O festival em que racismo, globalização ou Palestina são temas

Ao fim de nove dias e 56 concertos termina hoje o Festival Músicas do Mundo. Como sempre, haverá fogo-de-artifício e festa, muita. Mas aqui os temas sérios coexistem, sejam puxados pelos artistas sejam pelo público

"Odeio interromper, mas precisava falar de uma parada muito importante que acabou de acontecer comigo aqui." Emicida mandou a banda parar e o público, até então em parte distraído - a praga dos grupinhos que mesmo a poucos metros do palco tentam fazer mais barulho do que aquele projetado pelas colunas de som chegou também aqui -, estacou e fez-se silêncio no castelo de Sines, na quinta-feira à noite. "Estou feliz. Nasci num barraco de madeira em São Paulo e estou fazendo tournée na Europa. Atravessei o Atlântico!", exclama o músico, como se não acreditasse. E prossegue, apontando para os colegas: "Cada um desses moleques tem uma história foda de sofrimento e para nós é realmente mágico estar aqui nesta noite." Mas há sempre um mas: "Uma atitude estraga a magia da noite." Ao que explica de seguida, o rapper decidiu entrar por uma das portas do castelo e não pela entrada do backstage, e a coisa não correu bem. "Entendo que haja processo de revista, respeito o trabalho dele. Mas a partir do momento em que me para, que acha que estou armado, temos um problema sério. Em geral as pessoas brancas dizem que enchemos o saco com o bagulho do racismo, que isso já foi. Mas, se para vocês que têm pele clara é desagradável falar do assunto, imagina quem passa por isto todos os dias, não há dia que não me confundam com criminoso."

E com o público rendido a um discurso fluido e emocionante, cantou de seguida A Chapa É Quente!, um dos temas com que participa no projeto Língua Franca, ao lado de Rael e dos portugueses Capicua e Valete. A partir daí, já com os espectadores no bolso - que repetiram as coreografias vindas do palco com o "momento Usain Bolt", o gesto característico do velocista jamaicano -, foi possível ouvir um hip-hop com texturas ricas (do cavaquinho às cabaças) a acompanhar as letras acutilantes. Emicida saiu a dançar e quem se seguiu, A-Wa, também dançou e fez dançar. Mas com um momento gago pelo meio.

As irmãs Tair, Liron e Tagel são judias árabes e vêm de Israel. O suficiente para que, ainda o concerto estava a descolar, se ouvir um pequeno grupo a gritar palavras de ordem pela Palestina, o que deixou as manas nervosas e como que indignadas pela manifestação. Silêncio, um "OK", mais silêncio, novo "OK", até que lá encarrilaram. "Não ouvimos vozes de ódio, estamos aqui pela música e para nos divertirmos" - e arrumaram a questão num plebiscito, ao pedirem ao público que ali estava pela música e pelo amor para levantar os braços. Descendentes de iemenitas, as irmãs (e o quarteto que as acompanha) misturam sonoridades típicas do Médio Oriente, o folclore do Iémen e a música de dança, numa proposta irrecusável para o corpo.

Nesse dia, dois outros concertos de resgate musical cruzado com a contemporaneidade. Primeiro com o mongol Tulegur, dotado de uma voz invulgar, que ora vai buscar o canto tradicional da sua região, ora introduz elementos da Pequim em que vive, ora desliza para o rock através da guitarra elétrica (e percussões) do companheiro de estrada Zongcan, numa prestação que cativou quem o viu. Depois foi a vez de Mercedes Peón trazer o folclore da Galiza. Gaiteira, compositora, cantautora orgulhosa: "Amamos a nossa língua, a nossa cultura, o nosso jeito de estar", diz, em contraponto à "mágoa" que lhe causa a globalização. Exemplifica com a história de uma galega que teve de emigrar e que quando voltou à terra já não sabia outra coisa que não o inglês. E a que soa? Ladeada de outras duas instrumentistas e vocalistas, Mercedes conjuga as pandeiretas, a gaita-de-foles e as polifonias com a música eletrónica. Aqui e ali faz lembrar o grupo sueco Hedningarna, mas as raízes estão aqui bem perto.

Se Mercedes Peón lastima a globalização, Aurelio insurge-se contra as organizações que se acham mais importantes do que os povos. "Unamo-nos contra quem abusa do poder", diz o cantor e guitarrista hondurenho, lídimo representante dos garifunas, povo mestiço descendente de africanos, caribenhos e indígenas arauaques e que ainda hoje é secundarizado nos países da América Central. As palavras de ordem são graves - "não queremos mais fronteiras entre países" -, no entanto a música é alegre e contagiante. Já a sexta-feira ia quase na quarta hora quando entrou em palco Romperayo: música tradicional colombiana atirada para uma liquidificadora ou cúmbia eletrónica com travo psicadélico. "Que rico, para bailar e gozar", avisaram. Mas não era necessário, a pista de dança estava em pleno.

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