Panda Bear conquistou na sua noite no Lux

Como prometido o músico apresentou apenas inéditos que deverão figurar num próximo álbum. Eric Copeland, Actress, bEEdEEgEE e Niagara foram outros dos músicos que passaram pela discoteca lisboeta.

Apresentar primeiro ao vivo uma mão cheia de canções inéditas, antes ainda de ter um álbum novo finalizado, já é prática corrente de Panda Bear (Noah Lennox), tanto no seu projeto a solo, como quando está acompanhado pelos seus colegas nos Animal Collective. No Lux, onde ontem atuou, tendo sido o curador de mais uma noite Green Ray, voltou a repetir a faceta e deu aquele que se pode assegurar como um dos concertos mais marcantes que Lisboa recebeu ao longo deste ano.

Apesar de já existir uma afinidade com a obra do músico, a verdade é que um espetáculo destes moldes não permite uma envolvência imediata, dado que desde o primeiro minuto se está a pisar terreno desconhecido para quem ouve (e vê). O concerto de Panda Bear começou também com uma exploração de paletas eletrónicas mais abrasivas e rugosas, com um trabalho mais vincado nas estruturas rítmicas e que fazia antever um distanciamento do aprumo pop a que levou cabo, de forma pouco convencional diga-se, no último Tomboy (2011). Esses temas iniciais enganaram. Mantendo afinidades com correntes da música de dança e com eletrónicas mais repetitivas, por vezes próxima do minimalismo, ontem à noite Panda Bear voltou a deixar muito vincada a ideia que é um dos grandes compositores de canções do nosso tempo. Os inéditos que apresentou revelam algumas das linhas melódicas vocais mais fortes do seu percurso a solo. São canções que voltam a baralhar as regras formalistas da pop, nunca o deixando de o ser, mas com uma personalidade tão vincada que poderiam ser outra coisa qualquer, sem estarem presas a gavetas estilísticas rígidas. A balada que apresentou na reta final do concerto, com uma melodia profundamente emotiva, da qual não se pode separar a entrega interpretativa, quase se poderia explicar como a visão de Panda Bear do yé yé, arrisca-se a ser uma das canções mais bonitas de 2014, e o novo ano ainda nem começou.

Mas, apesar de ter sido claramente a estrela da noite, muito mais se viveu ontem no Lux. Os concertos, aliás, começaram ainda antes de Panda Bear, com Eric Copeland, o membro dos Black Dice, que recentemente lançou a solo Joke in the Hole. Uma amálgama sonora, onde samples difusos chocam entre si, mas, no seu todo, conseguindo criar uma dinâmica rítmica que tornou a experiência envolvente.

Depois de Panda Bear seguiu-se bEEdEEgEE, projeto a solo de Brian DeGraw, dos Gang Gang Dance, que também muito recentemente lançou o álbum SUM/ONE. Mais que tudo foi uma experiência visual. O músico atuou dentro de uma cúpula de cortinas transparentes, onde iam sendo projetadas imagens com o mesmo carácter psicadélico que a sua música. Esta começou por ser mais contemplativa, aproximando-se a par e passo de formas de música de dança que escapam a cânones. Não se esperaria que repetisse as canções do álbum tal como as concebeu para esse formato, o que tornou ainda melhor a experiência, até porque em determinados casos os temas ganharam abordagens mais interessantes em palco, como aconteceu com a canção (F.U.T.D.) Time of Waste, que sem a voz de Alexis Taylor, que a prendia demasiado ao universo Hot Chip, se tornou em algo bem distinto.

A noite seguiu com o britânico Darren J. Cunningham, mais conhecido como Actress, que ainda no ano passado lançou o muito aclamado álbum R.I.P. Ainda que seja constantemente aplaudido pelo carácter experimental com que trabalha um híbrido sonoro, que pode passar pela jack house até à escola techno de Detroit, ainda assim a sua música acaba por ser tão cerebral e, por isso, muito pouco instintiva, que a envolvência é dificultada.

O mesmo não se passou com os Niagara, que começaram a atuar, junto ao bar do Lux, já na fase final de Actress. O trio de Loures, que se estreou este ano com o EP Ouro Oeste (pela Príncipe Discos), mostrou porque são dos nomes a ter mais em conta no cenário contemporâneo da música de dança produzida em Portugal. Recordaram a fase de ouro da Kaos Records, não descurando nunca da sua personalidade musical, onde a abordagem quase lo-fi os leva por caminhos mais abstratos, mas quase romântico na sua intuição.

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