O cinema também em forma de exposição

"Terra", na Solar, Galeria de Arte Cinemática, celebra o modelo específico do Curtas Vila do Conde

Cumprindo uma tradição há muito enraizada na sua programação, esta 25.ª edição do Curtas Vila do Conde volta a integrar as exposições na sua vasta agenda. Neste ano, o Auditório Municipal, onde o certame decorreu até 2008, apresenta uma retrospetiva fotográfica dedicada à passagem de realizadores portugueses pelo festival (até dia 29), enquanto a Solar, Galeria de Arte Cinemática, propõe uma coletiva intitulada, muito simplesmente, Terra (disponível até 17 de setembro).

No essencial, Terra celebra o modelo específico do festival, quer dizer, a curta-metragem, através de obras assinadas por Gabriel Abrantes e Ben Rivers, Pedro Neves Marques, Joana Pimenta e Lúcia Prancha.

Muito contrastadas, as propostas oscilam entre o documental e o surreal. Por um lado, é pena que algumas dessas obras não sejam apresentadas no espaço da sala escura, precisamente como trabalhos de cinema; por outro lado, compreende-se que a aposta envolva o dramatismo particular dos espaços da galeria, explorando o seu recato e escuridão, de modo a favorecer as sensações particulares de uma instalação.

Dois projetos de Lúcia Prancha (escultura e cartazes) e um outro de Priscilla Fernandes (narrativa sonora) adequam-se de modo mais direto às singularidades do espaço da galeria. Nesta perspetiva, a proposta mais feliz e envolvente, combinando dois ecrãs, será Efeito Orla, de Mariana Caló e Francisco Queimadela - e tanto mais quanto a sua abordagem dos locais habitados pelo lince-ibérico oscila entre o testemunho científico e a digressão fantasmática.

Dir-se-ia que o próprio acontecimento desafia o olhar do espectador. Em termos gerais, Terra leva-nos mesmo a supor que alguma sensibilidade cinematográfica deseja abandonar o espaço e os valores da clássica sala de projeção. Como e para quê? - eis a dúvida artística que se renova.

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