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O olhar sobre a cerimónia da crítica do DN Inês Lourenço

Morgan Freeman teve dificuldade em controlar o espanto ao anunciar O Caso Spotlight como vencedor da 88ª edição dos Óscares...

A surpresa é das melhores sensações numa noite em que quase tudo parece garantido pelas probabilidades. Sobretudo quando essa surpresa tem o efeito preciso de contrariar a repetição e valorizar objetos para lá da espetacularidade.

Spotlight é o auge desse maravilhoso imprevisto, em que se vê uma produção cinematográfica íntegra - sobre o trabalho de campo de jornalistas do The Boston Globe, atrás de casos de pedofilia na Igreja Católica - brilhar sob as mangas arregaçadas de cinco atores envolvidos na investigação até à ponta dos cabelos.

Para o realizador Tom McCarthy, era isso que interessava: mostrar como se trabalha no jornalismo de excelência.

Uma sensatez que se estendeu aos "escritos nas estrelas" Ennio Morricone e Leonardo DiCaprio, com aplausos que se converteram numa sala cheia de orgulho

E se a cerimónia terminou assim, a verdade é que também foi gratificante, ao início, ver Alicia Vikander ser reconhecida num ano em que, literalmente, deu o litro, e se entregou ao retrato comovente da pintora que não abandonou o marido transexual (Eddie Redmayne), na dolorosa descoberta da sua identidade, em A Rapariga Dinamarquesa. Já o britânico Mark Rylance, igualmente premiado na categoria de ator secundário, pelo filme A Ponte dos Espiões, não poderia combinar melhor com a sobriedade que a Academia parece ter tido vontade de semear aqui e ali, na via do inesperado.

Uma sensatez que se estendeu aos "escritos nas estrelas" Ennio Morricone e Leonardo DiCaprio, com aplausos que se converteram numa sala cheia de orgulho e rabos levantados das cadeiras. Nestes casos, era à luz da confirmação que a surpresa cintilava, porque o merecimento tem muita força.

O mesmo não digo de Alejandro G. Iñarritu, melhor realizador pelo segundo ano consecutivo. Mas não nos preocupemos. Como diria Rylance em A Ponte dos Espiões, "Would it help?"

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