"Não me lembro de querer fazer outra coisa" senão dançar

David Marques, bailarino de 31 anos. Como coreógrafo fez sobretudo solos e duetos até estrear em junho Ressaca, a sua primeira peça de grupo, na Culturgest.

Há quatro anos, David Marques morava em Telavive. Viajava regularmente a França para colaborar com o coreógrafo Loïc Touzé. E também por essa altura participava em A Viagem, espetáculo de Filipa Francisco, em que andava pelo país a trabalhar com grupos de dança folclórica. "Eu estava em Israel a pensar na questão das identidades, dos nacionalismos, da colonização e depois vinha para Portugal trabalhar com dança folclórica e pensar no Giacometti e no António Ferro", conta. E este entre lá e cá, entre o universal e o particular, entre eu e o outro, é bem capaz de ser uma das marcas do seu trabalho como bailarino e coreógrafo.

David começou a dançar com 5 anos em Torres Novas, onde nasceu, com a professora Helena Azevedo. Longe do "meio artístico", vendo poucos espetáculos, lembra-se da importância de haver alguém que puxava por ele e o punha a fazer improvisações quando era ainda um rapazinho. "Para mim era mais do que um hobby: eu tinha encontrado a coisa que eu queria fazer. Não me lembro de querer fazer outra coisa." Aos 10 anos, já assinava o programa do CCB. "Chegava todos os meses pelo correio, mesmo que eu depois não visse quase nada." Foi com essa sede que chegou a Lisboa para frequentar a Escola Superior de Dança.

Francisco Camacho, que foi seu professor no último ano do curso, foi uma das suas principais influências. Pouco depois, começou a trabalhar com ele na Eira. Ali dançou, fez pesquisa, produção, assistência: "Foi muito importante para mim. Para além de meios, ele deu-me muita confiança, que é uma coisa um bocadinho subestimada." Em 2008 estreou o seu primeiro solo, ainda antes de ir para Montpellier, durante nove meses, estudar com Mathilde Monnier. "Estar com pessoas mais ou menos da tua idade, que vêm de todo o mundo, umas que têm as mesmas referências do que tu, outras com referências diferentes, mas todas estão ali com a mesma vontade, aquela energia fulgurante. Foi como a escola mas vezes mil", lembra David Marques. Foi lá que conheceu o bailarino israelita Ido Feder, com quem se mudou para Israel e com quem criou duetos como Bête de Scène, Images de Bêtes e The Powers that B.

Há três anos voltou para Lisboa. Mesmo continuando a trabalhar no estrangeiro, reencontrou aqui pessoas com quem tinha vontade de trabalhar, recuperou laços emocionais. Têm sido anos intensos. "Nunca trabalhei tanto como agora, quer no meu trabalho quer como intérprete." Precisa de ambas as coisas. "Durante algum tempo, tinha necessidade de fazer peças minhas, acho que para ter a certeza de que conseguia e, por isso, não investia muito em dançar para outras pessoas. Agora divirto-me muito mais, mesmo quando fico nervoso tenho mais prazer." Talvez tenha que ver com a idade, com uma certa maturidade que se sente dentro e fora do palco. "Não quero de todo ver o meu trabalho como um esforço ou como um momento de dor, algo que seja difícil. Já não consigo fazer isso."

Em junho, estreou Ressaca, a sua primeira peça de grupo. Quatro intérpretes no palco, David fora dele. Mas, nos próximos meses, vai haver muitas oportunidades para vê-lo dançar. A 29 e 30 de setembro, volta à Culturgest, agora como um dos intérpretes de Fanfare, uma peça de 2015 de Loïc Touzé. Depois, a 24 de outubro, no Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, estreia Olhar de Milhões, de Raquel Castro - é a primeira vez que está a fazer teatro, "a dizer texto" e tem sido surpreendente, até para ele. O espetáculo vai andar um mês e meio em digressão por onze cidades. Pelo meio, irá estar a preparar a estreia de Apagão, uma nova criação em parceria com Tiago Cadete (em novembro no Negócio/ZDB, no âmbito do festival Temps d"Images). David Marques até pode tirar fotografias na piscina, mostrando a sunga e o corpo bronzeado, mas a verdade é que este tem sido um verão de muito trabalho. Mas essa seria toda uma outra história.

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