Ex-bailarina da Gulbenkian estreia-se em disco

O álbum de estreia de Adriana Queiroz, ex-primeira bailarina do Ballet Gulbenkian e atriz há 10 anos, é editado amanhã reunindo composições inéditas e temas de outros repertórios, como "A noite passada", de Sérgio Godinho.

Em declarações à Lusa, esta também antiga balarina da Companhia Nacional de Bailado, com antecedentes familiares na música, decidiu começar a cantar há cerca de quatro anos, fortemente influencia pela alemã Ute Lemper.

"Ariadne" é o título do álbum que foi produzido por Pedro Jóia, também diretor musical e que, sendo um disco de Adriana Queiroz, "tem uma pegada muito grande de Pedro Jóia, que se estreia neste álbum como letrista", disse a intérprete.

"O papel de Pedro [Jóia], amigo de há 20 anos, foi absolutamente, essencial. Fizemos apenas um acordo - eu propunha uma canção e ele outra, para integrar o CD, o resto foi crescendo, com calma, serenamente", disse a cantora que, assumido o projeto, esteve um longo período de cama, devido a um acidente de trabalho que lhe "furou a espinal medula na zona lombar", contou.

Adriana Queiroz propôs "Índia Song", de Marguerite Duras e Carlos Alessio, para o álbum, pois reconhece uma forte influência em si dos "cantautores" franceses como Leo Ferré e Jacques Brel, enquanto Pedro Jóia lhe propôs "Alfonsina y el mar", de Ariel Ramirez e Felix Luna.

Do álbum, que será apresentado no dia 29, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, constam 12 temas, um deles, "Barca", composto por Amélia Muge, que é, afirmou a cantora, o seu retrato.

"Eu até a brincar apresento este tema como Adriana Queiroz por Amélia Muge, porque aquilo sou eu", disse.

Entre os originais constam ainda "Ariadne", de Muge e Jóia, que dá título ao álbum editado pela Grão.

"Ícaro", de Pedro Jóia, "Ao preço da chuva", de Tiago Torres da Silva e Jóia, e "Sem parar", de Muge e Manuel Paulo, são outros dos originais.

Das canções que foi buscar a outros repertórios, a cantora gravou, "Índia song" e "Alfonsina y el mar", "Rosalinda", de Fausto, "Viajante", assinado por Teresa Tinoco, e "Balada da Rita", composta por Sérgio Godinho para o filme de Fonseca e Costa "Kilas, o mau da fita", vindo depois a integrar o álbum "Pano Cru", de 1978, além de "A noite passada", que remonta ao segundo álbum do "cantautor", "Pré-Histórias", de 1972.

Adriana Queiroz afirmou à Lusa que quer é "ser intérprete".

"Não estou à procura de uma sonoridade própria, além da minha voz - disse a cantora -, o que eu quero é conhecer o mundo dos poetas". E, entre os seus desejos, está a abordagem do "repertório de Ute Lemper, fazer um projeto com poesia de José Carlos Ary dos Santos e cantar Pedro Homem de Mello".

"O disco é uma mescla de 'cantautores' de que eu gosto, com alguns inéditos. O que eu gosto é da palavra, e gostava de elevar a minha voz à poesia", afirmou.

Adriana Queiroz só cantou pela primeira vez em público há quatro anos, para uma audição para o musical "Cabaret", embora assegure que "cantar é visceral e físico, como a dança".

No disco, é acompanhada por Filipe Raposo (piano), Pedro Jóia (guitarra), Yuri Daniel (baixo elétrico e contrabaixo), Mário Delgado (guitarra elétrica), Vicky Marques (percussões), contando ainda com a participação especial de Luanda Cozetti, no tema "Ícaro".

Desvendando as suas origens, Adriana Queiroz revela à Lusa que é filha dos cantores Mimi Gaspar e Tomé Barros Queiroz, antigas vedetas da rádio e dos palcos do Parque Mayer, além de ser sobrinha, neta e bisneta de cantores líricos.

Quando ao álbum, afirmou: "Este disco fala da minha busca incessante, do conhecer o mundo dos outros, e também da solidão em que as pessoas estão. Isso inquieta-me - eu estive seis meses numa cama a ver a vida a passar lá fora".

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