Gravação histórica de Maria Teresa de Noronha em CD

O último programa da fadista na antiga Emissora Nacional, gravado há 50 anos, é reeditado agora em CD pela Fundação Manuel Simões, depois de ter sido editado pela primeira vez em 1995.

Apresentação, Fado da Verdade, Variações em ré menor, Fado Hilário, Rapsódia de fados, Fado Anadia e Palavras finais integram o disco, que é editado em colaboração com o Museu do Fado, e do qual um euro de cada CD reverte a favor da operação Nariz Vermelho, informou a fundação. O disco foi gravado no último programa semanal que a fadista manteve na Emissora Nacional, desde julho de 1939.

A fadista começou a cantar na década de 1930, foi sempre acompanhada pelo guitarrista Raul Nery e depressa chamou a atenção pelo timbre claro e interpretação sem mácula, tendo obtido grande sucesso em Portugal e no estrangeiro, quando o circuito da world music ainda não existia.

Admirador confesso de Maria Teresa de Noronha, o editor discográfico Manuel Simões dizia que a fadista "cantou sempre com enorme sentimento, dignidade e sentido de rigor", além de ter uma "voz clara, certa nos tempos melódicos" e "com umas pausas extraordinárias". Para o músico Segismundo de Bragança, que facilitou a fita magnética a Manuel Simões, este disco torna-se mais fundamental por a bobina original do programa se ter perdido. Do repertório escolhido por Maria Teresa de Noronha, destaca-se Fado Hilário, um fado de Coimbra que a fadista foi a primeira mulher a cantar. Para o estudioso Rui Vieira Nery, Maria Teresa de Noronha era "única na forma de criar um pathos, uma tensão dramática que criava nas suas interpretações, quando suspendia a melodia e surgia só a sua voz".

Maria Teresa de Noronha - que nasceu em Lisboa em 07 de setembro de 1908 e morreu em Sintra a 05 de junho de 1993 - estudou canto lírico e integrou o coro do Teatro de São Carlos, tendo gravado o primeiro disco em 1939. Na década de 1940, fez uma digressão por Espanha, seguindo-se o Brasil, onde "obteve um estrondoso êxito", como testemunhou, na época, Raul Nery. Cerca de 20 anos mais tarde, na década de 1960, regressou ao Brasil, apresentou-se num programa da BBC, cantou para as famílias reais da Grã-Bretanha e do Mónaco e, em 1969, foi convidada especial no Festival RTP da Canção.

Instituída ainda em vida pelo editor discográfico Manuel Simões (1917-2008), a fundação homónima tem como objetivo divulgar a cultura e o património fadistas, e conquistar mais público para o fado. O organismo é detentor de todo o espólio fonográfico da antiga Estoril Discos, cujo arquivo contém gravações históricas de fadistas como Berta Cardoso, Tristão da Silva ou Maria José da Guia.

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