Recital de piano por Evgeny Kissin

O regresso de Evgeny Kissin ao Grande Auditório da Gulbenkian, domingo à noite, contou com casa cheia.

O pianista russo apresentou em Lisboa um programa que juntava na primeira parte a Sonata 'ao Luar' de Beethoven à Sonata, op. 26, do americano Samuel Barber (1910-1981) e reservava a segunda parte a Chopin, com o Nocturno em láb M, op. 32 n.º 2 e a Sonata n.º 3, em si m, op. 58.

No Beethoven, a interpretação de Kissin começou por ser cuidadosa e meticulosa (Adagio sostenuto), para depois ser muito justa e despojada (Allegretto) e, finalmente, tempestuosa, mas também, aqui e ali, a roçar o intempestivo (ligeiros descontroles/imperfeições). Refira-se, porém, que apesar do desvelo posto por Kissin no 1.º and., a sua escolha de 'tempo' nos pareceu retraída em demasia, levando a que se perdesse o fluxo de fundo que subjaz a esse trecho.

A 'Sonata' de Barber, raramente ouvida na Europa, teve de Kissin uma interpretação categórica, daquelas capazes de afirmar a obra por si própria, pelo que contém/exibe e não por quaisquer epigonismos. Cada andamento foi retratado com traços muito apurados, traços estes apoiados, mormente nos andamentos extremos, numa extraordinária técnica pianística.

Destaque para a precisão rítmica e nitidez formal do 'Allegro energico'; para a variedade de referenciais exibida no 'Allegro vivace'; para as águas profundas e o tempo retardado do 'Adagio mesto' (aqui, sim, Kissin, sustentou o 'tempo' que escolheu!) e para a clareza, brilho e carácter "imperial" da 'Fuga' conclusiva.

A 2.ª parte abriu, como referido, com o Nocturno em láb M. Kissin optou por

um 'legato' infinito, que se prolongou na regularidade da pulsação-base (só acrescida de mais 'rubati' e breves 'accelerandi' na secção central), mas o 'toucher' com que abordou as notas do canto pareceu-nos carente ainda de ser limado nas arestas.

Por fim, a 'Sonata, op. 58' voltou a mostrar-nos o Kissin dos cumes atingidos no Barber, mas desta feita numa obra consagrada do repertório. Mas, aqui, uma reserva se nos impõe referir, com duas facetas: por um lado, a generosidade com que Kissin incorre genericamente no 'tempo rubato'; por outro, a abordagem ao 2.º tema do 'Allegro' inicial e ao outro motivo, mais meditativo, que aparece depois (enorme contraste de 'tempo' com a envolvente), levou a obra para fora do sonatístico, na direcção de géneros outros praticados por Chopin. Isso retirou coesão ao andamento, para mais uma forma-sonata!

O 'Scherzo' teve uma ligeira imperfeição no desenho inicial, mas a seguir, nada mais de 'im-', só perfeição: quer no 'Largo', quer no 'Presto non tanto', Kissin criou universos contrastadíssimos, mas cujas entranhas revolveu e no-las mostrou.

No final, três extras: 'Mazurca' de Chopin, 'Variações op. 76' de Beethoven e 'Marcha do 'Amor das três Laranjas'', de Prokófiev.

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