O livro que foi aos Açores e veio ao continente para contar presente e passado

A temática da maior parte dos romances escritos pela nova geração de autores portugueses foge como o diabo da cruz daquilo que verdadeiramente nos diz respeito.

É mais fácil a estes autores usar o cenário de Praga, o semblante literário de Robert Musil, o registo aventureiro de Paul Theroux, o suspense de Stieg Larsson, a típica lamúria nacional, ou seja, ignorar o manancial de histórias que a nossa atualidade, geografia ou história oferece de bandeja. Por isso, quando se lê Céu Nublado com Boas Abertas, a surpresa é grande e positiva.

O romance de Nuno Costa Santos foi publicado recentemente e merece uma leitura para além da observação da capa, das badanas ou de uma frágil consulta em diagonal na livraria. Porque o Céu Nublado é uma viagem literária demasiado interessante - e inesperada - para passar despercebida ao leitor.

Logo nas páginas das epígrafes há uma de Enrique Vila-Matas que retrata de forma perfeita este romance: "Talvez a literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa." É o que Nuno Costa Santos decide fazer com a sua própria memória e a familiar, saindo daí um romance português que foge ao habitual seguir modelos estrangeiros, sem apelo de originalidade ao leitor a que em primeiro lugar se dirige. Até que em fim.

Não se espere um Mau Tempo no Canal, como escreveu Vitorino Nemésio sobre as ilhas açorianas e a sua vida. Não é o propósito, mesmo que o retrato de Nuno Costa Santos sobre os Açores da segunda década deste milénio e a sua gente da década de 40 do século passado seja tão curioso como exemplar.

Há um protagonista inspirado na própria existência dual do autor e um outro, um familiar, que escreveu um relato sobre a sua estada de anos no Sanatório do Caramulo. A combinação da ficção e da realidade torna-se o grande fator de interesse deste romance. Que é bem mantido até quase ao final, momento em que se sente a falta de mais elementos da diarística do avô, porque o autor a isso nos foi acostumando na maior parte da escrita.

O narrador apropria-se dos diários escritos pelo segundo protagonista e conjuga-o com uma visita que o primeiro faz aos Açores. Situações que têm suporte na realidade, visto que os diários foram escritos pelo avô do autor, João Pereira da Costa, e o autor efetuou uma viagem de reconhecimento emocional à terra já adulto.

Um livro que não acontece por acaso mas devido a um pedido que está num dos vários volumes do diário do avô: "Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da ilha." É isso que vai acontecer ao longo do livro, sendo certo que há uma tentativa constante de ficcionar a atualidade e ser frontal no passado.

Pode dizer-se que o pingue-pongue das narrativas transforma-se numa espécie de contraditório entre os portugueses de lá e os de cá, num diálogo que recupera o passado e num claro confronto com o presente. Pode dizer-se isto pois a parte do avô é explicada logo ao início e só aí começa o trabalho de conjugar as duas visões.

Sendo a do familiar suportada pelos registos do que viveu enquanto esteve internado nos sanatórios, bem como na sensação de emigrante constante, de relativa marginalização devido à "famosa" tuberculose - que o choca quando é referida como "tísica" - e com um imaginário do que era viver nos anos 1940. Existe até uma breve passagem de Salazar pelo Caramulo, bem como o historiar da conjuntura mundial desta doença ao nível da medicina.

O relato atual é uma ficção que opta por tratar a questão muito viva nos Açores, a do repatriamento de açorianos dos Estados Unidos devido a sentenças judiciais. A caracterização destes personagens tem como pano de fundo a droga, desenhando o problema junto dos mais jovens e de como isso altera a vida nos tempos que correm. Tal como a prostituição, o convívio entre o "português" e os locais e a vida atual naquelas ilhas. A única concorrência à ficção é a audição constante de uma playlist de várias bandas, num enquadramento em (des)harmonização da sociedade.

Não há como fugir ao veredicto, esta resposta ao repto do avô para retratar os Açores atuais está conseguida e lê-se com um prazer insular.

Céu Nublado com Boas Abertas, Nuno Costa Santos, Editora Quetzal, 255 páginas, PVP: 16,60 euros

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