"Mindelo sem Cise [Cesária Évora] não será o mesmo"

Dezenas de artistas despediram-se hoje de Cesária Évora (Cise), no Palácio do Povo, onde os restos mortais da cantora cabo-verdiana estiveram depositados para receber homenagens.

Mayra Andradre, Lura, Tó e Quim Alves, Bau, Nolito, Gabriela, Voginha, Tey e Jorge Sousa foram alguns dos músicos que com ela dividiram o palco e acompanharam o cortejo do funeral, sempre a entoar mornas, desde o Palácio do Povo até à sepultura.

Mayra Andrade e Lura foram as primeiras a cantar músicas gravadas por Cesária Évora.

Mayra Andrade, que dividiu o palco com Cesária Évora durante alguns espectáculos, disse à Lusa que tem recebido mensagens de artistas, das mais diversas partes do mundo - "o que demonstra a grandeza da nossa Cise", como disse -, desde que se soube da morte.

"Nem sei explicar o que sinto com a morte de Cesária Évora. Depois de ela ter abandonado os palcos, tinha a expectativa que ia agora aproveitar a vida. Mas sabemos que ela era uma 'bom vivant' e gostava de aproveitar a vida, e preferiu viver como quis até ao fim", disse.

Mayra Andrade disse ainda que Cesária Évora foi uma das suas referências principais, desde que começou a carreira artística há cerca de dez anos.

"Cesária Évora, juntamente com o Bana, era as minhas referências principais. Lembro de dividir o palco com ela várias vezes. Era mais do que uma experiência artística, era emocional, porque para mim Cesária era única", acrescentou.

"Ela emocionava-me muito em palco. Conheci a Cesária Évora aos doze anos, fui assistir a um espectáculo dela e no fim disse-lhe que queria ser artista e ela disse-me: não te esqueças que quem decide é o público, ele é que sabe se mereces estar aqui em baixo ou lá em cima no palco. Foram palavras que nunca esqueci e, de certa forma, uma bênção", recordou.

Considerada como uma das "sucessoras" de Cesária Évora, Mayra Andrade recusa o rótulo explicando que a "Diva Cise" é insubstituível.

"Há dez anos, desde que comecei a cantar, que ouço a imprensa dizer que serei a sucessora de Cesária. Vou ganhando alguma intolerância a essa palavra. Posso ser uma das herdeiras dela, mas o meu percurso é diferente do dela", argumentou.

"Antes das minhas razões, das diferenças musicais e de percurso, achei sempre uma falta de respeito para com ela, enquanto ela esteve viva, dizer que as sucessoras já existiam. Isso sempre me incomodou", considerou.

Também para o violinista Bau, Cesária Évora é "insubstituível" e considerou que a sua ausência ficará no coração de todos os músicos cabo-verdianos.

"Participei em várias 'tournées' com a Cesária e posso dizer que qualquer pessoa que tenha convivido com ela nunca a esquecerá. Para além da Diva que o mundo conhecia e que levou o nome de Cabo Verde a todo mundo, era uma pessoa simpática que no camarim ou nos intervalos convivia com os músicos, brincava, contava anedotas. Era sempre uma alegria estar perto dela", lembrou.

O empresário Djô da Silva, que durante mais de vinte anos acompanhou a artista, disse à Agência Lusa que a perda é "irreparável" e que esperou nunca ter de viver este dia.

"Estou a viver o dia que temi viver toda a minha vida. É uma dor muito grande, porque há muito tempo deixou de ser uma relação de empresário/artista para passar a ser uma relação de mãe e filho", disse.

Centenas acompanharam o corpo

Antes, centenas de pessoas acompanharam a transladação dos restos mortais da cantora Cesária Évora do Hospital Baptista de Souza, onde morreu no sábado, para a casa da artista, no dia em que o Mindelo parou para a homenagear.

"À saída do hospital, no Mindelo, familiares, artistas, cidadãos mindelenses e turistas que se encontram na cidade saudaram a artista com palmas e muito choro. Cesária Évora, que morreu no sábado aos 70 anos, foi enterrada hoje à tarde no cemitério de São Vicente, sua ilha natal.

Já na casa de família, Cesária Évora foi saudada com uma morna pelos músicos presentes e durante alguns minutos o caixão esteve coberto com uma bandeira do Futebol Clube do Porto, homenagem de uma fã portuguesa. "Ela era apaixonada por futebol e pelo Futebol Clube do Porto. Por isso, a senhora portuguesa colocou a bandeira e deixámos durante algum tempo, porque achamos que ela gostaria dessa homenagem", disse à agência Lusa, entre lágrimas, o neto de Cesária Évora, Adilson Évora. A chegada do corpo da cantora foi acompanhada por dezenas de pessoas, algumas levando flores, num dia em que Mindelo parou para acompanhar Cesária Évora à sua última morada.

"Não podia ser diferente, Cesária Évora era a alma desta cidade e portanto todos devemos 'fineza' a Cise". Estamos aqui e de certeza que a cidade inteira irá acompanhá-la à sua última morada", disse à Lusa Marcos Pires, um mindelense que acompanhou o trajecto do hospital até à casa da artista. "Nós éramos vizinhas desde há mais de vinte anos. Conheci-a menina ainda e posso dizer que ela não mudou com a fama, Cesária permaneceu fiel a si mesma, simpática, alegre e muito amiga de todos. Era uma excelente pessoa", desabafou à Lusa Maria da Cruz, em lágrimas. "Todos nós, os vizinhos, falamos muito bem dela. Sempre que chegava de viagem a casa transformava-se num entrar e sair de gente. Ela recebia a todos, ajudava os que precisavam", disse uma outra vizinha, Joana Silva, que garante que "Mindelo sem Cise nunca mais será o mesmo".

"Esta rua é conhecida como a Rua da Cesária e espero que as autoridades saibam reconhecer isso e que passe a ser o nome oficial", declarou um outro vizinho Lima Santos, que conviveu com Cesária Évora há mais de trinta anos.

O corpo de Cesária Évora foi levado para o Palácio do Povo, o símbolo da República em São Vicente, onde lhe foram prestadas honras de Estado pelo Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, pelo primeiro-ministro, José Maria Neves, e pelo Presidente da Assembleia Nacional.

A cerimónia fúnebre foi realizada por volta das 16:00 (locais), pelo bispo do Mindelo, Monsenhor Ildo Strong.

Em Lisboa a cantora foi também recordada numa cerimónia que se realizou no salão nobre da Câmara Municipal, feita por cidadãos cabo-verdianos radicados em Portugal. Em 2009 Sarkozy entregou à "diva dos pés descalços" a medalha da Legião de Honra.

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