O anjo da morte afinal também pode dar vida

Se este for o último filme de Eastwood-actor,  é uma bela despedida.

Numa entrevista dada há alguns dias a uma agência noticiosa asiática, Clint Eastwood recordou os tempos politicamente incorrectos em que, nos EUA, se podiam contar piadas sobre minorias étnicas, e "em cada grupo de amigos havia um Sam, o Judeu, ou um Jose, o Mexicano".

Basta ouvir alguns dos diálogos de Gran Torino e algumas das tiradas de Walt Kowalski, a personagem de Eastwood, para sentir que Gran Torino parece ter sido feito nesses tempos, de tal forma o actor e realizador ignora as prudências e piedades do discurso racialmente correcto. Sobretudo na cena em que Kowalski safa uma jovem asiática das mãos de três negros ameaçadores, que o namorado branco daquela, em vez de enfrentar, tenta mimar.

Talvez tais ousadias tenham custado nomeações aos Óscares a Clint Eastwood. É que não se divisa qualquer outra razão para que Gran Torino não tenha aparecido nas listas de candidatos às estatuetas este ano.

Facto estranho, porque entre outras coisas, Gran Torino é também um filme sobre o aparecimento da tolerância numa personagem que logo à partida se define como hostilmente intolerante, mas que é capaz de reconhecer, nos membros da família de uma comunidade que lhe é alienígena, os valores e a ética que já não existem naquela a que pertence.

O Walt Kowalski misantropo, desencantado, rebarbativo e "cercado" por imigrantes asiáticos na casa do bairro em que é um dos últimos americanos brancos, é capaz de se transformar no protector de dois jovens de outra raça. E de ir ainda mais longe, muito mais longe do que isso.

Em Gran Torino, Clint Eastwood consegue ser familiar e surpreendente, aquilo a que nos habituou e inesperado, anjo da vingança e cordeiro sacrificial, "Dirty" Harry e o seu contrário. Se este for o seu último filme como actor, que grande despedida é. (E até sai a cantar sobre a ficha técnica final, ouçam-no bem).

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