Os primeiros caloiros do rock 'made in' Portugal

Antologia recorda gravações nos 50 anos da edição do primeiro disco do género.

Foi em finais de Outubro de 1960. A Valentim de Carvalho lançava um disco de 45 rotações, duas canções de cada lado, metade do alinhamento por conta d'Os Conchas, a outra cabendo a Daniel Bacelar. Os primeiros apresentavam versões de Neil Sedaka e dos Everly Brothers. O segundo, que chegou a ser referido como o Ricky Nelson português, revelava dois temas originais. Com o título comum Caloiros da Canção, o disco assinalava o nascimento em disco do rock em Portugal. 50 anos depois, e com o mesmo título, uma antologia recupera, além dessas quatro canções, outros 25 temas de bandas que entre nós escreveram as primeiras páginas do rock'n'roll com bilhete de identidade português.

O nome, Caloiros da Canção, na verdade não era senão o de um concurso que se acompanhava através do Clube das Dez, na Rádio Renascença. Os Conchas tinham ganho a categoria de "conjuntos". Daniel Bacelar não chegara a concorrer, mas foi integrado no EP como "revelação", como recorda Luís Pinheiro de Almeida, responsável por esta nova antologia, no texto que abre o booklet.

"Tivemos o maior sucesso porque não havia música para a juventude", explica José Manuel Concha num dos testemunhos que lemos no mesmo booklet. "Ainda por cima cantávamos em português o que se passava lá fora e éramos uns putos giraços", acrescenta o músico que, contudo, lembra que "a tropa é que nos separou antes do tempo".

Luís Pinheiro de Almeida recorda que nomes como Os Conchas, Daniel Bacelar, o Zeca do Rock, Fernando Conde e Victor Gomes "eram decalques do que se fazia lá fora, sobretudo depois da projecção em Portugal do filme Sementes da Violência". Mas depois "as próprias bandas portuguesas evoluíram noutro sentido" e a primeira grande influência que se sente no rock português chega com os Shadows "por causa do [filme] Mocidade em Férias, com Cliff Richard". Grupos como os Titãs ou o Conjunto Mistério "começaram a levar para as guitarras eléctricas canções de Zeca Afonso, e do cancioneiro popular português". A segunda fase chegaria depois, já sob a influência dos Beatles, "que começa com o Conjunto Mistério e a sua passagem para Quarteto 1111, e depois do concurso no Teatro Monumental", descreve.

Caloiros da Canção conta precisamente esta história. Com o formato de um disco de 45 rotações em vinil (reproduzindo a capa do histórico EP de 1960), apresenta no CD1 as quatro faixas desse disco pioneiro e, no CD2, um alinhamento que recolhe canções que evocam o rock português dos anos 60 através de bandas como os Sheiks, o Conjunto Mistério, o Zeca do Rock, os Espaciais, o Quarteto 1111 ou o Conjunto Académico João Paulo. Mas "há milhares de coisas que ainda estão por desvendar", alerta Luís Pinheiro de Almeida.

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