Não quis assaltar bancos e decidiu escrever policiais

Anders Roslund e Stefan Thunberg, autores de O Pai, é um daqueles raros casos em que ambos viveram aquilo que escreveram. A Dreamworks já comprou os direitos e prepara um filme

O selo que está na capa do policial O Pai diz ser "baseado em factos verídicos" e a imagem mostra três jovens que largam os brinquedos e pegam em armas. Uma transformação verdadeira, que tornou nos anos 90 a família de um dos autores, Stefan Thunberg, famosa na Suécia durante os dois anos em que se dedicou a assaltar dez bancos, tendo sido declarados inimigos número um pelas autoridades.

Thunberg não entrou nessa aventura por um triz: "Após o primeiro assalto fiquei tão entusiasmado com o estado de adrenalina dos meus irmãos que também quis fazer parte do gangue. Depois, enquanto estava nas aulas de desenho, achei que a minha vida deveria seguir outro rumo e desisti. O meu irmão mais velho só lamentou que não lhe tivesse dito com antecedência, pois tinha planeado o assalto seguinte a contar comigo."

Stefan Thunberg faz esta confissão sentado num cadeirão da esplanada de um hotel em Lisboa, aonde veio promover o seu polémico romance policial. Ao seu lado está Anders Roslund, que com ele escreveu esta história mais autobiográfica do que é normal.

Roslund e Thunberg já são amigos de longa data mas até há uns tempos nunca tinham pensado escrever sobre o passado violento da família de um deles. "Conhecemo-nos na época em que ocorriam os assaltos porque eu era o jornalista destacado para fazer a cobertura", recorda Roslund, que já teve uma outra parceria bem sucedida com Börge Hellström e também best-sellers a solo, que entraram na tabela do New York Times.

A história de O Pai é tão impressiva que os estúdios DreamWorks já adquiriram os direitos e estão a preparar o guião do filme que irá relatar como é que três irmãos arrombam um depósito de armas do exército sueco, levam duas centenas de armas, e executam uma dezena de assaltos sem serem apanhados. Que deixam a polícia cada vez mais baralhada após cada assalto durante muitos meses, pois o perfil dos assaltantes não encaixava nos suspeitos do costume.

Tudo terminará quando o pai desconfia que os seus filhos são os responsáveis pelos crimes e decide juntar-se. A sua atitude, bem como da jovem namorada de um deles, deitará tudo a perder e após um cerco de várias horas o bando rende-se. Hoje, após cumprirem pena, regressaram à profissão de antigamente: carpinteiros.

Mesmo tendo decorrido tanto tempo, Thunberg relata emocionado a maratona noticiosa da captura dos irmãos: "Eles refugiaram-se numa cabana e foram cercados pela polícia. Achei que o desfecho iria ser trágico e nenhum deles sobreviveria. Ao fim de várias horas, decidi ignorar o que estava a acontecer e fui dormir. Na manhã seguinte, estava um dia tão bonito que achei que tudo aquilo tinha sido um sonho. Fui comprar pão para o pequeno-almoço e só aí, ao ver as primeiras páginas dos jornais, é que tive consciência de que era tudo verdade."

Roslund também não esquece esse dia pois foi o final de uma série de meses a escrever no jornal sobre o Gangue Militar: "Enquanto escrevíamos o romance, recordava tudo o que fiz naqueles dias". O seu parceiro, Thunberg, também recordou muito do que viveu: "Pode-se ler no livro a sensação que tive ao ver os meus irmãos doidos de alegria após o primeiro assalto. Estavam a contar o dinheiro e só lamentavam que não tivessem conseguido abrir os vários cofres da carrinha de transporte de valores". Também não esqueceu as aulas com o pai para aprender a fazer cocktails Molotov, que este atirar contra a casa da ex-mulher.

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