Novas aventuras das imagens visíveis e invisíveis

A realidade virtual continua a interessar os cineastas: o novo filme de Spielberg evoca a experiência proposta por Iñárritu em Cannes no ano passado

Face ao novo filme de Steven Spielberg, Ready Player One - Jogador 1, não podemos deixar de sublinhar a atualidade temática e simbólica, porventura política, da realidade virtual (RV). E lembrar, pelo menos, um importante antecedente. Aconteceu em maio de 2017: uma das grandes sensações da 70.ª edição do Festival de Cannes foi Carne y Arena, de Alejandro González Iñárritu, a "primeira instalação de realidade virtual" acolhida pelo certame. A sua atração passava também por algum "secretismo": os jornalistas interessados deviam inscrever-se para aceder ao evento, encarregando-se o próprio festival de os transportar até um aeródromo nos arredores de Cannes onde, num enorme hangar, tinha sido montada a instalação.

Iñárritu encenava a odisseia de um grupo de clandestinos na fronteira entre México e EUA, facultando ao espectador, munido dos óculos de RV, a possibilidade de "circular" no interior do cenário, escolhendo sucessivos pontos de observação. Os resultados suscitaram muitas e interessantes reflexões sobre o futuro das imagens que, em todo o caso, terão reconhecido uma diferença essencial: já não estávamos perante um objeto de raiz cinematográfica. Isto porque a perceção do espaço, o seu enquadramento e a composição, já não resultava apenas do trabalho de encenação do realizador, dependendo dos movimentos do espectador munido com o seu aparato de RV.

Sensível à questão, o próprio Spielberg tem lembrado tal arbitrariedade formal a propósito deste filme (veja-se a entrevista que deu ao canal britânico ITV, disponível no YouTube). Dito de outro modo: para ele, não se tratou de criar um objeto de RV, mas sim de imaginar um mundo não demasiado futurista (2045) em que os poderes das imagens virtuais passaram a integrar todos os recantos do quotidiano. Diz um dos cartazes de Ready Player One - Jogador 1: "Aceita a tua realidade... ou luta por uma melhor". O que, ironicamente, pode ser entendido como uma derivação moral do preceito consagrado, em Cannes, pelo cartaz de Carne y Arena: "Virtualmente presente, fisicamente invisível".

Provavelmente, o filme de Spielberg vai inscrever-se na história do cinema menos como uma abertura para as maravilhas prometidas da RV, mais como uma sistematização das inquietações que nascem da sua expansão. De tal modo que podemos mesmo perguntar se não está a ser abalada a dimensão mais humana do espetáculo cinematográfico. A saber: os atores.

Porquê? Porque, mesmo não conhecendo as atribulações tecnológicas do cinema no século XXI, o espectador não poderá deixar de sentir que o trabalho de representação dos atores passou também a ser executado em cenários virtuais (literalmente invisíveis no momento físico da rodagem). Daí o paradoxo visceral em que Spielberg se situa: reconhecer que a realidade virtual pode evoluir contra o cinema e, apesar de tudo, fazer... um filme.

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