"Não aos espartilhos culturais e sociais que amarram a mulher"

A vocalista dos Deolinda, Ana Bacalhau, deu uma entrevista ao DN para falar sobre o convite que lhe foi feito pela ONU para participação na canção One Woman, que assinala do Dia Internacional da Mulher.

Foi convidada pela ONU para gravar um tema, com vários artistas mundiais, para assinalar o Dia Internacional da Mulher, a 8 de março. Como reagiu ao convite?

Com muita alegria. Não só porque é com muita honra que me associo a esta causa, mas também porque vou ser a única portuguesa a representar o meu país neste projeto, que conta com nomes que muito admiro. É o caso da espanhola Concha Buika, de Rokia Traore (do Mali) e de Bebel Gilberto (do Brasil).

O tema One Woman, da autoria de Graham Lyle e Fahan Hassan, tem o mote "É tempo de agir para pôr fim à violência contra as mulheres". Identifica-se com a mensagem?

Sem dúvida. E contra todo o tipo de violência, física e psicológica. Há que dizer "não" aos espartilhos sociais e culturais que ainda amarram as mulheres e as discriminam.

Sente que ainda há desigualdade de géneros?

Sinto que há duplicidade no julgamento do trabalho e das ideias das mulheres. O que é feito por uma mulher ainda está sujeito a estereótipos. Se alguns trabalhos ou ideias de mulheres fossem de homens, seriam vistos de outra forma. Ainda há muito, muito caminho a fazer para atingirmos a igualdade/equidade de género. Há que perceber que embora diferentes, homens e mulheres somos iguais, porque acima de tudo somos seres humanos.

Dos tipos de discriminação que, ainda no

século XXI, atingem as mulheres, há algum em particular que a choque?

Ver morrer mulheres às mãos dos seus companheiros. Aflige-me o facto de não se saber lidar com a perda, a traição, o divórcio. E nestes casos há sempre quem pense: "Se ele a matou é porque ela fez alguma." Isto mostra que é urgente a mudança de mentalidades.

Falando concretamente de si, sente ou já sentiu alguma vez a discriminação na pele?

Felizmente, não. Sinto-me privilegiada, porque vivo num país europeu onde a equidade está mais presente. Faço o que gosto e posso expressar-me livremente, algo que mulheres de gerações anteriores não podiam fazer. Mas, independente da minha situação, vejo o que se passa à minha volta. O tema que vamos interpretar chama-se One Woman, e é isso mesmo. Apesar da diversidade e grau dos problemas, as mulheres somos uma só. A coragem de umas dá alento a outras.

A Ana Bacalhau pertence a um grupo com nome de mulher. Deolinda procura ser também uma homenagem à mulher?

A Deolinda é uma mulher forte e inteligente, que fala do que sente e do que vê. Tem um olhar crítico. Não tem medo de expor as suas ideias. No fundo, é o que todas as mulheres deveriam ser. Sou feliz por vestir a pele de Deolinda, porque é nisso que me revejo. Além de ser uma homenagem à mulher, é também ao homem. É a prova de que estamos nesta vida em parceria. Aliás, as letras para a Deolinda são compostas por um homem que compreende as mulheres, o Pedro Silva Martins.

Por falar em Deolinda, vocês têm um novo álbum - Mundo Pequenino -, que vai sair em março. Que mensagem nos traz?

O nome do álbum surge após muitas tournées, em Portugal e no mundo. Digamos que é uma portugalidade virada para o mundo. É um trabalho variado, com canções fortes.

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