O dia do epicentro de Erik Satie passa por Lisboa

Na data dos 150 anos do nascimento do compositor, o Conservatório (19.30) e a Cinemateca (21.30) organizam sessões comemorativas

O compositor francês Erik Satie, uma das personagens mais estranhas da música do século XX, nasceu faz hoje 150 anos. Em Portugal, a pianista Joana Gama tem vindo a assinalar a efeméride com uma digressão que vem percorrendo o país, adequadamente intitulada SATIE.150.
Na data exata, foi também Joana quem promoveu duas iniciativas que hoje se realizam em Lisboa (ver abaixo). Esta "escala" na capital no meio da digressão permite um balanço provisório: "Tem corrido muito bem, sempre com bastante público e tenho podido fazer sempre palestras em escolas, onde falo aos miúdos desta personagem caricata e insólita que foi Satie e mostro pequenos vídeos que mostram a relação dele com outras artes".
É aliás nessa relação que Joana vê muita da "relevância e interesse dele", além de que, para si enquanto pianista, "isso enriquece a nossa interpretação das suas obras, porque ajuda a contextualizar".
Enquanto performer da obra de Satie, são três os aspectos que prefere destacar: "a obra Vexations, o despojamento e o humor". Da primeira, diz tratar-se de "uma obra de grande especificidade e que é no fundo uma experiência temporal, pois ele indica que a peça, cuja execução dura uns 2 minutos, deve ser repetida 840 vezes, o que levaria 28 horas!" Fala, a propósito, de "uma peça estática, semelhante a um mantra, ligada à sua crença rosacrucense", portanto, com uma componente místico-esotérica. "Ele foi dos Rosa-Cruz, mas depois fundou a sua própria igreja, de que era o único membro, e escreveu inclusivé a bula fundadora da mesma".

O mudo Entr'Acte, celebração Dadá de René Clair, com música e participação de Satie:


Nos anos 60, John Cage promoveu em Nova Iorque a maratona necessária para as tais 840 vezes. "Este ano, vou fazer em Serralves 20 repetições - declara, por seu turno, Joana - e, depois, em Viseu, no Festival Jardins Efémeros, vou tocá-la várias horas seguidas. Será uma experiência exigente, mas interessante!"
Sobre o despojamento, fala de uma "aparente simplicidade, a julgar pela escrita pianística, mas ainda assim exuberante em termos harmónicos e de sonoridades". Finalmente, o humor, talvez o côté mais conhecido de Satie: "tal como ele próprio, também a sua música é sempre desconcertante: nos títulos que dava às peças e nas indicações que escrevia. E depois, há o uso musical das técnicas de colagem e de fragmentos separados por cortes abruptos, como se vindas das artes plásticas ou do cinema". Nisso, como em quase tudo o que dizia, na vida que levava e na forma como se comportava, Satie era um excêntrico, alguém para quem "o estranho era a norma".
Porém, Joana gosta de salientar que "ele era amigo e admirado por muitos dos grandes artistas do tempo, como Stravinsky, Picasso, Duchamp, Man Ray, Picabia ou Brancusi", referindo, do romeno, que "ele fez um estudo escultórico para a campa do Satie e existem fotos de Satie tiradas por Brancusi no seu próprio estúdio".
O lado místico de Satie - novo contraste - "convivia - diz Joana - com o seu lado boémio de assíduo frequentador de cabarés, como Le Chat Noir, e as canções dele remetem muito para esses ambientes, o que faz com que sejam totalmente diferentes da sua música para piano".
Entretanto, a digressão SATIE.150 viu-se alargada: "vou tocar na Guarda e também fora de Portugal: em setembro, em Amesterdão e, em dezembro, em Paris, na Casa de Portugal."
Ainda não sabe se algo ficará, documentando este ano-Satie na sua carreira: "estou a pensar gravar em CD o alinhamento dos programas que venho tocando". Mas se a sequência passasse por gravar toda a obra dele, então não hesita: "Claro que aceitava, é uma obra maravilhosa! E nem é assim tão vasta."

Por fim, sobre as homenagens de hoje, a escolha dos Embryons desséchés prende-se por "ser uma obra que se presta muito à ilustração, pois os três andamentos têm todos nomes de seres marinhos e ele próprio descreve esses animais". Já Badlands, expkica, "foi uma escolha minha e do José Manuel Costa [diretor da Cinemateca]. É um lindíssimo filme e nós queríamos algo que fugisse à Gymnopédie - apesar do próprio Satie se ter amiúde apresentado como le gymnopédiste! Badlands usa uma Gnossienne e fá-lo num momento-chave do filme: sobre um crepúsculo maravilhoso, a peça, naquele momento, faz toda a diferença!"

Agenda:
Escola de Música do Conservatório Nacional, Salão Nobre, 19h30
Sessão comemorativa, com:
lançamento do livro 'Embryons desséchés',a partir da obra homónima de Satie
apresentação da partitura da peça 'Embryons desséchés'
leitura de textos de Satie por Nuno Moura
pequeno recital de peças de Satie por Joana Gama

Cinemateca Portuguesa, Sala Félix Ribeiro, 21h30
projeção dos filmes 'Entr'Acte' (1924), de René Clair, com banda sonora e participação especial de Erik Satie, e 'Badlands' (1973), de Terence Malick, com música de Satie na banda sonora

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