"No cinema não é preciso sermos realistas"

O cineasta Elie Wajeman e o ator Tahar Rahim contam ao DN como fintaram o "pastelão" histórico e foram para a via do cinema de suspense neste "Os Anarquistas", que amanhã chega às salas de cinema nacionais.

Muito mais do que um filme histórico sobre o movimento dos anarquistas em França, Os Anarquistas assume-se como um thriller com uma subdivisão bem vincada.

Elie Wajeman (EW) - Exato. O thriller de infiltrados. Gosto de cinema de género. Este é um filme de género tal como muito do cinema português acaba por ser drama psicológico, o que é por si um género.

Tahar Rahim (TR) - E eu adoro filmes com polícias infiltrados. O meu amor pelo cinema vem da nova Hollywood, que fazia o melhor cinema de género. Em geral, este é um género que permite aos atores interpretar personagens fortes, sempre com uma certa dualidade e complexidade.

EW - Além de nós dois gostarmos muito destes filmes, estas personagens têm uma qualidade que se assemelha àquelas personagens que encontramos no teatro de equívocos, sobretudo os amorosos, de Marivaux, que também usava de certa maneira os infiltrados... O próprio Shakespeare também fazia esses jogos e aí há uma grande tradição de personagens infiltrados.

Parece também haver um exaltante fascínio pela época, a Paris do começo do século passado...

EW - É uma época que me agrada muito mas não fiz este filme para falar dos anarquistas dessa época. Interessou-me mais poder trabalhar com personagens que estão a entrar para um novo século, onde se acabam as ilusões e o real começa. E o real são as revoluções e a Primeira Guerra Mundial.

TR - A minha personagem está entre os dois séculos. É um homem novo, alguém que procura uma nova vida, mais confortável e estável. Depois vai parar a um grupo que o deixa abalado.

O filme tem também um lado passional forte por intermédio das personagens de Adèle Exarchopoulos e do Tahar. Essa química teve a sua intervenção?

EW - Sim, passa sempre pelo realizador. O realizador não sabe muito bem onde mas tem de ser responsável. Entre a Adèle e o Tahar existiu qualquer coisa. Era evidente.

TR - Sim, é verdade, mas passou pela tua maneira de dirigir. Tudo começa pela escolha dos atores. Eu e a Adèle trabalhámos um mês juntos antes das filmagens. Fizemos leituras e depois apareceu o Elie, que nos dirigiu.

Sente-se uma carga sexual genuína...

EW - É verdade, mas ao mesmo tempo o filme também é pudico. Quis fazer uma história de amor com muito sentimento mas sem perder a sensualidade. Evitei os planos mais duros e explícitos. Além do mais, a Adèle tinha vindo de um filme muito sexual [A Vida de Adèle]...

TR - Quando filmo cenas de sexo vou sempre pelo lado da batota, é sempre melhor e fica mais real. Quando fiz Love and Bruises, de Lou Ye, houve pessoas que pensaram que eu estava mesmo a fazer amor. No cinema não é preciso sermos realistas. O desafio é fazer parecer real e isso acontece com o meu imaginário.

Deduzo que seja um processo sempre em mutação.

TR - Sim, muda de filme para filme, até porque as cenas de amor são sempre delicadas. Nunca estou muito à vontade com isso...

O Tahar Rahim é uma das novas estrelas do cinema francês. Sente na pele os efeitos do star system?

TR - Eu diria que o star system existe para todos os tipos de cinema, mesmo o independente. A partir do momento em que há cinema feito para uma indústria, têm de surgir estrelas. Ainda não fui confrontado com isso. Estou a fazer o meu caminho no cinema mas claro que há competição permanente - tem de existir, até porque o cinema em França tem um lado de competição desportiva.

Por exemplo, compete muito para os mesmos papéis que Reda Ketab, o ator de Longe dos Homens?

TR - Sim, acontece. Somos da mesma geração, mas tudo se resume às escolhas dos realizadores, nem é bem competição.

Surpreendeu-se muito com Um Profeta, o filme que marcou a sua vida no cinema?

TR - Imensamente! Para já, não estava à espera de fazer o filme! Fiquei de boca a aberta como Um Profeta, viajou tão bem no mundo inteiro. Depois é que foi o problema, tive de fazer escolhas. Fazer escolhas boas é difícil. Quis reinventar-me e manter-me com a mesma energia do começo. Ainda assim, não sou um ator com um plano.

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