do qual outra parte da humanidade se depara com cada vez maiores dificuldades em sair. Aqui velho e novo são afinal ramos da mesma planta: o organismo acumula e transforma as suas contradições num processo de crescimento contínuo e quase animal."

Um Otimista na América

Italo Calvino

Editora D. Quixote

207 páginas

PVP: 15,90

À venda dia 8/11

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