"Queremos gastar o dinheiro, não queremos guardá-lo"

Na véspera das Jornadas Europeias do Património, uma radiografia aos museus e monumentos portugueses pelo diretor-geral do Património Cultural, no ano em que foram feitas mais aquisições e meses após a demissão do diretor do Museu do Chiado.

Uma provocação: num país sem indústria, as jornadas dedicam-se ao património industrial?

Se não tem indústria, não sei, mas que tem vestígios, tem. É o tema europeu. Tanto dão as fundições como os moinhos, os caminhos-de-ferro, as fábricas, pequenas indústrias, até as vilas operárias que em Portugal têm tanta tradição.

Qual é a intenção?

É mais do que isso. Quais são as razões de ser das Jornadas Europeias do Património desde 1991? Sensibilizar os cidadãos para a riqueza e diversidade cultural, que contribui imenso para o mosaico de culturas, contra o racismo e xenofobia. Ser sobre o património industrial também tem outro aspeto: demonstrar a riqueza do património. São as mais diversas manifestações da nossa identidade comum e a industrialização marcou decididamente o nosso território e a nossa maneira de ser. Temos legados notáveis ao longo do país que é preciso preservar.

O plano estratégico para o Eixo Cultural de Belém foi conhecido na sexta-feira e tem um representante da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC). Como é que esta estrutura pode fazer a diferença?

Uma das nossas obrigações, DGPC, é sermos acessíveis ao máximo número de pessoas. O modelo de gestão só pode vingar com uma intervenção ativa de todas as entidades, sobretudo as mais importantes. Não pode ser uma estrutura piramidal. A DGPC não pode aparecer como um mero consultor, porque é muito mais do que isso. Com as eleições isto vai ficar tudo um bocadinho em suspenso. Mas o eixo Belém-Ajuda já existia muito antes de se falar dele. E não podemos esquecer que Belém também tem os pastéis de Belém, tem coisas muito díspares e maravilhosas de serem aproveitadas. Veja-se o Museu de Arqueologia, em que estamos a apostar e que é um dos que mais cresceu. E o novo Museu dos Coches está a afirmar-se e a ser um êxito de público.

Como está o projeto de museografia do Museu dos Coches?

Está terminado, a produção é que está atrasada, já não deverá estar concluída este ano, por duas grandes razões. Para já, a terrível burocracia do Estado. Atrasou porque houve uma reclamação do concurso, que atrasou dois meses. Depois porque estamos à espera de um documento do turismo. Esta burocracia do Estado é muito frustrante.

Vamos partir para um novo ciclo legislativo. Que impacto tem na DGPC?

Não vou poder falar do ano que vem em termos de plano de atividades porque acho que tem de ser apresentado à nova tutela, mas há coisas que posso dizer que são indiscutíveis. Estamos em obras na Ajuda, a obra nos Coches vai ficar terminada. Portanto, estamos a trabalhar normalmente, nada parou. Nas grandes linhas, a DGPC tem de continuar a cumprir a sua missão. Por exemplo, o Museu Grão Vasco vai fazer 100 anos [em 2016]. É para nós algo muito importante. Há este projeto nacional que é terminar o Palácio da Ajuda e preparar a exposição das joias da Coroa, que é uma mais-valia cultural, identitária, primeiro, e depois, económica e turística. Essas grandes linhas, creio, serão acolhidas pelo próximo governo.

Acalenta a esperança de que venha um ministro da Cultura?

Como diretor-geral não me altera nada ser ministro ou não ser ministro. Como cidadão, como gestor cultural, creio que deveríamos ter um ministro, seja qual for o governo. Acho que as razões por que não houve ministro já não são as próprias.

Quais os planos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNAC)?

Até ao final do ano vamos fazer a ligação entre o edifício do Governo Civil e do Museu do Chiado. Não é ainda a grande obra de ampliação do museu, que tem de ser feita. Estamos à espera do concurso para o novo diretor do Museu do Chiado para depois se preparar o grande programa do museu. [O concurso para o cargo de diretor] Está a seguir as vias normais. Já está escolhido um júri. Queríamos que fosse o mais rápido possível. Há um despacho que diz que a DGPC e a Direção-Geral das Artes têm de se entender sobre o futuro da coleção. E não só. Também as entidades que têm as peças. Serralves e a Câmara Municipal de Aveiro, que tem bastantes obras, e outras. Temos de refletir sobre o futuro daquelas obras e onde terão mais expressão.

Não teriam mais e melhor expressão no MNAC?

Como diretor-geral do Património, essa é a solução que defendo, mas não sei se será a coleção toda. Este despacho é muito importante porque propõe o diálogo e acho que era fundamental que tivesse sido feito mesmo com as peças no Chiado durante este período. Seria muito importante ter este diálogo, David Santos [ex-diretor do MNAC] pensou de outro modo. Podemos ter uma solução em que uma parte das peças fica no Museu do Chiado e outras não... Pode passar por aí, mas sem desagregar uma unidade que é a Coleção SEC. O debate é fundamental, não são questões de orgulho institucional ou pessoal que se devem sobrepor, é o entendimento sobre o que é o melhor para este resultado de algumas décadas de aquisições de obras de arte a artistas portugueses. Fiquei muito satisfeito com esse despacho.

Mas como é que à beira da inauguração, o diretor se demite e se percebe que o destino da Coleção SEC não era claro para todos?

Não posso responder a tudo. Há questões que me ultrapassam. Pode ter havido problemas de diálogo, mas eu considero, do ponto de vista pessoal e da experiência, ter sido o momento mais triste porque achei em parte desnecessário. O diálogo podia ser realizado ao longo do ano, era a estratégia que tinha definido com David Santos. As questões precipitaram-se. Acho que a causa

pública devia ter ficado em primeiro lugar. Estranhei essa decisão quando havia tantos projetos nas mãos do diretor do Chiado. Houve bastantes aquisições neste último ano. E esperamos que ainda venham a existir mais. Estamos a tentar traçar um plano de aquisições, graças a uma maior possibilidade financeira para o fazer. A bilhética introduzida no ano passado permitiu um maior fôlego financeiro.

Calculava que entre bilheteira, aluguer de espaço e mecenato, deveriam ultrapassar 50% da receita da DGPC em 2014. Conseguiram?

Foi cerca de 51%, com fundos estruturais, que não fazem parte do Orçamento do Estado. Este ano queremos ficar em 55, 60% de receitas próprias. No Museu Nacional de

Arte Antiga [MNAA], o terceiro piso vai ser dedicado à pintura portuguesa. Comprámos três obras

importantíssimas dos séculos XV, XVI e XVIII. Comprámos A Aparição de Cristo a Maria Madalena , de Francisco Venegas, comprámos o tríptico de Nossa Senhora com os Anjos , do século XV, comprámos no final do ano passado Narciso na Fonte, de Vieira Portuense. Vão estar permanentemente expostas, não são para as reservas. E há coisas pequenas. Soares dos

Reis comprou uma série de desenhos e uns copos com vistas do século XVIII. O ano passado tentou-se que uma parcela muito significativa de dinheiro fosse para a aquisição de obras de arte portuguesa do BPN para ir para o Museu do Chiado. Estamos à espera de luz verde. Temos o dinheiro.

Quanto dinheiro?

É uma verba considerável. Prefiro não dizer nada, porque há quem ache que o Estado gasta na Cultura e investe nas indústrias. Completava muito a coleção do Chiado. Olhe, um dossiê para o próximo governo. Queremos gastar o dinheiro, não queremos guardá-lo. As aquisições de obras de arte são uma maneira de os museus se enriquecerem, que é algo fundamental em qualquer Estado. Agora, não conseguimos ir a tudo. Não conseguimos O Almoço do Trolha , de Júlio Pomar.

Quando é que reabre o Museu de Arte Popular?

Nós temos o Museu de Arte Popular reservado para o CCB mais ou menos desde o início do ano para uma exposição que o professor Lamas propôs e que vi com grande entusiasmo sobre a Exposição do Mundo Português. Estava apontada para agora, espero que seja este ano. Têm surgido muitas ideias mas não pode ser um mausoléu do folclore ou da chamada arte popular do SNI [Serviço Nacional de Informações]. Há problemas com as coleções. Queríamos ter feito uma exposição com a cerâmica, mas não está estudada. Os centros de produção nunca foram identificados. As soluções para o museu que nos foram apresentadas de modo nenhum nos

satisfizeram, mas, confesso, contra mim, é uma das minhas falhas. Outra é não termos conseguido mais itinerância de projetos de exposições feitos dentro da direção-geral e com os museus das direções regionais de cultura.

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