"Zeca Afonso foi sempre mal-amado"

Quando ouve os discos de José Afonso, já não o faz no velho gira-discos como no tempo em que originalmente foram editados: "O aparelho estragou-se há uns anos largos, já tentei encontrar agulhas, mas é difícil" Azeitão. Durante muitos anos, o casal viveu em Setúbal, mas como era numa localização muito barulhenta, e o cantor tinha dificuldade em dormir, procuraram outra residência: "Andámos vários anos em busca de casa e acabámos por encontrá-la em Azeitão, que era o único sítio sossegado" Mudar Viver em Azeitão só provoca uma preocupação a Zélia, pensar que nunca viveu tanto tempo num sítio só, principalmente porque, diz, não quer "morrer aqui". Deve ser por ter corrido tanto mundo, como se vê nestas fotos no Algarve dos anos 70, em Moçambique, no ano de 1982 e, esta semana, num café da localidade

[José Afonso faria hoje 80 anos.] Duas décadas depois da sua morte é um "património cultural nacional" um pouco esquecido?
Refaço a sua pergunta: ao longo destes últimos 40 anos acha que o Zeca foi sempre bastante lembrado? Não sei se isto serve como resposta, mas, nas situações políticas diferentes que atravessámos nos últimos anos, ele foi sempre uma pessoa "malvista" ou, diria antes, mal-amada. Mesmo entre pessoas dos meios onde a notícia ou a visibilidade pode ser dada. É evidente que isso não acontece entre as pessoas em geral.
Está a falar da comunicação social?
Sim, dos jornais, revistas e das televisões…
Isso deve-se a José Afonso ser um pouco introvertido ou até tímido?
Não. Ele era, de facto, uma pessoa tímida, mas não era introvertido. Acho, no entanto, que não foi por essa razão. Com certeza que não foi!
Seria mais pelas suas posições políticas?
Claro que sim. Mais por isso do que por qualquer outra razão.
Tal como hoje em dia, por exemplo, ninguém fala de Otelo Saraiva de Carvalho?
Sim, exactamente, apesar de serem situações muito diferentes.
Considera que a carreira que José Afonso construiu não tinha música "comercial"?
Se não fosse comercial, o Arnaldo Trindade não o quereria na sua editora…
A quem deu muito dinheiro a ganhar.
Não sei se ganhou, mas se não vendesse não teria tido interesse nele! Se bem que, da parte do Arnaldo Trindade, o interesse não foi exclusivamente comercial porque, apesar de ser um bom comerciante, tinha uma postura diferente - que nada tinha a ver com a política - e nada corriqueira sobre as suas canções.
Como editor, acreditava que a música era importante apesar de não ser fácil?
Gostava da música dele e achava que seria interessante gravá-la.
Devia-se, então, à forma como compunha?
Não tem nada a ver com isso. Eu perguntaria porque é que a música pimba vende tanto. Acha que é boa ou por ser má é que se vende muito? Ou será antes porque a difundem muito e todas as pessoas passam a conhecê-la?
Houve músicas pimbas que chamaram a atenção, seguiu-se o interesse comercial e foi um género que entrou na moda...
Mas porque é que há esse interesse sistemático de propor às pessoas aquilo que está "na moda" ou o que toda a gente gosta? Ou que todos aceitam que os outros gostem? É esse o tipo de políticas culturais que as empresas vão sistematicamente propondo e que são aceites!
Na altura comparava-se José Afonso com Chico Buarque, Jacques Brel e Atahualpa Yupanqui, por exemplo, cantores que tinham uma grande difusão mundial.
Só que nunca tivemos empresas capazes de fazer isso. Além de que, não nos esqueçamos, durante esse período - em pleno salazarismo - o Zeca não podia cantar em lado nenhum.
Se houvesse outro enquadramento político à época ou se tivesse vivido mais uns anos, teria tido mais sucesso comercial?
Acho que nem vale a pena imaginarmos isso. Nem faço ideia!
Então foi por as músicas de José Afonso terem sido boicotadas nas rádios e na televisão nessa época. Foi o que aconteceu?
Isso aconteceu explicitamente. Antes e depois do 25 de Abril de 1974, de forma evidente. Antes da Revolução foi muito mais claro.
Até porque após do 25 e Abril houve um período em que ainda teve bastante protagonismo.
Sim, pôde fazer espectáculos. Ainda bem que esse período existiu porque estamos aqui e agora à conta disso. Mas não podemos dizer que a fórmula que se passou a usar fosse a de espectáculos como agora acontecem, havia-os com vários cantores mas era para chamar a atenção sobre a realidade que acontecia.
Houve cantores desse tempo que se conseguiram manter. Sérgio Godinho e José Mário Branco conseguiram ultrapassar esse período mais crítico. Porquê?
Certamente, no caso de Sérgio Godinho, mas o José Mário Branco também não é um músico a quem tenha sorrido muito essa visibilidade.
Deve-se ao estilo da sua música?
Eu sou suspeitíssima para dar essa opinião porque gosto desses músicos todos: têm muita qualidade e diferença entre eles e são os músicos que eu ouço, os outros não!
Músicos que ainda hoje têm, no seu entender, entraves no circuito comercial?
Hoje é diferente, felizmente, mas esses músicos também tiveram uma atitude totalmente diferente a seguir ao 25 de Abril.
 Vamos ao caso do Sérgio Godinho…
Não me ponha a dar opiniões.
Estou só a a perguntar...
Posso dizer que havia diferenças entre uns e outros, mais nada. O Sérgio tem uma característica que considero interessante, a de relacionar-se sempre muito bem com o mundo do espectáculo. Aliás, ele vem do mundo do espectáculo, e eu penso que isso beneficiou-o bastante e foi positivo nesse aspecto que estava a perguntar.
Os últimos anos de José Afonso foram na pré-história dos concertos profissionais.
Ainda não havia concertos como agora. Nem podíamos chamar concertos àquilo…
Então, se o sistema de espectáculos fosse mais organizado, a carreira de José Afonso seria bastante diferente?
Não vale a pena falar de ses. Porque não conseguiremos imaginar o que é que podia ter acontecido. Eu não tenho resposta para isso.
A seguir ao 25 de Abril, os seus discos não tiveram tanto sucesso como antes?
Não penso assim. Gravou vários discos e com sucesso. O Cantigas do Maio foi um grande disco. O que houve foi um antes e um depois 25 de Abril, porque o Zeca foi sempre uma pessoa muito empenhada do ponto de vista político, além de o ser bastante do ponto de vista criativo e muito exigente consigo próprio. E, nesses dois pontos de vista - político e criativo - a questão pôs-se também a seguir ao 25 de Abril, só que nessa altura ele estava mais preocupado com o que se passava à sua volta. O Zeca era um homem extremamente solidário e, como tal, era constantemente chamado para causas que exigiam a sua presença e isso acabou por ser determinante. O resto não foi preocupação primeira.
Se não fossem as circunstâncias e o seu posicionamento político, a sua carreira teria sido diferente?
Eventualmente talvez, mas isso é um grande ponto de interrogação.
A sua vontade era ter a atitude política?
Sim, claro que era. É evidente.
Muita dessa formação ideológica acontece em Moçambique.
... A única coisa que posso dizer é que a ida para Moçambique clarificou mais a sua posição...
No passado, tinha cantado fados de Coimbra. Alguma vez rejeitou essa fase?
Não, dizia só que os fados…
... eram coisa do passado?
Apetecia-lhe fazer outra coisa! Não era coisa do passado, mas os fados eram sempre os mesmos e achava que devia ser diferente.
A seguir ao 25 de Abril, também tem um período em que fica sem saber exactamente qual é o caminho musical a tomar?
Não. Nunca vi o Zeca com dúvidas acerca daquilo que queria fazer. Nunca vi.
Nem com a sua actividade política?
Ou mesmo com a música. Nunca teve dúvidas nem em relação à sua atitude política nem o que é que queria fazer da música dele.
Mas não se sentiu pressionado pelo mudar dos tempos e ter de compor diferente?
Não por essa razão.
Então por qual? Pelo seu espírito criador, que lhe exigia outros desafios?
Exacto. Pode dizê-lo assim, mas não sou eu que o digo desse modo.
Novos tempos exigem novos desafios.
Não dessa maneira.
Sempre considerou que a sua música era para ficar?
Nunca fez esse tipo de apreciação…
Não se preocupava com a posteridade?
Não.
A nível político, José Afonso dizia que era o seu próprio comité central.
Sim.
Tinha uma posição e não pactuava.
E lutava bastante para manifestar a sua opinião - que não fosse opiniões de outros - e teve sempre muitos aborrecimentos e dores de cabeça por isso.
Por não alinhar com o PCP?
Não…
Porque não alinhava com as facções políticas que eram as dominantes na altura.
Acho que não deve se ir por aí…
Se não falar, esses tempos ficarão por esclarecer para sempre.
Eu posso perceber que às vezes para se escrever pouca coisa é preciso perguntar-se muito mas há assuntos como esses da política que são muito complicados e que como há sempre muita gente atenta eu não os quero abordar. Se calhar até posso estar a fazer mal, mas não tenho vontade nem de ferir nem de esquecer ninguém que conviveu com o Zeca. Desde o mais anónimo ao mais conhecido, porque todos tiveram importância na sua vida. Ele era uma pessoa muito atenta aos outros.
E alguma vez ponderaram, como casal, ir viver para o estrangeiro?
Ponderámos uma vez mas não foi por causa da música. Estava a ficar tão asfixiante que pensámos, vagamente, nisso um pouco antes do 25 de Abril.
Depois, não?
Nunca, o Zeca renegou sempre sair. Falou-se disso, mas ele não gostava de viver fora do País. Penso que também pelo seu comprometimento face ao que estava a acontecer aqui.
Em 1970, esteve em Londres a gravar Traz Outro Amigo Também. Gostou da experiência?
Gostou do trabalho em estúdio, sim, até porque era mais tranquilo e enquanto estava a gravar não apareciam pessoas a dizer "tens de ir ali". O trabalho no estúdio ficava mais tranquilo e o objectivo pelo qual se estava ali era mais conseguido porque era muito profissional e os técnicos nem sabiam o que é que o Zeca cantava.
Ele dizia que se armava em corajoso quando ia para o palco porque o assustava.
Sim, posso dizer que quando o Zeca disse isso era verdade.
Devia-se à intimidade ou à responsabilidade?
Penso que a tudo isso, porque era como qualquer pessoa que tem esse tipo de profissão. Sendo que o Zeca nunca foi um profissional no sentido que nós agora podemos dar a esse tipo de trabalho. Naquela altura, não era nada disso que acontecia com esse tipo de cantores, era tudo muito diferente. Isso posso garantir.
Ficava satisfeito com os espectáculos?
É uma resposta difícil. Se não achasse importante, não iria, é a única coisa que posso dizer. Ele não gostava de cantar assim, porque representava sempre um momento de grande nervosismo e de ansiedade, fosse em cima de um atrelado de um camião ou noutro sítio, era sempre uma situação que lhe provocava uma tensão muito grande. Então acabava por auto-agredir-se, tal como qualquer um de nós quando faz uma coisa que acha que é preciso fazer mas que lhe provoca uma situação de nervosismo. É o que acontecia, mas não se negava.
Gostava mais de compor e de gravar do que fazer espectáculos?
Claro, porque era tudo muito mais tranquilo. Quando se grava, se está mal volta-se atrás. "Não gosto assim, então vou experimentar fazer de outra maneira". É tudo diferente, apesar de haver o condicionalismo das horas de estúdio, que são pagas e que face ao nosso panorama eram caras.
Que opinião tinha dos portugueses e de Portugal nos últimos anos de vida?
Não sei como responder a isso. Qualquer pessoa que tenha tido muitas expectativas no 25 de Abril e de tudo o que podia trazer para o País, depois do 25 de Novembro, foi sempre uma grande frustração. É só o que eu posso dizer. E depois coincide com a doença… Mas não foi a doença que lhe trouxe uma visão mais negativa do que se estava a desenrolar no País, foram os próprios acontecimentos políticos que lhe deram essa percepção.
Acreditava que o 25 de Abril traria outro Portugal?
Acreditámos muitos de nós, felizmente, ou não não tinha acontecido o 25 de Abril. Acho que se deve sempre esperar mais nessas circunstâncias, mesmo que tenhamos a racionalidade de achar que muito do que aspiramos não acontecerá. Muitos esperaram mais mas muitos fizeram com que isso não acontecesse.
Após o 25 de Novembro, ainda vive vários anos. Vai desgostando cada vez mais?
Não. Vai desgostando quando acontecem coisas que são negativas para o País do ponto de vista político. Em algumas entrevistas da época, pode--se ver as suas opiniões espelhadas.
Quando ele sabe da doença, como é que foi a reacção?
Não quero falar nisso.
E o que é que me quer contar mais?
Eu não lhe queria contar nada! Não sou de colocar marcos em datas redondas e, por isso, não pensei em em nada para falar.

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