O adorável saltimbanco do casal Costa-Kosa

Maya Kosa e Sérgio da Costa convertem o imaginário do excêntrico rural senhor Silva em matéria de observação humana

O senhor Silva. Quem é o senhor Silva, figura rural, um nómada dos confins do Portugal profundo? Será um místico, um bruxo? Ou é mais um pastor, um vagabundo? O senhor Silva é uma personagem do real, um "cromo" filmado com humanidade por Sérgio da Costa e Maya Kosa em Rio Corgo.

Não se trata de documentar a sua vida - isto não é docuficção, afinal é ficção-ficção. Os realizadores perdem-se de amores por este contador de histórias do Douro e dão-lhe o enredo (um enredo que graciosamente se desfaz por uma estrutura de aproveitamento do "momento"). Aqui há guião, há uma história com fantasmas e delírios perto da morte. Não é aquela coisa de se observar o Portugal castiço do interior. Vemos também a relação do senhor Silva, conhecido como Espanhol, com uma adolescente que conhece na sua última morada. Uma rapariga que compreende os seus distúrbios.

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Seja como for, é mais um desvio de um cinema português para o real. Depois das explorações recentes de João Vladimiro em Lacrau, João Pedro Plácido em Volta à Terra e André Príncipe em Campo de Flamingos sem Flamingos, agora algo mais arriscado. Algo mais próximo de uma estrutura mais narrativa. Porém, a força do filme está sobretudo na sua causa livre. Quanto mais vagabundo é, mais solto fica. Enquanto o senhor Silva caminha de forma rocambolesca para a morte, o filme avança para uma aventura íntima de experimentação.

Melhor de tudo, entretém com distinção e faz-nos ficar reféns de uma loucura muito lusitana deste homem. Na verdade, Maya Kosa e Sérgio da Costa propõem-se reencenar o real, mas fazem-no com uma souplesse notável. Não brutos ou sem ética, têm justeza e verdadeira compaixão pelo senhor Silva. Será quase um feito sociológico este de converter o imaginário do excêntrico rural em matéria de observação humana com manipulação de storytelling cinematográfico.

Rio Corgo, depois de vencer o DocLisboa, foi já apresentado na última Berlinale. Um tremendo cartão-de-visita para uma dupla que vai continuar a fazer estes jogos com o real. Este está ganho mesmo sem deslumbrar.

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