Nos bastidores do rock in rio, onde só entram as estrelas

Atrás do palco do Rock in Rio, há pó, máquinas e muitas pessoas de um lado para o outro. Esta é a zona mais bem guardada do festival.

"Minha vida é praticamente empurrar móveis", dispara a coordenadora dos camarins do Rock in Rio. A frase arranca uma gargalhada à audiência, jornalistas em visita aos bastidores e a áreas técnicas da Cidade do Rock. É a explicação da brasileira Ingrid Berger para todos os dias ter de redecorar o interior dos contentores brancos que os artistas usam como camarins e para descansar enquanto não chega o momento de entrar em palco, a salvo do olhar do público, no Parque da Bela Vista. Só não é totalmente exata. Se há pessoa que conhece os gostos das estrelas, é ela. E os gostos, apressa-se a explicar, são muito menos extravagantes "do que há uns anos". "Não tem nenhum rock "n" roll."

Faltam cinco dias para Bruce Springsteen subir ao palco e Ingrid já sabe a que horas o cantor norte--americano quer jantar: 18.00. Isto é, várias horas antes de pisar a Belavista pela segunda vez. Antes, tocam Xutos & Pontapés. Stereophonics é a estreia do musical do Rock in Rio. Ingrid Berger também já sabe a ementa: "Grelhados e legumes, nada de comida portuguesa." Genuinamente portugueses só os vinhos que estarão à disposição dos artistas num wine bar.

Essa é primeira referência a Portugal neste jardim de contentores brancos. Apenas detalhes nos distanciam do que o Boss verá quando chegar. Sofás pretos, candeeiros de pé alto, um tapete com vários quadrados, duas mesas de vidro - uma redonda e uma retangular - e, claro, um espelho. É aqui que os músicos despem a pele de comuns mortais e se vestem de estrelas - mesmo quando isso geralmente quer dizer uns jeans escuros e uma camisa azul-marinho como Bruce Springsteen, cujo disco The River, de 1982, é a coluna vertebral do alinhamento. Ao contrário do que aconteceu em 2012, penúltima edição do Rock in Rio, quando a mulher, Patti Scialfa, "ficou em casa com os meninos" (palavras de Bruce Springsteen para o público), desta vez, ela estará em palco. Tem um camarim só para ela, conta Ingrid Berger. "O dela é branco." A E Street Band e demais equipa ficam nos outros cinco camarins mais pequenos.

A banda principal de cada dia fica no local mais protegido desta zona e mais perto da saída. Os carros entram pelo lado sul e estacionam a dez passos dos camarins. Para o Boss será novidade. Só com os Rolling Stones, em 2014, esta zona foi aqui instalada. "Viemos para o alto e eu disse: nunca mais desço", diz Ingrid Berger.

Cada artista envia a sua lista de pedidos, cada dia é preparada "o que a gente chama de caixa". Tudo vem de um outro contentor, a que Ingrid chama "mercadinho", uma caverna de Ali Babá onde há sempre mais um pacote de batatas fritas ou de pastilhas elásticas, e as opções saudáveis como "fruta, sumos naturais e alimentos orgânicos" que os artistas pedem. "Eles estão mais saudáveis." E a qualquer hora, garante, está preparada para responder a um pedido de fisioterapeuta, cabeleireiro ou manicure. Ou para alterar a ementa do jantar. Aconteceu com Robbie Williams, lembra. Foi o menu da tenda VIP que a salvou.

O palco era o lugar mais agitado ontem à tarde. O material entra pelo lado esquerdo e sai pelo direito, diretamente para a doca, rumo à saída. "Este é o caminho dos artistas", diz Maurice Hughes, escocês, diretor de palco. Antecipa: "Até domingo está tudo pronto." Os trabalhos começaram há dois meses, nove mil pessoas trabalham no Rock in Rio, segundo Roberta Medina. Olha para o teto, onde uma parte dos quase 270 projetores estão a ser montados. "O nosso básico está preparado para quase tudo", diz. "Bruce Springsteen usa quase 100% do nosso sistema, os Queen trazem muito material." A banda britânica, com Adam Lambert nas vezes de vocalista, atua na sexta-feira, dia 20. "Os mais estranhos são os mais interessantes", diz sobre o cartaz. Aconselha os Hollywood Vampires. "Muito bom, o show."

Na cidade da segurança

Há outra aldeia de contentores fora do alcance do público, o Centro de Comando de Operações do Rock in Rio, onde se concentram. Serviços médicos, polícia, INEM, Proteção Civil, bombeiros e segurança. É aqui que se tem acesso às imagens de vigilância do recinto.
Ricardo Acto, diretor de operações, afirma que o grande passo é tecnológico. "Pedimos autorização para ter a tecnologia concentrada." Verificam-se os consumos de energia, água, a quantidade de resíduos e o que Roberta Medina classifica de "meu xodó", a tecnologia que vai permitir saber qual a melhor casa de banho a usar.

O responsável da segurança não divulga o número de vigilantes que vão andar pelo Rock in Rio, a polícia tampouco. Dentro do recinto, "dezenas", e visíveis segundo a comissária Ana Neri Correia. Fora, centenas. Garante que há poucas ocorrências, e Ricardo Acto corrobora. "Passam de existir [em outros países] para quase nulas."

Os atentados de Paris e da Bélgica estão ainda frescos na memória, mas Ana Neri Correia assegura que não há preocupações especiais. Há, isso sim, "uma grande aposta na visibilidade". "Vão ver muitos polícias." Depois, cada dia é um dia e, "pelas horas, bandas e números de pessoas", há três que merecem atenções especiais: 19, 20 e 28. Respetivamente, os dias de Bruce Springsteen, Queen e Maroon 5. Os dois últimos estão, segundo Roberta Medina, quase esgotados.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG