"O ideal será ter uma temporada com 10 ou 11 óperas" no São Carlos

O recém-nomeado diretor artístico do São Carlos, já tem ideias claras sobre o que fazer na casa da ópera: coproduções com teatros internacionais, levar os espetáculos ao país. E apostar nos talentos nacionais

Após um ano como consultor artístico, Patrick Dickie foi a escolha da tutela para a direção artística do São Carlos, tornada oficial há um mês, no Parlamento. Concluiu-se assim o concurso internacional aberto no verão passado. Com experiência anterior no Almeida Theatre e na English National Opera, ambos em Londres, Patrick Dickie reconhece no cargo a sua "primeira experiência como responsável de um teatro de ópera". Enquanto programador, considera-se obrigado a ter uma "noção global da saúde artística da casa" e de como a pode melhorar, avaliar o seu potencial e conhecer bem os públicos.

Uma das estratégias centrais que Dickie individualiza é a das coproduções com teatros internacionais: "As coproduções são uma forma muito natural de partilhar, logo reduzir, custos. Mas elas são essenciais também por razões artísticas, pois asseguram que determinada produção é vista em vários palcos e em simultâneo dá exposição internacional aos teatros envolvidos."

Outra é projetar o teatro para fora cá dentro: "Enquanto companhia performativa, o São Carlos deverá ser reconhecido Portugal fora e deverá atuar Portugal fora." Vai mesmo mais longe, dizendo que "a itinerância, ir em digressão será marca essencial deste teatro e será das primeiras coisas sobre as quais refletirei para discernir o que isso significa ao certo e em que escala poderá ser efetivado".

Na sua opinião, "o ideal seria uma temporada de dez ou 11 títulos, dos quais seis a sete no São Carlos, um ou dois no Centro Cultural de Belém e os restantes noutros espaços e na itinerância".

Promover o talento nacional

Para Patrick, há uma diáspora de jovens cantores portugueses - "já identificámos uns 15 ou 16" - que foram para o estrangeiro fazer carreira, "também porque o São Carlos nada tinha para lhes oferecer, e com os quais o teatro ainda não desenvolveu qualquer relação". Situação que urge obviar: "É algo que me deixa muito insatisfeito. Começar a trazer esses talentos cá é uma das coisas principais que o teatro irá fazer - e já está a fazer", mencionando o recente exemplo de Carlos Cardoso no Nabucco.

Identifica depois outros dois planos: "Há um trabalho educacional/pedagógico, com crianças e famílias, que deve ser feito, e que passa também por envolver musicalmente crianças e adolescentes e por produzir óperas comunitárias." Um trabalho "em espiral, que deve aproximar e familiarizar as pessoas com esta forma de arte, sem forçosamente esperar que elas se tornem público das óperas". E, em paralelo, "um trabalho de promoção de talentos emergentes, algo que o maestro João Paulo Santos vem fazendo informalmente de forma notável e que, também por isso, não faço depender da criação oficial de uma Academia". Em sua opinião, óperas de câmara itinerantes seriam o "território ideal para desenvolver jovens talentosos". Ideal será "conseguir em cada ópera que coexistam cantores internacionais e cantores portugueses" nos papéis principais. "A descoberta e promoção de talento emergente tem sido uma constante no meu percurso. E não só cantores, também outras especialidades artísticas."

Cativar mecenas

O contrato de Patrick Dickie é de três anos (começando em setembro), duração que lhe merece reservas: "É relativamente curta para um teatro de ópera. É na verdade o mínimo para conseguir deixar uma marca reconhecível", observa. Sobre a natureza dessa marca, questiona-se: "Conseguirei eu alterar profundamente o modo de funcionamento desta casa em três anos?..." A resposta, observa, "reclama modéstia", e explica: "Estou bem ciente da história do São João e de que nada se faz da noite para o dia..." Ainda assim avança: "Do que o teatro precisa agora é de ímpeto, de movimento para diante", mas sem revoluções: "Estamos apenas no início de uma viagem. Muito pode ser alcançado no quadro da atual estrutura do Teatro São Carlos e vamos trabalhar com muita criatividade."

Patrick já sabe que só terá orçamentos ano a ano para se "mexer" num sistema que funciona a dois, três e até quatro anos de avanço: "Podes identificar isso como um problema, mas neste momento ainda não sei ao certo como tal me limitará e me impedirá de fazer." Prefere alterar a perspetiva: "Tens sempre de pensar a partir de um plano de trabalho a três anos, porque essa é a antecedência standard nas decisões sobre elencos, equipas criativas e coproduções. E eu quero conseguir operar desta forma."

Uma das estratégias passará por "identificar projetos-chave ano a ano". Confia ainda na atratividade dos conteúdos planeados como meio de sensibilizar os decisores políticos. "Mas o ponto crítico - acrescenta - é a necessidade de mais fontes de financiamento, para não dependeres tanto de uma única [o Estado]." Para tal, diz-se "disposto a acompanhar a direção do Opart em reuniões com possíveis mecenas privados". Diante destes, mas também "do público e da comunidade envolvente, coloca-nos sempre numa posição mais forte se nos dirigirmos a eles com um plano, uma estratégia definida e dotada de conteúdos coerentes, isto é, se tivermos uma ideia muito clara do que queremos fazer e construir".

Com um muito britânico realismo, considera: "Haverá sempre projetos impossíveis e outros que terás de adiar. Tudo isso é normal. O que não é normal é não haver um diretor artístico. Quanto a mim, pretendo trabalhar muito criativamente com os recursos que tiver à disposição."

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