Novo romance de Orhan Pamuk e a memória de Istambul

O Prémio Nobel regressa ao fim de meia-dúzia de anos com uma história de amor e vida passada em Istambul ao mesmo tempo que é reeditada a sua autobiografia.

A ilustração com a árvore genealógica que está no início do mais recente romance do Nobel da Literatura, o do escritor turco Orhan Pamuk, mostra a complexidade das famílias que vão estar a protagonizar ao longo de 600 páginas de uma obra que levou ao autor seis anos a escrever.

Nas páginas iniciais de Uma Estranheza em Mim estão duas frases que adiantam - após ter-se iniciado a leitura - algo do que vai acontecer na narrativa de Pamuk. A primeira diz: "Não é costume dar em casamento uma filha mais nova e a irmã mais velha ficar solteira". A segunda diz: "Se se tiver a filha bem guardada, ela preferirá fugir." É deste misto de epígrafes que vai gerar-se a história ao princípio, num conjunto de treze páginas que impedem qualquer leitor mentalmente saudável recusar a entrada num romance de quem sempre se espera bom trabalho.

Sem revelar muito mais do que esta parte muito inicial, o que Orhan Pamuk faz é uma das melhores introduções a um romance, ao colocar o leitor entre a espada e a parede perante um artifício literário tão divertido como de espantar. Porque aquilo que vai contar é os passos da fuga de uma jovem para casar com um pobre vendedor da sua aldeia, que migrara Istambul e que durante três anos enviou à apaixonada cartas frequentes a declarar o seu amor. Só que Pamuk põe o leitor a caminhar na história e torna-o crente de que a grande questão é o sucesso da fuga, mas o espanto vem quando na noite escura em que estão mergulhados, quando a escapada já está em curso, o protagonista Mevlut repara que a Rayiha a quem dava a mão era a irmã mais velha daquela com quem desejava casar e não o membro mais jovem da família a quem raptara a filha.

A partir deste momento, como já acontecera no anterior romance O Museu da Inocência, a magia literária vai concretizando-se e vamos ouvindo as várias vozes que contarão a história do pai irado com o rapto da filha; a cronologia histórica da sociedade turca; o envelhecimento do protagonista e a sua vida familiar; as aventuras de um vendedor de boza [um iogurte alcoólico] pelas ruas de Istambul, que é a profissão de Mevlut, aquela que permite reconhecer toda a cidade por causa do seu deambular pelas ruas.

É aqui que entronca a nova edição de um outro livro de Orhan Pamuk, a oitava desde 2008, onde o escritor refaz as suas Memórias de uma Cidade - Istambul, um verdadeiro diário da sua vida na cidade que sempre o fascinou e que é presença constante na sua obra.

A boa coincidência da publicação do novo romance com a reedição de uma fascinante narrativa que faz a reconstrução de uma cidade através das memórias de Ohran Pamuk e da sua família, com o autor a desvendar os bairros antigos, a evolução dos costumes dos seus habitantes, sempre ilustrado com fotos pessoais e uma longa lista de antigos "postais" que exibem Istanbul em toda a sua dimensão arquitetónica, pode ser uma boa oportunidade para conjugar as duas leituras e reparar nos paralelismos entre o que são memórias e cenário literário.

Além de um grafismo de capa que dá um novo tom à publicação das obras deste Nobel, os relatos efabulados e os memorialistas casam muito bem e há a possibilidade de se reencontrar uma explicação para o atual estado da Turquia a nível político. Como se pode ver à p. 387 de Uma Estranheza em Mim, com a descrição dos confrontos entre as várias fações partidárias, ou, à p. 255 de Istambul - Memórias de Uma Cidade, o bom retrato dos conflitos religiosos.

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