"Não assisti à crucificação de Cristo porque tinha consulta no dentista"

Amos Oz, que morreu esta sexta-feira, 28 de dezembro, aos 79 anos, deu uma entrevista ao DN em 2016, ano em que lançou o seu romance Judas. E foi polémico como sempre

O último romance do mais importante escritor israelita tem o nome encurtado na tradução portugue-sa para Judas em vez do original O Evangelho segundo Judas. Amos Oz não estranha quando se lhe pergunta sobre a semelhança com o romance de José Saramago e está preparado para responder: "Claro que li e considero-o fascinante."

Logo adianta que o do português "tem uma relação com a Bíblia totalmente diferente do meu", e reforça: "É interessante ver como a mesma história bíblica pode inspirar um escritor para escrever o Evangelho segundo Jesus e a mim segundo Judas." Para que não ficassem dúvidas, Oz passa um trabalho de casa: "Compare as cinco primeiras páginas do Evangelho de Sara-mago com as duas últimas páginas sobre a crucificação no capítulo 47 do meu romance. E lerá duas ideias completamente diferentes sobre a crucificação." Antes de mudar de assunto, garante em tom de brincadeira que não irá "fazer um exame" posterior ao TPC marcado.

Amos Oz tem uma voz rígida e o seu rosto não parece ser o de um homem capaz de fazer muitas piadas, mas esta não foi a única. Quando se insiste no papel que tem Judas, um dos quatro "protagonistas fantasmas" do romance, na crucificação de Jesus, outros dos "fantasmas", Amos Oz responde com nova graça. Diz não poder ir mais longe na questão: "Naquela sexta-feira estava numa consulta no dentista e não sei o que aconteceu."

Judas é um romance impressionante, disso não há dúvida, muito bem trabalhado a partir de uma ideia perfeita e retrato de um tempo da sua juventude, onde se ouvem algumas vozes que se poderiam dizer autobiográficas. Trezentas páginas que lhe possibilitaram mais uma vez ser chamado de traidor por alguns dos seus compatriotas, mesmo que essa acusação não o incomode desde há várias décadas.

Reparei que quando o entrevistam sobre este romance estão mais preocupados em saber se Amos Oz é um traidor e não o mesmo sobre Judas ou a personagem Abravanel, que era contra o Estado de Israel nestes moldes. O que se passa?

É verdade, mas creio que o coração deste romance tem mais a ver com a traição do protagonista Samuel do que com a alegada traição de Abravanel ou de Judas após adotar um pai e uma mãe durante um inverno inteiro e alterar as suas crenças. Sendo cada um deles um excêntrico personagem, são também duros, pois nunca escrevo sobre pessoas doces, mesmo que acredite que no fim do romance o leitor irá gostar um pouco mais deles.

Samuel é um jovem revolucionário dos que já não vemos hoje em dia?

Ele pertence à década de 50-60, quando havia grandes sonhadores e reformadores de ideologias, mesmo que após estes três meses da história o deixem pouco parecido como era quando entrou. Todos mudam de personalidade neste romance.

Até Atalia, a mulher mais dura possível...

Sim, que despreza todo o sexo masculino e pensa que os homens são infantis porque veem a história como um matadouro. Mas diz uma coisa a Samuel no fim, que a torna simpática. Quando ela lhe disse isso eu até chorei.

Quer dizer que foi muito difícil escrever este romance?

Sim, porque é um livro muito minimalista e só tem três protagonistas vivos numa única casa, além de quatro "fantasmas" - Jesus, Judas, Micha, o filho morto, e Abravanel. Não foi fácil trabalhar sete personagens em mudança.

Quando começou já sabia que os ia moldar assim?

Sabia o fim mas não era exatamente como o final que ficou, porque se deu o milagre de pessoas tão estranhas no princípio, até hostis, quase se amarem.

Notam-se algumas referências autobiográficas. Concorda?

Existem sim, mas verificam-se em tudo o que já escrevi e reaparecerão no que continuar a fazer. Mas repare, autobiografia é uma coisa e confissão é outra. E este livro não é uma confissão! Os elementos autobiográficos aparecem por ter vivido em Jerusalém na mesma época que a do romance, no fim dos anos 50, e conhecer as ruas da cidade muito bem. Tenho até hoje uma imagem muito definida de uma cidade dividida mas, ao contrário do protagonista do livro, nunca conversei com um deficiente idoso.

Gostaria de ter conversado?

Sim, mesmo que a velha Jerusalém estivesse cheia dessas conversas sobre ideologias, religião, cristianismo, judaísmo, lealdade, traição e a criação de Israel. Toda a gente falava sobre estes temas e todos eram donos de uma fórmula para resolver as grandes questões.

E a Jerusalém de hoje?

É ainda uma cidade magnética, que atrai todos os salvadores e reformistas. Ainda hoje há muita gente em Jerusalém que quer ser o messias e salvar o mundo. Vão para lá para serem crucificados ou para crucificar os outros. É o destino da cidade desde sempre, porque não se fica indiferente a Jerusalém. Pode-se gostar ou não, mas é bela, trágica, dolorosa, controversa e provocadora. Ninguém se aborrece por lá.

Recebeu um prémio na Alemanha por este livro. Um mais entre os muitos da última década?

Gosto de receber prémios, claro. É simpático e encorajador, mas no fundo do meu coração há um sorriso quando tal acontece, pois dão-me prémios pela única coisa que posso fazer. Conto-lhe um segredo: se em vez de me darem prémios me obrigassem a pagar por cada livro que escrevesse continuaria a fazê-lo.

Então, na vida só quer escrever?

Não, gosto de estar com pessoas, com a família, viajar, ouvir música. No entanto, não conseguiria viver sem escrever. É a minha vida desde muito novo.

Todas as suas biografias começam assim: Amos Oz é o escritor vivo mais importante de Israel. Um romancista, jornalista e professor de literatura na Universidade Ben-Gurion. Gosta desta súmula?

Penso que está correta, mas para me conhecerem precisam de ler os meus romances.

Não consegue escapar às declarações políticas?

Faço-o muitas vezes em entrevistas, ensaios, artigos ou intervenções, mas não quando escrevo um romance. Não pretendo ensinar às pessoas qual o caminho que devem escolher, por isso um romance meu nunca é um manifesto. Não escrevo para fazer indicações de voto, nem para apoiar Jesus, Judas ou Abravanel.

Neste Judas, no entanto, defende muitas ideias e políticas. Fala do grande erro de Ben-Gurion, por exemplo.

Quem fala é um dos personagens e não eu. Dou-lhes a todos argumentos tão fortes como posso e têm sempre pontos de vista muito convincentes, mas não estou necessariamente a secundá-los. O livro é uma peça de música de câmara interpretada por um quarteto e é errado perguntar se o compositor deu preferência ao violino ou se identifica mais com o contrabaixo ou o violoncelo. Não, estou por trás de todos e valorizo-os por igual.

Não receia ser mal compreendido pelas afirmações contidas neste romance?

Claro que espero, mas as pessoas leem os meus livros como querem. Há muitos leitores em Israel que o viram como um romance subversivo e anti-Israel. Há muitos cristãos que ficaram ofendidos pelo modo como represento Judas. Isso não me importa, porque penso que quem se sente ofendido pelas ideias de algum dos personagens simplesmente falhou a interpretação do que é a música deste livro e a combinação dos vários instrumentos.

Quer dizer que sentiu alguma censura?

Nunca senti censura em Israel. Terei muitos inimigos, incomodarei muita gente, mas nunca experimentei censura por parte do governo, da polícia ou de entidades religiosas. Sempre pude escrever o que quis, por isso se receber críticas é justo. É preciso ver que não escrevo canções de embalar mas romances controversos. Creio também que todo o bom trabalho de literatura deve irritar os leitores de uma ou de outra forma.

Na literatura, é impossível evitar o confronto?

O papel da literatura é agitar o leitor e causar a necessidade de reexaminar ideias e crenças. Não estou a vender gelados e guloseimas, esse não é o meu negócio.

A maioria dos escritores atuais não está muito suave nas críticas às grandes questões?

Há uns que sim e outros que não, tanto assim que conheço muitos escritores que continuam a provocar e a lançar perguntas sobre a civilização, os valores ou a fé. Esses são os meus escritores favoritos, sejam os do passado ou os do presente, pois não me interessam os autores que escrevem livros para ler no avião.

É por essa razão que está traduzido em 42 línguas?

Talvez, mas não me cabe responder a isso.

Traduzido também em árabe.

Sim, muitos dos meus romances foram publicados em árabe. Até em Beirute, numa altura em que Israel estava oficialmente em guerra com eles. Orgulha-me que tenham sido vendidos ilegalmente em muitos países árabes.

Defendeu a invasão do Líbano. Não se pode dizer que seja o pacifista de que se fala.

Há uma diferença entre ser pacifista e um ativista da paz. O pacifista acredita que se pode dar a outra face ao agressor, eu não. Ou considera que a guerra é o último passo e eu não penso assim. No entanto, se me perguntar se defendo as atuais políticas de Israel, a resposta é não. Sou contra, mas não por ser pacifista, antes por achar que a política atual do governo é egoísta e perigosa.

Um dos personagens diz que Israel não resistiria a todos os ataques eternamente. Após tantas décadas, por que isso não aconteceu?

No tempo do livro havia menos de um milhão de judeus em Israel, agora tem população suficiente. No entanto, não posso prever o futuro e é difícil ser profeta na terra das profecias. Espero que não haja guerra mas compromisso e que se trabalhe, como eu fiz nos últimos 55 anos, em prol da paz e de concessões mútuas.

Não acredita na possibilidade da paz?

Não diria isso assim. Acredito que possa haver paz, mas não sei quanto tempo ela durará, nem quanto mais sangue terá de ser derramado até esse momento. Olhe-se para a Europa, que teve tantas perseguições ideológicas e mortes religiosas e só agora está mais ou menos estável. Levou dois mil anos para acontecer esta coexistência, daí que seja estranho acreditar que o Médio Oriente fique em paz ao fim de meio século.

A sua história ocorre nos anos de 1959-1960. Os problemas não são os mesmos?

Sim, essencialmente o problema do Médio Oriente é o fanatismo, o ódio e a inabilidade para o compromisso ou ausência de concessões dos dois lados. É o problema dos últimos 60 anos, que continua a existir entre israelitas e palestinos, entre árabes e árabes, entre muçulmanos e muçulmanos. O fanatismo é a chave do problema.

Esperava que o terrorismo muçulmano fizesse atentados como os de Paris?

Colocaria a questão de outro modo: não é o terrorismo muçulmano mas as suas diferentes formas. Não esquecer que há poucos anos houve um banho de sangue na ex-Jugoslávia e não foram muçulmanos fanáticos. Nem esquecer que houve fanáticos na Europa que cometeram crimes terríveis em nome de ideologias, que até há fanáticos nos EUA que explodem clínicas de aborto porque são contra - e esses não são muçulmanos. O problema do século XXI é o fanatismo sob todas a suas formas: a religiosa, a chauvinista, a ambientalista, a feminista, a antitabagista... O problema não é o islão mas o fanatismo, que já existia antes do judaísmo, do cristianismo e do islão. Ao longo de toda a nossa história vimos jihads, cruzadas, inquisição; o fundamentalismo islâmico é apenas uma forma deste fanatismo.

Coloca Judas como o fundador do cristianismo, o único e último cristão. Não é uma grande provocação?

Sei que é uma grande provocação, mas não sei como dizer de outro modo, porque quando aconteceu a crucificação, naquela sexta-feira, eu estava numa consulta no dentista e desconheço como tudo ocorreu. O que sei é que na Bíblia a história do beijo de Judas e do pagamento de 30 dinheiros - 600 euros na moeda de hoje - a alguém que era rico não é muito convincente, portanto o protagonista Samuel pensa numa versão alternativa. Que Judas é o mais crente em Jesus; que até acredita mais em Cristo do que o próprio; que, quando o beijou para o identificar, fê-lo desnecessariamente, pois todos sabiam quem era Jesus. Nem este alguma vez disse: "Não sou Jesus, sou Berlusconi!"

Fez muita investigação ou usou o conhecimento público?

Li tudo o que pude, mas por mais investigação que se faça nunca saberemos exatamente o que aconteceu em Jerusalém naqueles dias.

Porque nasceu este livro?

Por muitas razões, mas entre elas está o facto de ter sido chamado muitas vezes de traidor por muitos dos meus compatriotas. Até por causa deste livro! Samuel acredita que muitas vezes as pessoas usam a palavra traidor para os que estão à frente do seu tempo e são rotulados deste modo. No romance há muitos exemplos desses casos.

Os escritores israelitas não estão demasiado focados no seu próprio país como se fosse uma missão?

O escritor escreve sobre o que sabe melhor. Saramago escreveu principalmente sobre Portugal. García Márquez sobre a América Latina e Tolstói sobre a Rússia. Essa é a natureza da literatura. Quanto mais provinciano se é mais universal se torna. Se escrevesse um romance passado em Honolulu seria um erro.

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