Noite da liberdade ou os sinuosos caminhos da democracia

Refletir sobre a democracia continua a ser um tema tão atual hoje como em 1931 quando o alemão Ödön von Horváth escreveu esta peça de teatro, antes da subida de Hitler ao poder

Na sala principal do Teatro Municipal Joaquim Benite, o bar de Joseph Leninger já abriu. Pelo rádio ouve-se relatos de futebol e antigos anúncios. Parece que o Cova da Piedade joga contra o Arouca. Joga-se às cartas e lê-se o jornal. A Noite da Liberdade, de Ödön von Horváth, passa-se em 1931. Mas podia ser hoje. E há alguém que se levanta. "Então, Martin, o que há no mundo?", pergunta. "Nada de novo, tudo na mesma." "Temos a democracia, meu caro Martin." Será?

Essa é a reflexão levantada pelo dramaturgo alemão, antes da subida de Hitler ao poder, e atualizada na encenação de Rodrigo Francisco, na última criação da Companhia de Teatro de Almada. "De que mecanismos dispõe a democracia para se defender do totalitarismo, quando é o próprio povo quem expressa, democraticamente, a vontade da sua abolição?", escreve o encenador na apresentação de Noite de Liberdade, que se estreia na sexta-feira, no Teatro Municipal Joaquim Benite.

Ideologia ou ação?

Estamos numa pequena cidade do Sul da Alemanha, início dos anos 30. Tudo acontece na taberna Josef Lehninger que aluga o seu estabelecimento, durante a tarde, aos fascistas para se celebrar o Dia da Pátria. À noite, abre portas aos republicanos para os festejos da Noite da Liberdade. Ödön von Horváth, um dos maiores nomes da dramaturgia alemã da primeira metade do século XX e exilado em 1936, descreve a forma como na Alemanha de Weimar, os sociais-democratas não foram capazes de travar o avanço do nacional socialismo.

É neste contexto que assistimos à luta entre a secção do Partido Socialista local e os nazis que preparam o seu Dia da Pátria. O confronto político, geracional e ideológico é levado a lume, enquanto a tensão ganha corpo entre as principais personagens, cada uma simbolizando o combate entre o individual e o coletivo, a batalha entre a ambição pelo poder e a retidão de caráter. Ou o ego acorrentado à ilusão de servir a causa, no caso de Martin, o jovem idealista revolucionário numa fação mais à esquerda que se insurge, feroz, contra a passividade dos mais velhos do seu partido.

"Martin é o idealista, o revolucionário puro contra aqueles que estão a deixar as coisas acontecer sem se mobilizar. É uma peça muito pertinente nos dias que correm", diz o ator que arrisca fazer um paralelismo com uma "certa descrença presente nos dias de hoje". Guilherme Filipe, pela primeira vez a trabalhar em Almada, acrescenta à intemporalidade do texto a realidade dos acontecimentos políticos dos últimos dias. Ele é Afonso Ammetsberger, vereador da câmara e presidente do Partido, a antítese de Martin, segundo o ator. "Falam os dois a mesma linguagem, mas ninguém quer ceder o seu posto. O meu é o de raposa velha e o dele o de raposa nova!"

Tal como Guilherme Filipe, que se estreia nas "tábuas" do teatro de Joaquim Benite, também a atriz Io Appoloni, convidada especial, pisa pela primeira vez o palco principal. "Eu faço dois papéis, de prostituta no primeiro ato, e no segundo sou uma viúva que vai cantar, é este o milagre do teatro, ver nascer e construir personagens, a peça é muito interessante!", conta.

Não seria outra a missão de Rodrigo Francisco. "Fazer teatro nunca será para mim um ato de entretenimento, esta é, sem dúvida, uma boa oportunidade para se refletir sobre a defesa da democracia, sobre a nossa formação enquanto democratas", considera. Foi há dois anos que pensou em Noite da Liberdade. Em 2016, a peça desenha-se ainda mais atual. "Agora, infelizmente, com tudo o que está a acontecer na Europa e no mundo, o alerta é ainda mais urgente. E é esse o nosso contributo."

Noite da Liberdade

De Ödön von Horváth, com encenação de Rodrigo Francisco

Teatro Municipal Joaquim BeniteDe 2 a 11 de dezembro e de 11 a 29 de janeiro, de quarta a sábado, às 21.00 e domingos, às 16.00

Bilhetes: entre 6,5euro e 13euro

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