Morreu Tó Neto, pioneiro português da música eletrónica

Foi o autor do mítico álbum 'Láctea' (1983) e importante pioneiro na utilização das eletrónicas no panorama da música portuguesa em inícios dos anos 80.

Com uma imagem captada no Planetário Calouste Gulbenkian, onde o disco foi apresentado em 1983, 'Láctea' está registado na história da música popular portuguesa como um dos primeiros álbuns essencialmente dedicados à exploração de electrónicas. E Tó Neto, o seu autor, deve ser assim ser reconhecido como um dos mais ilustres pioneiros de uma abordagem pop a estes instrumentos entre o panorama de um Portugal que, na alvorada dos anos 80, fervilhava em acontecimentos. O músico morreu este domingo em Lagos, vítima de um ataque cardíaco. O funeral realiza-se amanhã, em Ferreira do Alentejo.

Na altura em que o disco foi editado, e até pela relativa familiaridade dos registos sonoros que o álbum 'Láctea' nos mostrava, Tó Neto chegou mesmo a ser apelidado como o Jean Michel Jarre português, expressão que evidenciava a popularidade que o músico francês então gozava já entre nós, sobretudo graças ao impacte do álbum ao vivo Les Concerts en Chine.

Natural de Angola, onde nasceu em 1955, António Eduardo Benidy Neto chegou a Lisboa em meados dos anos 70 para estudar na Academia dos Amadores de Música e no Hot Clube. Filho de um engenheiro que focava atenções entre os domínios do som e das electrónicas, Tó Neto emergiu em inícios dos oitentas como expressão natural de sinais de um tempo em que as eletrónicas ganhavam evidente protagonismo no panorama da música pop, ao mesmo tempo refletindo ecos de uma atenção pelos domínios do rock progressivo e pelos caminhos que alguma música instrumental tinha percorrido nos anos 70.

Editado em 1983 pela Sassetti, Láctea foi o seu disco de estreia, gerando algum impacte mediático no momento, mas com o tempo acabando relativamente ignorado, o que não o impediu de se transformar numa peça disputada no circuito do colecionismo na sua edição original em vinil. Gravado no Angel Studio sob produção de Eduardo Paes Mamede, o disco apresentava Tó Neto como único instrumentista e uma série de teclados como as ferramentas à sua disposição. O disco teve ainda considerável projeção televisiva, uma vez que algumas faixas acabaram por surgir em programas da RTP. A Láctea seguiram-se Big Bang (Materfonis, 1986) e O Negro (1989, MBP), entre os álbuns mantendo não apenas ativa a sua exploração de registos eletrónicos, mas também uma progressivamente mais evidente expressão das suas raízes africanas.

Nos anos 80 trabalhou como músico residente na RTP e, nos noventas, formou-se em Los Angeles, preparando um caminho profissional na área do ensino da música electrónica. A sua discografia posterior aos oitentas inclui os álbuns Wave View (1992), Angola (1994) e Planetário (1999). Néctar, disponível na sua loja online, era o seu mais recente disco.

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