O comboio de Duke Ellington partiu de Angra às 22.05

A The Far East Suite, de Duke Ellington, abriu esta quinta-feira o AngraJazz. A versão integral da peça foi tocada pela primeira vez em Portugal numa noite que fechou com o poderoso contrabaixo de Christian McBride

Eram precisamente 22.05 quando o maestro Pedro Moreira deu ordem de marcha. Arrancava o primeiro andamento da The Far East Suite, de Duke Ellington, Tourist Point of View. Abriu assim a 18ª edição AngraJazz, que decorre em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Açores, até sábado.

Tendo como convidados Ricardo Toscano em saxofone alto e clarinete e Paulo Gaspar em clarinetes soprano e baixo, a formação da casa seguiu noite fora com os nove andamentos, que o maestro ia anunciando à plateia do Centro Cultural de Angra, já bem composta no primeiro dia.

A orquestra AngraJazz seguiu feliz com Ellington até ao Médio Oriente. Em Isfahan, o saxofone de Ricardo Toscano levantou-se, no primeiro momento alto do concerto, muito aplaudido.

O tema Depk - em que, explicou o maestro, Ellington faz música de um grupo de miúdos que viu a jogar à bola - é um desassossego. Mas no final, tudo parou - músicos, maestro, plateia - até que a última nota do piano de Antonella Barletta se esgotasse, em extraordinários segundos de suspensão.

Seguiram assim, orquestra e público, juntos até ao andamento mais longo, o derradeiro: Ad Lib on Nippon. A orquestra chegou à estação eram 23:02. À tabela. Os músicos não escondiam o entusiasmo e voltaram a chamar ao palco Sara Miguel, a cantora que, antes de partirem na suite de Ellington, cantou três temas a abrir: Just Squeeze Me, Day Dream e Caravan. Trazia M Train. E assim fecharam.

Após o intervalo subiu ao palco o Christian McBride Trio. O contrabaixista norte americano estava feliz, após uma tarde de passeio na ilha, a ver coisas bonitas e a apreciar a "boa comida". "Man, I could came here every year". Com ele tocaram Jerome Jennings, na bateria, e Christian Sands, ao piano. Bem disposto, McBride puxou pela plateia, não a deixando esmorecer. E apresentou uma versão de uma música "do álbum mais vendido de sempre". A resposta chegaria no final: a balada The Lady in My Life, do álbum Thriller de Michael Jackson. McBride agradeceu à "young lady" na primeira filma que ondulava a cabeça ao ritmo dos sons das cordas dele, das teclas de Sands e da loucura musical da bateria de Jennings: "gostamos quando faz isso".

Boa disposição e boa música do princípio ao fim. O aluno de Julliard e vencedor de cinco Grammy traduziu os pergaminhos na música que fez sair do imponente contrabaixo. O grito final de um espectador da audiência quando McBride acabou de tocar o tema da banda sonora de Car Wash (filme de 1977) diz tudo: "Perfect!".

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